O DESÂNIMO
"Na verdade, nenhuma correcção parece no momento ser motivo de gozo, porém de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos que por ele têm sido exercitados. Portanto levantai as mãos cansadas e os joelhos vacilantes e fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que é manco não se desvie, antes seja curado. Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor", Heb.12:11-14

O cansaço e a vacilação são sintomas de desânimo, mais do que de extenuação. E o desânimo nem será sinónimo de fraqueza, mas antes de resistência a Deus. No entanto, temos de distinguir entre duas coisas desde logo: entre a vida de alguém que, não apenas entregou sua vida a Deus e a limpou convenientemente, mas que a entregou de forma real e precisa sobre questões que importam a Deus (pois muitas vezes as pessoas confundem seus sentimentalismos e desejos com aquilo que Deus quer quando é precisamente desses sentimentalismos que Deus quer salvar e tirar); e, em segundo lugar, teremos necessariamente de desligar tudo aquilo que vamos aqui falar, daquelas pessoas que, por muito crentes que sejam, não deixaram suas vidas permanentemente entregues em sua totalidade pormenorizada nas mãos eficazes de Deus e isso por uma ou outra razão que apenas o próprio poderá explicar, decifrar ou entender.

O desânimo numa pessoa entregue a Deus revela a quantidade de amor por pecado ou pelo próprio que ainda subsiste dentro dele mesmo. É proporcional. Com isto quero dizer que a pessoa pode medir o amor que ainda nutre por si próprio pela quantidade de desânimo que encontra dentro de seu coração, na vida, no dia-a-dia, no trabalho, na obra, desânimo esse que ainda experimenta sempre que Deus opera tanto em seu interior quanto em seu exterior pela providência de situações que se devem às circunstâncias que ainda nos cercam cá na terra. A quantidade de desânimo reflecte directamente a quantidade de amor-próprio ainda existente em nós e a cobrança que ele ainda faz e o tamanho do desejo e do empreendimento e esforço que colocamos no nosso ser para concretizarmos e satisfazermos esse mesmo amor perverso e pervertido. Muitos crentes estão em relação a Deus e ao amor como os homossexuais estão em relação ao sexo: são pervertidos. O amor é para amarmos e servirmos e não para sermos amados. Só amando seremos amados de igual modo ou ainda mais. Haja uma pessoa que ame primeiro assim sem condições e sem exigências e logo haverá muitas mais a fazerem o mesmo do mesmo jeito peculiar que Deus alimenta depois de fazer nascer, através daquela simplicidade que não se consegue imitar, mas, apenas viver e experimentar.

A pessoa desanimada tem seus motivos muito deturpados em relação a Deus. Por isso desanima, pois Deus não cede e a pessoa também não quer ceder. A pessoa desanima apenas porque resiste quando Deus insiste. Ela resiste a algo que Deus quer fazer e exigindo ainda que Deus faça o que ela quer que seja feito. Se cooperasse com deus deixaria de cansar-se. Creio firmemente, também, que essa pessoa tem uma expectativa de e sobre Deus muito diferente daquela que Deus tem na mão e, se existe desânimo, será porque existe confrontação silenciosa e invisível entre Deus e criatura. Esse confronto pode nem estar directamente relacionado com aquilo que se deseja alcançar de Deus. Uma coisa pode mesmo estar a impedir a outra. Essa resistência pode estar a dar-se noutra área da vida da pessoa. Deus quer e exige que essa pessoa ame incondicionalmente e que para isso reveja seus padrões sobre o amor, pois o amor real também castiga e repreende e não encoraja apenas mas também impede. Para Deus não conta se somos ricos, se somos pobres, se somos bonitos ou se somos feios, mas apenas se usufruímos de santidade em tudo quanto podemos fazer cá na terra. Se somos escravos, então que trabalhemos como se não fossemos para nosso patrão e dono, fazendo de livre vontade o que antes faríamos apenas chicoteados. Muitas vezes, não importa o nosso local de trabalho nem o tipo de trabalho, mas antes o jeito como o empreendemos, pois convenhamos que a fidelidade não precisa de ter um outro objectivo acima de ser fiel naquilo que faz, isto é, não é para ser fiel ao que se faz mas antes fiel através do que se faz e como se pode fazer – independentemente da recompensa ou falta dela. Nós não podemos ser fiéis ao trabalho e ao empreendimento, mas ser fiéis a Deus no e através do trabalho que fazemos. Se ser fiel é deixar o trabalho, assim faremos também sem quaisquer murmurações. Aprender a ser fiel e fidedigno é tudo que Deus quer alcançar através dum emprego ou da falta dele. O que Deus quer alcançar em nós é a fidelidade e não o trabalho, a precaução e não a preocupação, a sinceridade e não obstinação, a honestidade e não a irreverência, a persistência e não a teimosia, a paz em situações difíceis e complicadas, as quais nos começam a parecer fáceis porque nada nos faltará de Deus dentro dessas mesmas circunstâncias caso nossos corações estejam mesmo limpos diante d'Ele. Como Paulo afirmou, "nem a morte, nem a angústia, nem a perseguição nos poderão separar desse amor de Deus" (aquele amor que é derramado dentro de nós para que amemos e não para que sejamos amados, pois já somos amados), Rom.8:35.

Todo aquele que possa ser deveras achado sob a alçada da disciplina carinhosa, inteligente e intransigente de Deus, sendo que Ele não desiste nem recua operando contra nossa própria vida, (pois, muitos acham que estão sob essa disciplina, achando-se apenas sob as consequências directas de todo seu pecado sofrendo as consequências do pecado e não da disciplina), tem de saber que lemos aqui assim, como ordem e como mandamento: "Portanto levantai as mãos cansadas e os joelhos vacilantes e fazei veredas direitas para os vossos pés". Quem desanima pode estar a sofrer as consequências dum caminho e duma vereda que escolheu para si que não está direito aos olhos de Deus, mesmo que pareça certo e direito a seus próprios olhos devido ao amor que ainda nutre por si próprio. Levantando as nossas mãos negamo-nos a nós mesmos nessas circunstâncias e não as circunstâncias. O Senhor Jesus afirmou que, "aquele que não se negar a si mesmo e sua própria vida, não pode ser meu discípulo". Ele nem falou de negarmos as circunstancias, mas antes a nós mesmos nelas. Não importa onde e como, pois isso terá de ser incondicionalmente conseguido.

A "Própria vida" à qual o Senhor se refere frequentemente e os próprios anseios de promovê-la e estabelecê-la tal qual ela pode ser, são a principal causa do desânimo naqueles que se podem achar bem com Deus ou em vias de estar em paz com Ele. Eu costumo afirmar que aquilo que cansa não é o labor nem o trabalho, mas é o trabalhador. Quem somos é que nos cansa interiormente. Se entregamos nossas vidas a Deus para Ele cuidar delas, Ele cuidará de tudo quanto Lhe entregamos, sem sombra de qualquer dúvida – que ninguém duvide disso. Se obedecemos mediante revelação e manifestação d’Ele - e se a revelação não for falsa - bastará vivermos apenas o dia de hoje em total obediência e abstinência de qualquer aparência de pecado; se nos movemos dentro das chamas da santidade e do amor como Deus o tem e distribui para o vivermos distribuindo, será apenas uma questão de tempo até que, não apenas alcancemos aquelas coisas de que sentimos necessidade, mas alcancemos um espírito certo da parte de Deus para podermos usufruir e conviver com elas duma forma celestial e não terrena. "Cria em mim, Senhor, um espírito recto…" diz o Salmista no Salmo 51. Se nos propormos achar a personalidade para nós mesmos que Deus nos quer dar, vivendo-a, experimentando-a e não mais fingindo-a, seremos bem-aventurados se não virmos a desistir de tudo quanto poderemos alcançar de Deus ainda nesta presente vida.

A "própria vida", acima de ser algo errado e que faz errar, tem um jeito próprio de fazer tudo e de apoderar-se de tudo como se o bem fosse terminar logo. É como quem ama o dinheiro: em vez de fazer uso dele, ama-o tanto que o guarda até morrer e nem se chega a saber se é o dinheiro que sufoca quem o guarda ou se é a pessoa que sufoca o dinheiro que tem para não deixar de o ter. Mais que deixar e abandonar "a própria vida", Deus quer que nos usemos tudo para agarrarmos o jeito certo e isso dentro de nós (e não para incrementar o pecado), através de algo que antes seriam anseios e desejos incondicionais e exigentes, para que ganhemos uma forma de estar em relação às PRÓPRIAS coisas que em tudo glorifique Deus. Isto é, não é abandonar o anseio pelo filho que desejamos que nos levará à santidade através do sacrifício e abandono desse desejo, mas será conseguir esse mesmo filho de Deus que antes ansiávamos para nós para o dedicarmos a Deus após Deus haver-nos dado nosso pedido, conforme Ana fez com Samuel. O filho que não conseguia ter e que era motivo de enorme tristeza e egoísmo para ela, foi, mesmo assim, pedido a Deus sem que desistisse dele apenas porque descobriu ser estéril ou egoísta, 1 Samuel1 e 2. Ana anulou o egoísmo do pedido e alcançou o filho dela prometendo-o de volta a Deus e entregando-o de seguida. Do modo que ela entregava o seu coração e membros para obrar o pecado, agora fazia-o para Deus, entregando a Deus. "Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para obedecerdes às suas concupiscências; nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado como instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como redivivos dentre os mortos e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça", Rom.6:12-13. Ela não pediu a Deus um filho para ela e terminou de o desejar para ela própria sem nunca desistir desse filho e sem se entregar minimamente ao desânimo que foi tentada a sentir por não conseguir obtê-lo.

Deus, quando impede algo, pode significar que esse algo não é da Sua vontade para nossas vidas. Mas, Deus impediu Isabel de ter um filho e ela era considerada uma mulher amaldiçoada por essa razão, sendo que seria vontade d’Ele esse filho ser colocado nas mãos dela para ser dedicado a Ele. Você conseguiria cuidar de um filho para Deus havendo-o desejado muito para si própria? E quando Deus veio dar-lhe o desejado filho, nasceu João Batista, o maior entre todos os nascidos de mulher. Com isso entendemos que Ele também impede precisamente porque esse algo é a Sua própria vontade para as nossas vidas sobre a qual nos tornamos egoístas e sobre a qual nos teremos de corrigir interiormente sem desistir do que desejamos. João seria trazido para o mundo para servir Deus e não apenas servir os anseios duma mulher considerada estéril e amaldiçoada. Durante aquele processo de impedimento da parte de Deus e de busca da nossa parte daquilo que em circunstâncias anteriores de vida antiga seria um usufruir e gozar de atitudes egoístas e vacilantes em nós mesmos caso o recebêssemos assim sem santificação (pois tudo que é egoísta é vacilante e inconstante mas pode ser santo e santificado a Deus); agora Deus  propõe-se alcançar de nós um coração puro dentro daquelas coisas que antes seriam motivo de queda para nós – e não fora delas. Será por elas que nos santificaremos e não fora delas. A abstenção das coisas desta vida que são pecaminosas, nunca trouxe a quebra de amor por elas dentro de nós, mas apenas a aparência e o engano. É na presença delas que temos de comprovar o que somos ou se fomos transformados. Isto é, se um emprego ou a falta dele era antes um motivo de preocupação, agora torna-se vital que esse mesmo emprego não seja abandonado porque servirá como forma de se buscar a confiança. O que Deus pretende alcançar é a confiança e não a abstinência e renuncia do emprego. O objecto da nossa preocupação será prontamente usado por Deus para fazermos nele e com ele o oposto do que faríamos antes. "Nem apresenteis os vossos membros ao pecado como instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos entre os mortos e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça. Pois o pecado não terá domínio sobre vós, porquanto estais debaixo da graça", Rom.6:13-14.  Esta é a verdadeira liberdade que Deus nos promete dar. Qual a pessoa mais santa, aquela que se abstém de olhar para mulher ou aquela que olha sem se sujar e sem ver mulher como um objecto de satisfação mas antes de salvação?

Quem se abstém de viver no mundo, não está livre de pecado ainda – a menos que seja esse o único recurso que acha para se poder livrar da tentação, pois até Jesus disse "SE tua mão te faz tropeçar, corta-a fora e lança-a para longe de ti" e convenhamos que Ele estava certo. Mas pode-se dar o caso dessa mesma mão não nos fazer tropeçar mais, de se haver santificado para pertencer só a Deus, o que se distinguirá como uma libertação verdadeira. Qualquer alcoolizado saberá se está mesmo livre de seu álcool quando entrar na taberna ou num supermercado onde tem bebida alcoólica. Sem bebida por perto, ele não beberá, é um facto assumido, mas com bebida por perto ele saberá se está mesmo livre da sua escravidão anterior ou não. Cada tentação pode ser uma oportunidade de prova e comprovação de obra feita interiormente também. Nunca nos enganemos, no entanto, pois o pecado é muito subtil, persuasivo e leviano no engano. Melhor será abstermo-nos que cairmos nele, sempre. Saibamos, no entanto, que uma prostituta que consegue voltar aos seus antigos clientes para lhes distribuir vida nova em forma de testemunho, é pessoa mais santa que aquela que apenas se abstém da prostituição pelas razões morais que entretanto adquiriu. Paulo voltou aos líderes hebraicos que lhe deram cartas para perseguir a igreja, para lhes trazer o Cristo que perseguiam. Ele voltou às suas origens mas com uma mensagem nova e através duma vida distinta e inimiga da dos Fariseus – seus antigos amigos e companheiros de pecado e obstinação raivosa.

Sempre que Deus nos complica a obtenção ou alcance de algo que sabemos ser a Sua vontade para nós, o melhor é nunca desistirmos disso, mas santificarmo-nos em relação a essa mesma coisa em nossos corações oprimidos e dilacerados pelos egoísmos. Se lermos esta porção de Hebreus 12, lemos precisamente isso: que não devemos desistir de algo tal qual criança faz com birra, chantageando quem impede que ela obtenha, mas antes devemos persistir em alcançar tudo que Deus nos prometeu juntamente com o que fará ainda por nós dentro de nós (e não separadamente). O nosso alvo nunca deverá ser alcançar aquilo que Deus nos prometeu exclusivamente, mas antes alcançar as qualidades interiores que Deus nos dará e sustentará depois de dar, nunca desistindo daquilo que Deus nos prometeu tendo em linha de conta que nosso coração tem de ser santificado por dentro em relação a essas mesmas coisas que anteriormente seriam motivos de discórdia entre nós e Deus devido a nossos motivos em relação ao bem que Deus nos quer dar a viver e a experimentar. Se desistirmos desses objectos, estamos ostensivamente a desistir dos objectos que nos podem santificar ainda, caso sejam usados por Deus em Deus. Muitas pessoas não são baptizadas com o Espírito Santo da maneira Bíblica porque pedem a Deus esse mesmo Baptismo para serem felizes. E mesmo sendo verdade que não existe pessoa na face da terra mais feliz que alguém cheio de Deus e de Seu Espírito, quem não abandonar a própria vida até nesse aspecto, nunca verá Deus a não ser como Juiz de sua vida e motivação.

É de realçar que lemos aqui como conclusão da disciplina de Deus: "Segui (…) a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor". Se desistirmos daquelas coisas que Deus nos prometeu (se prometeu), desistimos, também, de ser aquela pessoa que Deus quer que sejamos, a qual unicamente pode vir a cooperar com Ele. Por essa razão lemos aqui, como se de mandamento sem condições se tratasse, "Levantai as mãos cansadas e os joelhos desconjuntados"! Isto é uma ordem que nos fará viver, revigorar e reviver e não apenas um simples conselho prático. "Orai sem cessar" significa apenas "orar sem desistir de orar e alcançar" aquelas coisas que Deus quer de nós através das que queremos de Deus. Temos fruto para ser por dentro ainda, isto é, amor certo, voluntário e inconscientemente preciso, acima dos pedidos a obter. Mas será maioritariamente através da não desistência desses pedidos (como crianças que fazem birras e cenas) que alcançaremos tudo que Deus quer em nós e de nós: santidade nessas coisas que antes seriam objecto de queda e de pecado para nós. Os objectos são a causa de nosso contacto com Deus, os quais nos colocam experimentando uma Pessoa (Jesus) que nos transformará de glória em glória e nem sempre instantaneamente. "E desejamos que cada um de vós mostre o mesmo zelo até o fim, para completa certeza da esperança; para que não vos torneis indolentes, mas sejais imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas", Heb.6:11-12. Nunca nada é o mesmo quando estamos realmente de bem com Deus. Mas existem pregadores e crentes que não pensam assim porque nunca estiveram, de verdade, muito bem com Deus. "Corrige-te ó homem…." "e teus passos serão todos estabelecidos". Desistir do que Deus prometeu é crime horrendo, é pecado duplo porque se desiste do que devemos ser tanto quanto do que devemos e podemos ter e obter de Deus sendo Sua vontade para nós. E no céu só entra quem fez e faz a vontade de Deus. Tudo que se obtém de Deus é uma dádiva que abençoa tanto tudo que existe dentro de nós, quanto aos que se ainda se possam achar à nossa volta porque aprendem a fazer o mesmo. Amem.

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José Mateus
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