A INSEGURANÇA QUE SE SEGURA

A insegurança instalou-se, regeu e buscou o meio de se manter… insegura.

Como o doente sente falta de sua dor; como o cego, depois de abrir seus olhos, se acha diferente e numa vida onde não se apalpa e não necessita ouvir os ruídos para andar; como o preocupado nunca abre mão de sua preocupação – pensando que só assim pode acrescentar ou diminuir em sua vida; do mesmo modo, a insegurança só quer ser insegura para achar que vive e que está segura. O pecador quer sentir-se pecador para achar que obterá perdão, o santo tem de achar que é santo para achar que será aceite em Cristo. Mas, na verdade, quando Cristo entra e é real, nem a ideia da santidade será sentida como algo a que nos devemos apegar porque o Senhor Jesus tomou Seu devido lugar em nós. "Nem (...) a vida nos separará do amor que está em Cristo Jesus…"

Tenho uma amiga que me pediu para lhe escrever algo que tocasse em seu coração. Mas, como lhe escreverei se isso nunca tocar no meu também? Assim, achei por bem escrever sobre a insegurança que se quer achar segura, tal como o crente falso só se sente bem em sua igreja, mesmo quando Deus não está por lá. Se Deus estiver do lado de fora batendo á porta dela, o crente inseguro só vai escolher estar do lado de dentro e vai querer estar onde Deus não está porque só lá se sente bem firme na insegurança. Viver para Deus é para os audazes, para aqueles que desafiam qualquer mentira e qualquer tipo de engano e não é para os temerosos.

Tudo o que é inseguro é como o Cuco*, pois coloca seus ovos no ninho dos outros pássaros. Mas, para colocar lá o seu (pois nunca choca seu próprio ovo), retira os ovos que lá estavam matando a concorrência do seu filho que outros irão criar por ele. Não existe insegurança que não queira ler a Bíblia mais que os outros, anular a forma certa de falar para poder pregar e falar mais e melhor que os outros e orar em público – e para isso retira de seu horizonte o que é real e natural, o que é simples e destemido, pois, a "própria vida", da qual Cristo tanto falou, quer ser crente a qualquer custo para salvar o que só pode e deve perder.

Toda a ferramenta serve para algo e com ferramenta todo homem faz algo sempre maior que ele próprio. Com isso sente-se seguro, confiante e fiável sendo falível e insignificante à luz da verdade. Por isso o homem não quer a verdade. Com ferramenta se faz avião que voa, automóvel que anda rápido e chega depressa bem longe, falamos dum continente para o outro como se nos estivéssemos fazendo companhia, imaginando-nos um pertinho do outro. Com ferramenta Bíblica o pecador sente-se mais santo que os outros que são realmente santos (e é só isso que ele quer sentir) porque sua arrogância crê e até impõe a Deus colocando seus próprios objectivos, os quais, em sua perspectiva, Deus tem de aceitar e só isso considerará como bênção. Todo inseguro impõe a Deus a sua insegurança, em vez de a exterminar de vez e de a substituir por aquilo que é substancial e eterno (constante e sem altos nem baixos).

O pecador e o santo dificilmente se distinguem um do outro em certos meios, pois o santo  sente-se pecador e o pecador sempre se acha santo; e mesmo Cristo disse para não arrancarmos o joio para não sermos achados a arrancar o trigo, pois, se somos joio poderemos arrancar tudo que não se parece connosco. Mas, virá o tempo em que se distinguirá entre o santo e o ímpio, o joio e o trigo, porque Deus desceu até nós como em Pentecostes, nosso Emanuel, Malaq.3:18. Não é o joio que tem de ser preservado não sendo arrancado, mas mantém-se o trigo não arrancando o joio. O joio não tem mérito não sendo arrancado. Cabe a mim não ser joio, no entanto, cabe a mim semear em meu próprio terreno, Mat.13:24; cabe a mim saber de Deus o que sou e não sou. Mas, sabendo o que sou ou não sou, devo-me agarrar a Quem é para que tudo que sou não se sinta nem seguro, nem inseguro – morto não sente nada do que foi e não se sente bem nem mal. O caminho mais excelente será conhecer, apalpar, ter e ver Cristo como Ele é. Não permanecerei sendo o que fui se Cristo chegar a ser tudo que sou, nem Cristo será em mim aquilo que Ele é se ainda mantiver e guardar um restinho duma vida própria. Cristo é a Vida, eu sou a "própria vida" – só um dos dois sobreviverá em mim: ou Cristo ou a própria vida. Só que Cristo não confiará na "vida própria", mas a "própria vida" quererá confiar em Cristo para sobreviver, enganando-se a ela mesma ainda mais e melhor, através de melhores e maiores recursos.

Cego não vê, mas sente-se seguro quando sabe seu caminho de cor imaginariamente – ainda mais o fará quando achar que tal caminho é o Caminho de Cristo. Se ele não o memorizar achar-se-á perdido, mas se o memorizar não deixará de ser cego. Por isso é que Cristo nem sempre quer que memorizemos nosso caminho. Se o cego chegar a ver seu caminho, sentir-se-á como peixe que tem de nadar em terra, mesmo quando ganhou pernas. Por isso junta o ver com o apalpar antigo, sentindo por onde anda quando já consegue ver. Ele não sabe andar vendo, mas apenas apalpando seu caminho. Nunca ninguém achou fácil mudar seu jeito, sua atitude, perder sua vida e sua essência mais prática – poderá até oferecer seu corpo para sacrifício, 1Cor.13:1,2, mas fará isso para ele próprio, porque se acha capaz disso, se acha amoroso e predestinado para algo. Como qualquer cego deixa e abandona seu jeito com alguma dificuldade apenas, o pecador desiste facilmente das coisas de Deus sempre que se tem de fazer as coisas cá na terra como elas se fazem no céu - do mesmo jeito, através da mesma simplicidade e poder. Será mais fácil para a insegurança desistir do caminho de Deus do que deixar de ser insegura.

Meu Deus, porque razão a segurança se sente insegura estando segura, porque razão quem sente e fala mais alto que os outros é quem é ouvido ainda, se até Tu Te calas em Teu amor? Sof.3:17. Porque a insegurança se sente segura apenas quando é como é, porque só os pecadores se querem sentir santos? Porque os santos se querem sentir pecadores? Porque razão Satanás quer ser Deus, porque razão o ladrão e o empresário querem pegar na Bíblia e dela pregar para enriquecerem? Porque razão, quem se lamenta rejeita a alegria sempre que não pode manter seu lamento e preocupação? Porque razão quem entregou tudo a Deus se sente inseguro e quem se preocupa sente que faz algo de útil? Como viverão nos Teus céus com tais corações que nunca mais mudarão depois da cortina da morte? Porque pensa o homem que mudará no além o que nunca mudou aqui, onde abunda a graça? Se Satanás caiu estando no Céu, porque pensarei que não posso subir deste inferno, porque acham as pessoas que não poderei reverter meu estado pecaminoso aqui, achando-me já "aqui na Terra como no Céu"?

Se me perder, se perder, ganharei Cristo. Quem morreu não sente necessidade de ganhar argumentando, viverá apenas porque vive de facto. Mas não posso desejar ganhar nas duas bandas porque Cristo não se deslocará para o pecado da banda de cá – nem Cristo se usará de seus jeitos bíblicos que aprenderam nas igrejas, os jeitos dos que querem sentir que vivem em vez de ter vida, simplesmente. Quando conheci minha amiga, ela dizia em sua mensagem que "morrer é lucro…", pois viver é perda. Se Cristo viver em mim, eu não viverei, não me sentirei seguro nem inseguro. Amiga, se Cristo viver em ti vivendo em mim também, conhecemo-nos como ninguém, pois sentimos as mesmas coisas da mesma Pessoa. Que importa teu jeito, meu jeito se Cristo vive realmente em nós? Vamos ser amigos ou vais querer ser do teu jeito ainda, até esmoreceres e por essa razão desejares que eu seja do meu jeito também? Busca Quem vive e deixa o morto enterrar seu morto. Vive, amiga, mas com Cristo vivendo na perda de ti.

O amor é calado e Vivente, o pecado falador e carente. Por isso dão mais atenções ao pecado. Amor não tem fronteiras, mas tem barreiras e tropeços. Pecado não tem barreiras e pode parecer crente e masculino (forte e seguro), isto é, seguro e imponente não o sendo.

Esta é a mensagem de teu amigo da banda de cá que se sente perto de ti. Mas, se sinto que estou perto, sei que não estou, mas desejo ardentemente estar. Já que vamos ser amigos, vamos sê-lo mesmo então, vivendo porque Ele vive de facto em nós, vivendo porque morremos por amor a Ele. O amor que Deus te tem, será amor para ti em mim, em ti por mim. Ele não tem amor por ti em ti, pois não sustenta o vício como eu não dou esmola a quem fuma ou bebe. Se fores capaz de me amar esquecendo-te de ti mesma, amar a Deus esquecendo-te de mim, saberemos viver, pois seria tristeza infinita termos Vida e não sabermos vivê-la assim. Quem sabe nos veremos sem nos vermos, sendo que viveremos morrendo e permitindo que o outro morra também. Morre minha amiga e não enterres quem vai apodrecer de igual modo: tu mesma, eu mesmo. "Toda a boa dádiva vem do alto" – tua morte foi Deus quem a disponibilizou. Que bênção serás morrendo porque vives, vivendo porque morres. Que tua morte nunca seja aparente, enganosa, para que tua Vida seja verdadeira, simples e não mais um mero desejo. Teu amigo te deseja a morte, para que vivas e te deseja que vivas porque morreste. Teu amigo sou eu, mas é Cristo em mim em Quem morri para o pecado e para o mundo inteiro. Por Ele viverei para ti, como teu servo e graças a Deus que será assim. Amem.

*O Cuco é um pássaro insectívoro, muito grande, o qual nunca choca seus próprios ovos. Ele busca e acha ninhos de outras aves insectívoras, muitas vezes muito menores que ele próprio, despeja ou come os ovos que acha lá e coloca lá um único ovo seu. Parte em busca de outros ninhos onde faz o mesmo, sempre do mesmo modo. Quando os pássaros chocam e nasce o passarão, alimentam-no como se fosse descendência própria. Trabalham incessantemente para alimentar um pássaro tão grande e tão esfomeado, tal como a incerteza se alimenta às custas de grandes esforços e de sacrifícios dispendiosos.

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José Mateus
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