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O MEDO DE VIVER
"Se alguém vier a mim e não aborrecer a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo", Lucas 14:26

Quando Jesus fala aqui usando a palavra "aborrecer", Ele quer simplesmente dizer "contrariar", que é mais que abandonar. Por norma, os sentimentos que as pessoas possam ter e obter para com os outros, facilmente se tornam numa forma de chantagem sobre nossa própria conduta, sobre essa mesma pessoa, sobre nosso sentir e sobre nosso bem-estar com Deus e homens. A pessoa que diz que ama passa a satisfazer um sentimento e não a pessoa e objecto de seu sentimento.

Eu recordo como Jesus, ao distribuir as tarefas a cada um dos setenta discípulos (Mateus 10), enviando-os dois a dois por cidades que desconheciam e sobre as quais não desenvolviam nenhum sentimento nem afecto especial ou mesmo pessoal, eles partiram sem dizer mais palavra e foi cada um para longe de sua própria cidade e família. Como não havia automóveis então, poderemos assumir que muitos deles se ausentariam por longos períodos, quiçá anos mesmo. O mais bonito disto tudo é que eles, com este acto, salvaram suas próprias famílias também – além de ter salvo muitos outros que também tinham famílias próprias que nem conheciam. É que lemos de seguida o seguinte em Mat11:1: "Tendo acabado Jesus de dar instruções aos seus discípulos, partiu dali a ensinar e a pregar nas cidades deles". Quanto eu daria de mim para que fosse Jesus pessoalmente a estar pregando e salvando quem amo de forma afectiva! Mas, para isso terei de abandoná-los e contrariá-los sentimentalmente, (o que não deixa de ser contrariar-me a mim mesmo de forma especifica), pois nunca quererão que parta de perto deles por motivos que não sejam materiais ou não se possam tornar materiais de alguma forma, pois muitos seguem Deus com o olho no bem material – o qual Deus também dá e fornece a cada um conforme Sua vontade pessoal. Pelo material todos abandonam família e país, mas para algo celestial todos parecem bem relutantes em fazê-lo. Pena será que as pessoas achem que Jesus está brincando ou falando as coisas como se não fossem coisas sérias, concretas, reais e de verdade, pois Jesus ama os familiares de toda a gente quanto ama os seus e os meus. Se entrego minha vida para a Jesus, buscarei o que Ele quer e por quem morreu. Não podemos pensar que nosso filho ou mãe é o centro do mundo e das atenções pessoais de Deus, sabendo que para Ele outros têm filhos também e terão mais valor que o ouro de toda a Terra e que por essa razão Ele não faz distinção de pessoas. Mas, Ele leva em conta nossos familiares porque os ama pessoalmente também e estão perdidos como os que são familiares de quem nunca conhecemos individualmente. Enquanto nos agarramos a quem achamos que nos pertence, tiramo-los das mãos de Quem os ama mais que nós algum dia poderemos vir a pensar amar e isso sem aquela motivação egoísta que chantageia sentimentalmente também.

Mas, os medos de abandonar esta vida de cá, o medo de perder, juntamente com o medo de não vir a ganhar, pode-nos tirar o sono e pode, acima de tudo, fazer-nos perder e rejeitar toda uma eternidade, trocando Vida por pipocas. Na ansiedade nunca existe algo de concreto, pois a realidade que salva traz-nos descanso e retira-nos a ansiedade por dentro. O que é concreto, não necessita de palavras para se impor ou ser demonstrado.

Neste aspecto e a partir desta perspectiva, podemos saber que o mal do mundo quase nunca é exterior, mas a parte do interior de cada homem e mulher e é sempre próprio, nunca de outro. Na verdade, mudando o coração do homem, o mundo muda. Pena é que cada qual queira mudar e transformar o coração do outro, sendo que não tem acesso aos corações que não lhe pertencem. Jesus pode obter esse acesso mais que o próprio e com consentimento e disciplina em mantermo-nos sempre n’Ele sempre que estamos bem ou mal por dentro ou por fora. Também é pena que um humano mude do bem para o mal e para a vingança porque lhe fizeram mal e se acha com razões suficientes para mudar, esquecendo até que Deus não muda e Ele mesmo vingará todo tipo de injustiça – seja ela exterior ou interior.

A fantasia e a realidade têm semelhanças na mente de qualquer ser pensante que é preguiçoso e caprichoso demais para se emprenhar em distinguir entre ambas as coisas. Isso pode fazer a pessoa não conseguir distinguir entre sonhar e viver de forma prática. Deparamo-nos com a realidade e a fantasia a usarem o mesmo vocabulário e dicionário, a mesma língua e linguagem dentro dum mesmo coração. Por essa razão, todo o tipo de perversão começa sempre no interior de cada homem não importando quais as palavras que usa para o efeito, pois é muito fácil falar sem praticar e sem viver. Será por essa razão, também, que a Bíblia, falando do pecado, se refere "às imaginações dos corações dos homens" como mal concreto deste mundo.

Porque o mundo do Senhor Jesus é invisível, usa-se de histórias, alegorias e parábolas para se tentar descrevê-lo e implementá-lo: "O reino de Deus está dentro de vós e não vem com aparência exterior", Lucas 17:20,21. Mas, a fantasia e a fantasia religiosa usa os mesmos métodos para se impor para poder encarcerar quem a ela se entrega por inaptidão, amor ao pecado, desleixe, por medo de que sua realidade não lhe assegure a vida que quer ter, seja ela a vida do mundo ou a de Deus, ou por hábito a uma forma de vida pouco real como refúgio dos medos e das inaptidões preguiçosas ou teimosas de cada um. Mas, não será por essa razão que Jesus deixa de ser real e, também, não será por isso que a fantasia passará à existência e tão pouco será por isso que a realidade deixará de ser real. Jesus virá, Ele é Senhor e Deus Eterno e ninguém vai conseguir evitar nenhuma dessas realidades.

Quando Jesus se refere ao único jeito de nos salvarmos, Ele fala muito concretamente e de forma bastante precisa que é a "própria vida" que temos de aborrecer – será dela que nos teremos de salvar também. Assim, serão sempre os medos que temos de abandonar; os sonhos e aspirações que nos constrangem a sermos decepcionados mais tarde ou mais cedo; a teimosia de querermos e desejarmos estar sempre acima dos outros como forma achada da sobrevivência, considerando os outros como inimigos principais quando o pior inimigo de cada pessoa está dentro de si mesmo. É obvio que a concorrência é de salutar num mundo pecaminoso e egoísta, mas não será através dela que o crente viverá num mundo que Deus domina e rege. A responsabilidade de quem ama como ama a si mesmo aumenta com o grau de amor e com o grau de libertação dele mesmo para poder amar como pode e deve. Ali a concorrência acaba, tal como nas praias acaba o mar e começa a terra. Em terra firme não precisamos mais lutar contra as ondas do mar, pois tudo que aprendemos foi lutar contra as ondas do mundo de onde chegámos. Mas nós saímos de lá e é claro que a maneira, as atitudes, a simplicidade de fazermos todas as coisas mudam de um ambiente para o outro. "Eis que tudo se fez novo", disse Paulo a nós. Sem amor próprio podemo-nos concentrar apenas em amar o próximo porque a luta interior da concorrência de amores terminou. Mas, na praia existem ondas que assustam e podem impedir de se fazer a coisa certa se não acharmos que estamos em terra firme quando estamos. O segredo será viver bem distante das praias do mundo e suas ondas de perdição nem mais uma recordação de medo nos fará ter. Do mesmo jeito se poderá pensar que a terra não é coisa firme ou que nem existe apenas porque vivemos no mar de falta de paz em suas vagas de amargura que sentimos, as quais nos levam a querer acreditar que não existe terra firme e isso por conveniência emocional nossa, ou que, se existe, Deus não a quer nos dar. É muito conveniente pensar que é Deus que está em falta para connosco. Todo pecador usa de desculpas dessas para poder continuar pecando e se lamentando. Todo pecador arranja sempre meios de se lastimar e de se amargurar como forma de vingança contra alguém que imagina.

Assim, o que todo homem terá de abandonar para seguir Deus em rumo à própria concretização dum salvamento que salva dele próprio e do seu próprio pecado, de seu comportamento e de sua forma de se sentir, será maioritariamente tudo o que se instalou dentro dele mesmo como coisa boa ou ruim, sendo que é ruim de natureza e essência. Temos de ser salvos daquelas coisas que achamos serem boas também, pois são essas que nos poderão privar duma total liberdade de todo tipo de pecado também. Quando alguém nos faz algum mal, eu tenho a certeza incondicional que Deus vem nos salvar daquilo que sentimos e não apenas da pessoa que nos faz mal. E nem nos precisamos enganar a nós mesmos, achando que a pessoa faz bem e que devemos aceitar a maldade como que estando a agradar pessoas. Seremos de tal forma mais que vencedores, que, olhando o mal de frente conseguiremos ainda assim contemplar apenas Cristo em Sua beleza total e real. Quer deixar de se preocupar e de se vingar do mal que vê e lhe fazem ou fazem aos outros? Permita apenas que Cristo seja real em si, por si para outros e o mal nem afectará seu coração - jamais.

A vida que dura um ano, dois anos ou cinquenta anos, será sempre uma fantasia, pois termina sempre, Salmo 90. Mas, Jesus disse que aquele que vier a Ele para ser liberto dele próprio após vir a Ele, viverá para sempre. Caberá a si, caro amigo, entender que pode perder tudo para sempre, ganhar Cristo com tudo aquilo que nem sonhou pedir d’Ele ainda; também pode ganhar tudo por cá e perder sua vida para sempre. Perder por cá, também não será sinónimo de se ir ganhar depois da morte – mas ganhando e recebendo Cristo de forma real podemos crer nesta verdade: até doentes teremos saúde, conforme lemos: "O espírito do homem o sustentará na sua enfermidade", Prov.18:14. Porque, conforme Paulo afirmou, "nem a morte, (nem a enfermidade) nos poderá separar do amor de Cristo", porque tais coisas não nos poderão afectar ao ponto de pecarmos e nos separarmos de Deus como Adão e Eva fizeram. Só não nos separamos de Deus por sermos mais que vencedores em qualquer confronto contra o pecado. Mas, para sermos vencedores, necessitamos vencer ainda e para vencermos precisamos abandonar o nosso cadáver - se já somos cadáver para o mundo. Amem.

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José Mateus
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