A VOZ DE DEUS
"E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas, de modo nenhum, seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos", João 10:4,5

Quando ouvimos uma voz (ou várias vozes), devemos ter em mente algumas coisas. Uma delas é que Jesus não disse que as ovelhas não ouviriam as vozes dos estranhos. Pelo contrário, afirmou que ouviriam, mas, que dificilmente as seguiriam. O que leva as ovelhas a não seguir essas vozes é a grande questão. Os mais frágeis e fracos que andam bem perto de Deus chegam mesmo a fugir do autor dessas vozes. Os mais seguros que andam intimamente ligados a Jesus não temem essas vozes. Em segundo lugar, Jesus fala duma ovelha que, por ser ovelha, reconhece a voz que ouve. Ela reconhece a voz, mas, não por ser alguma coisa e antes por ser ovelha. Sendo ovelha, adquire a capacidade para ouvir o Pastor e de reconhecer a Sua voz, como também de reconhecer a voz dos estranhos. O Bom Pastor é reconhecido pela voz e não necessariamente pelo que diz. Ainda que aquilo que o Pastor diga é importante, essa ovelha aprendeu a reconhecer e a distinguir quem fala pela voz. Sabemos que não existem pessoas com a mesma voz, tal como não existem pessoas iguais, nem com as mesmas impressões digitais. A ovelha experimentada reconhece essa voz única. Há que adquirir experiência. “…E a paciência (produz) a experiência…”, Rom.5:4.

Ora, para podermos reconhecer uma voz, teremos de estar perto o suficiente para que essa voz se torne distinta. Quanto mais perto, tanto mais distinta se torna a voz. Uma coisa é ouvirmos vozes à distância sem sermos capazes de reconhecer ou de distinguir quem fala. Outra coisa é estarmos suficientemente perto e suficientemente atentos para podermos ter aquela percepção exata de quem fala apenas pela voz. A ovelha tem de estar familiarizada com a pessoa que fala e tem de lhe ser próxima. Estando distante, dificilmente saberá distinguir com exactidão quem fala. Se a ovelha não se aproximar do Pastor, não terá como reconhecê-lo e não aprenderá a conhecê-lo. Por outro lado, quando já o conhece, não deve distanciar-se dele - nem por um momento - porque as vozes ao longe não podem ser distinguidas e separadas umas das outras. Não é possível você ouvir bem se não se mantiver constantemente em plena comunhão exclusiva com Deus, arranjando tempo suficiente e exclusivo para aprender a conhecê-Lo e estar tanto com Ele como à volta daquilo que realmente importa, isto é, se realmente for ovelha e se já se houver transformado. “Estai em mim e eu, em vós; como a vara (…) na videira, assim também vós (…) em mim”, João 15:4. Não é através da doutrina certa, da igreja certa ou das circunstâncias que nos transformamos em ovelhas e que nos mantemos como ovelhas: é estando nele e Ele em nós. Não é só Ele estando em nós e nem é só nós estando nele – são as duas coisas em conjunto e isso precisa ser real e não apenas crença que conforta falsamente. É essa combinação das duas coisas que fazem a diferença. Não podemos estar separados dele por algum pecado ou atitude e, estando nele, não podemos querer manter a nossa vida através de decisões e meios próprios. Se vivemos pela graça, não queremos usufruir de nenhum mecanismo carnal ou terreno para nos mantermos. Devemos perceber que não somos auto-suficientes, principalmente nos caminhos de Deus. A força da carne e as suas opções ou alternativas servirão tanto para um homem de quem o Espírito Santo se apoderou quanto serviria a armadura de Saul para Davi. Apenas atrapalhariam.

A ânsia de obedecer (ou de ouvir) também pode levar alguém a fazer o que não deve e a ouvir quem não deve. A ansiedade não é boa e nunca será. A ansiedade não é e nunca foi característica duma ovelha sã. Seja qual for o tipo de ansiedade ou o motivo para ela, não se justifica numa ovelha. A ovelha pode tornar-se ansiosa se estiver um pouco distante do pastor. Isso pode levá-la a obedecer qualquer coisa que ouça por estar ansiosa, tendo como razão para essa ansiedade o fato de se haver afastado do Pastor. As pessoas que se estão a afogar agarram-se a qualquer coisa para não se afundarem. As ovelhas, nessa situação, ‘obedecem’ a qualquer voz porque deixaram de ter espírito de ovelha. Tornaram-se intranquilas. É nesse afastamento que as outras vozes se tornam ousadas e causam ansiedade, perturbações, intranquilidade, insegurança, erro ou qualquer outra coisa que faz mal à fé que vem do coração e só pode ser gerida pelo amor (ao/do Pastor). Essas vozes, mesmo não sendo tidas em conta ou sendo desacreditadas, acabam cansando quem está afastado do vigor de Deus. Mesmo resistindo a elas, acaba-se ouvindo e, muitas vezes, termina-se sucumbindo à persuasão e à insistência pelo cansaço próprio de quem se afasta de Deus. Essas vozes acabam sendo como um enxame de abelhas. Ora, ninguém deve mexer num enxame de abelhas, nem para se opor a elas. Você ouve a voz e a murmuração da esposa desviada, a voz do filho rebelde e do pastor enganador? Ouve uma voz falsa que tenta conquistar sendo ou parecendo amorosa? Ouve a acusação, a má crítica e a perturbação? Perturba-se com tudo isso? E na medida que vai ouvindo, vai-se afastando cada vez mais, pois, não existem pecados que não afastam de Deus e ouvir a voz dos estranhos passa a ser pecado, também, igual aos outros que fizeram a ovelha afastar-se ou distanciar-se de seu pastor ou do seu rebanho santo para dar ouvidos a essas vozes. “Não se turbe o vosso coração (…) Estai em Mim e Eu, em vós; a vara de si mesma não pode dar fruto”. A vara afastada de Deus pode dar fruto que não presta, como a ansiedade e a preocupação. O afastamento de Deus tem as suas próprias recompensas e ninguém poderá fugir a elas mantendo-se afastado e distante do pastor – ainda que creia que está bem. Existem muitos capazes de crer em mentiras ou que se tornam capazes de tal feito. Não nos esqueçamos que, uma das razões para alguém dar “ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demónios” é terem “a própria consciência cauterizada”, 1Tim.4:2. Os tais costumam acusar os outros, afirmando que são os outros que não escutam a própria consciência.

Outra coisa que deve ser levada em conta é que se fala em ovelha e em pastor. Se a pessoa não for ovelha a tempo integral, haverá ocasiões que não ouve, ou ouve mal, ou ouve de mau grado. Somente sendo ovelha será capaz de seguir essa voz. Quem segue outras vozes é bode ou outro bicho qualquer. Mas, com toda a certeza que não é ovelha – ou ainda não se transformou em ovelha e fica mais (pre)ocupada em tentar ouvir ou discernir as vozes que em ser verdadeiramente transformada. Ovelha segue; ovelha tem um coração que obedece a certa voz; anseia ser obediente ao Pastor; ovelha é simples e não complica a sua vida normal estando perto de Deus; ovelha sente-se perdida quando não vê seu pastor e entra em pânico quando não o ouve; ovelha procura sempre ser ovelha e manter-se como ovelha através do que alimenta e assegura as ovelhas; ela não entra em território de lobos e mantém-se num rebanho que seja santo e igual a ela. Os mais perigosos não são aqueles que perseguem e atribulam e antes aqueles que, sendo maus, bajulam ou tentam conquistar através de alguma artimanha.

Uma das características mais marcantes duma ovelha é a sua capacidade de seguir. Além de seguir, fá-lo amavelmente, sem razões para questionar porque não há nada em Deus para ser questionado negativamente. Por essa razão, nenhuma ovelha teme inquirir e questionar andando nos caminhos de Deus, pois, sabe que achará uma verdade agradável a esse respeito. Segue e cumpre os mandamentos, segue e busca a vontade de Deus, busca os meios, a graça, o tempo certo e a oportunidade do privilégio de seguir. Essa capacidade de seguir é alcançada por ser ovelha - e é buscada e alcançada atempadamente. Não esconde seu talento ou sua capacidade de inquirir e investigar tudo com medo de estar afrontando Jesus. A capacidade de seguir ainda precisa ser alcançada e o estatuto de ovelha garante que achará essa capacidade de busca. Achará por se haver tornado ovelha. Busca graça antecipadamente por ser ovelha e essa graça é buscada, achada e preservada em odres que não se rompem e fazem encarar o futuro sem temor e sem preocupações porque sabe por onde seguir, para onde vai e para onde se desloca e, se não sabe, conhece quem a guia e leva. O segredo reside em achar graça atempadamente ao invés de procurar azeite para a sua candeia em cima da hora e em plena necessidade como fizeram as virgens loucas. “Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno”, Heb.4:16. Achamos agora para usar no futuro, em tempo oportuno, para usufruir durante a necessidade. O tempo de necessidade não é tempo de buscar. Lembra-se de José que achou nos sete anos de abundância para não deixar ninguém morrer à fome nos anos seguintes? Armazenou para os tempos de vacas magras e não ficou a curtir os anos de vacas gordas. Assim, a verdadeira ovelha retirará coisas novas e velhas armazenadas e já cumpridas e instaladas em seu próprio coração. Não foi em vão que Jesus um mandamento, dizendo: “Preparai-vos!”. “Disse-lhes, pois, Jesus: A luz ainda está convosco por um pouco de tempo; andai enquanto tendes luz, para que as trevas vos não apanhem, pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai”, João 12:35. “Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes”, Ef.6:13. Há que ser achados ainda firmes após todas as provações. “Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida que está no meio do paraíso de Deus”, Ap.2:7. Não se pode começar a semear no tempo de colher.

Também se fala de pastor. Ora, se não desejamos ter quem nos guie, quem nos instrua ou quem nos lidere, não podemos afirmar com toda a sinceridade que Jesus é o nosso pastor e muito menos que somos ovelhas dele. Se desejamos alguém que nos guie pelos próprios caminhos ao invés de nos levar pelos caminhos celestiais, estamos a bater na porta errada e encaramos a possibilidade de sermos guiados por qualquer lobo. Os lobos lideram aqueles que amam caminhos próprios e querem ser donos do próprio caminho. Se os caminhos do homem nos pudessem levar a algum lado, o mundo seria um lugar privilegiado para viver e não seria a espelunca que é. Se desejamos ser pastoreados, mas, não o somos, com toda a certeza que algo nos separa dele; se nada nos separa dele e queremos ser nós mesmos a decidir nossos caminhos, nossos modos de vida, nossos casamentos ou qualquer outra coisa, não podemos afirmar de coração que Jesus é o nosso pastor. Se nos pastoreamos e lideramos a nós próprios, como pode Jesus ser nosso pastor? É uma falsidade sem igual cantar que Jesus é nosso pastor quando queremos controlar nossos caminhos e mandar em nossas próprias vidas, tomar as próprias decisões e entrar em pânico cheios de preocupações sempre que não conseguirmos controlar as nossas próprias circunstâncias. Depois de alguém estar em apuros, achega-se para clamar e reclamar diante do Pastor de ovelhas sendo ou agindo como bode ou outro animal mais selvagem. Mas, lembremo-nos das virgens loucas e o que fizeram – ou não fizeram. Devemos ter em conta que nem o nosso tempo e horários devem ser decididos por nós – muito menos as outras coisas importantes da vida. “Disse-lhes, pois, Jesus: Ainda não é chegado o meu tempo, mas o vosso tempo está sempre pronto”, João 7:6. Verifique se Jesus é mesmo seu pastor antes de desejar ouvir a Sua voz. Verifique se deseja mesmo ter pastor ou se deseja pastorear. Veja se tem realmente coração de ovelha ou se quer vestir-se de ovelha e manter o coração doutro bicho diferente e menos puro.

Ora, devemos saber que a voz verdadeira fala ao coração. Mas, isso não significa que fala sempre conforme o coração, isto é, conforme aquilo que a pessoa desejaria ouvir – a menos que aquilo que deseja ouvir seja o mesmo que Deus deseja e que seja feita da mesma forma que Deus quer e através do mesmo poder (da graça). Lembre-se que o que conta é quem fala e não apenas aquilo que diz. Aquilo que diz é importante para seguir, mas, não serve para reconhecer a voz. Se aquilo que diz fosse determinante para o reconhecimento da voz, Abraão nunca teria sacrificado seu filho. O que diz é importante para ser seguido, mas, não deve tornar-se preponderante como forma de distinguir a voz. Deve tornar-se preponderante para a obediência, mas, não para fazer a distinção.

A voz fala ao coração no sentido de querer transformá-lo para estar de acordo com Deus numa conduta futura - ou atual. É bom que o coração esteja de acordo com aquilo que Deus quer de nós. “…Não apenas o praticar, mas, também o querer… ”, 2Cor.8:10. Devemos saber que tanto o querer como o praticar (efectuar) devem ser conseguidos e operados por Deus e que quem perde, acha; e quem acha, perde. “Qualquer que procurar salvar a sua vida perdê-la-á; e qualquer que a perder salvá-la-á”, Luc.17:33. Para isso acontecer, devemos saber que há que negar aquilo que mais queremos e amamos carnalmente para ver se começamos a amar aquilo que nunca conhecemos - ou nunca reconhecemos. Se não fosse assim, Jesus não nos informaria que devemos saber negar e aborrecer mãe, pai, terra e coisas que nos são mais pessoais ou intimamente pessoais. Isso nem sempre acontece e, por norma, a maior parte dos tropeços surgem sempre que o coração diz uma coisa diferente daquela que está ocorrendo, ou quando esse coração é levado (instruído) a lidar com um assunto diferente daquele que gostaria de estar a resolver. Não é de admirar que existam muitos que são pequenos no Reino de Deus, pois, pregam uma coisa que dificilmente praticam. Não existem mais avivamentos reais e o Reino de Deus aqui na Terra é considerado pequeno se comparado com os tempos dos apóstolos. O coração, para poder ser transformado, deve submeter-se a Deus, deve estar tão submetido a Jesus quanto uma mulher perfeita está submetida ao seu marido santo e vice-versa. É para esse efeito que fala ao coração, já que é precisamente do coração que surgem (ou devem surgir) as acções, os pensamentos e tudo aquilo que compõe o homem e determina toda a sua conduta e maneira de ser. Andar na luz é, nada mais e nada menos, que sermos totalmente transparentes e autênticos.

Contudo, este assunto de falar ao coração é, realmente, o que mais problemas causa naqueles que buscam ouvir a voz de Deus quando deveriam estar mais aptos e mais dedicados a tornarem-se ovelhas. Se alguém ouve, é ovelha. Deus não é mudo e fala certamente e acertadamente, seja secretamente ou não. Fala no momento certo, diz o que é necessário, fala em relação àquilo que mais importa ser dito e capacita para efectuar através da graça. Mas, temo dizer que, quando a pessoa busca ouvir, ainda não pode ser considerada ovelha. Se busca ouvir é porque ou não ouve ou recusa ouvir por alguma razão ou, então, deseja ouvir algo diferente daquilo que lhe é manifestado. E essa razão não é porque Deus não saiba falar e, antes, costuma ser porque, quem escuta, não ouve aquilo que gostaria de ouvir – se ouve. Ou, então busca ouvir algo que deseja ouvir. Se ainda busca ouvir é porque não ouve e ainda não foi transformada ou porque recusa ser transformada. Recusa tornar-se ovelha e busca pular o muro para dentro do aprisco das ovelhas, desejando que Deus fale conforme aquilo que deseja ouvir. Se a fórmula determinante para distinguir a voz é alguém dizer aquilo que gostaríamos de ouvir, isto é, se o fator determinante para distinguir essa voz é que fale duma forma que agrade ao coração, que se sinta lisonjeado ou se lisonjeie, estamos no caminho do erro. Uma das características daqueles que ouvem os falsos é precisamente terem “comichão nos ouvidos e amontoar para si doutores capazes de falar conforme as suas próprias concupiscências”, 2Tim.4:3.

Ainda que se recuse ouvir qualquer outro, o fato de não ouvir o Sumo Pastor dá-nos indicações fortes de estar a recusar ouvi-Lo. Não devemos colocar no mesmo saco a voz do Mestre e as vozes dos lobos. Não podemos recusar todos os mestres apenas porque existem muitos mestres falsos e vorazes. Também não devemos negar o Mestre por Ele não falar conforme aquilo que esperaríamos ouvir.

O diabo sabe que, para assegurar uma conduta, também deve falar ao coração e quem ensina nessa direcção deve falar de coração. Essas duas coisas em conjunto formam uma armadilha determinante. Ela prende aqueles que já se encontram cativos em suas próprias coisas e querem andar em seus próprios desígnios e caminhos. Para se dar essa mistura ou essa combinação fatal, basta ter mestres com o mesmo tipo de coração que os seus ouvintes e seguidores têm e falar de forma emocionada e efusiva a respeito daquilo que lhes agrada ouvir estando em suas próprias concupiscências – ou buscando forma de permanecer nelas, ainda que ‘inconscientemente’. Uma das formas de falar ao coração é dizer, prometer, profetizar e pregar em nome de Deus conforme aquilo que a carne deseja ouvir. Toda a fé falsa é uma fé fácil de ser conseguida em quem ouve dessa maneira. Mas, a fé verdadeira trona-se um mandamento para os tais porque Deus não fala para agradar a carne e tem, antes, o intuito de exterminá-la da face da terra. “O fim de toda carne é vindo perante a minha face”, Gen.6:13. Por isso é que a fé verdadeira se torna um mandamento para os tais. Precisam ser mandados crer. E são esses que afirmam que ‘não estão debaixo da Lei’ quando são confrontados pela fé como mandamento (uma lei) para ser cumprido por eles por se encontrarem longe da fé verdadeira. São esses que se sentem julgados e dizem: “Não julgues”!

Quando alguém ouve a voz errada por esta haver falado de forma atraente ao coração carnal; ou por ter ido de encontro à preocupação (lembremos que a preocupação é pecado igual aos outros e ao qual Deus não responde); ou por ter ido ao encontro da ambição ou outro desejo avarento; ou por ter amedrontado com alguma ameaça ou penalidade contra a desobediência, isto é, caso a pessoa não fosse obediente àquela voz (o medo não é ameaçado por Deus, isto é, Deus não ameaça quem teme); quando algo assim acontece e consegue que alguém dê ouvidos à voz errada – como Eva deu ouvidos à serpente – o mais difícil é chegar ao ponto de reconhecer que errou. Isso torna-se difícil por várias razões. Uma delas é a voz errada haver ido de encontro às expectativas desejadas, as quais são difíceis de negar por significarem desapontamento, vergonha, desilusão ou alguma outra carência carnal que se tenta evitar crendo naquilo que foi ouvido.

Devemos estar sempre atentos porque Deus fala a qualquer momento, seja de noite ou de dia, seja nos momentos mais felizes ou menos felizes, seja quando estamos dormindo ou acordados, seja no descanso ou na tribulação do momento. Devemos permanecer expectantes e atentos constantemente. Um momento de impaciência ou cansaço acumulado pode fazer alguém recusar ouvir ou estar atento. A tribulação pode tornar alguém desatento, ainda que seja uma desatenção momentânea. No meio do seu maior desapontamento, o profeta Elias respondeu bem e amavelmente a Deus, quando aquela voz lhe perguntou o que fazia no monte Sinai. Ele não respondeu mal por se encontrar numa fase muito atribulada da sua existência. Não ficou desatento e não perdeu a compostura de coração quando aquela voz lhe falou inesperadamente. Não havia sido Deus quem o enviara a fazer aquela caminhada de quarenta dias? E não foi Deus quem lhe perguntou o que fazia ali? Por que razão iria Deus perguntar tal coisa e por que razão Elias não respondeu mal sendo que foi Deus quem o enviou nesse caminho e lhe perguntou, depois, o que fazia ali?

Quando um justo perde tempo com distrações ou qualidade desse tempo de comunhão diária com Deus ou Sua palavra, dificilmente passará bem seu dia, isto é, dificilmente passará seu dia sem sucumbir ou ceder sob alguma tentação. O pecado jaz à porta esperando os menos preparados para enfrentarem o seu dia e se confrontarem com o pecado que está à porta como leão em emboscada. O pecado é como os leões na selva: buscam os mais fracos da manada para deles se alimentarem. Devemos, por essa razão, ter extremo cuidado com as distrações, os desvios de atenção, as vozes falsas que nos tentam durante o tempo que separamos para estar a sós com Deus. Prestar-lhes atenção é uma ofensa para a alma e um desrespeito para com Deus. Eu creio mesmo que, enquanto a pessoa der ouvidos a essas vozes e distrações sabendo que elas são de estranhos, dificilmente reconhecerá a voz de Deus durante seu dia, distinguindo-as das outras. Dará maior crédito às vozes erradas e obterá uma tendência natural para duvidar da voz certa.

Por último, devemos saber que nem sempre somos guiados por vozes. Na verdade, aquela vida que ganhamos e se torna real – aqueles que realmente a têm sabem do que estou falando – será o que nos guiará e levará. Deus leva-nos a querer conforme a Sua vontade e a leva-nos a efectuar através de meios da graça, impedindo-nos de efectuar por qualquer outro meio. Sem Ele nada conseguiremos fazer e, muito menos, alcançar. Para isso ocorrer dessa maneira, basta estarmos limpos e pertencer-Lhe integralmente. Não creio que os demais sejam impedidos de fazer sem Ele e que não consigam fazer alguma coisa sem Deus. Logo, é verdade que Deus disse de Moisés que fala aos menos espirituais através de sonhos e visões, mas, cara a cara àqueles que se tornaram Seus verdadeiros amigos. Veja o que significa ser verdadeiro amigo de Deus pela aproximação de carácter, de visão, de vontade, pela sintonia acerca do uso dos meios para alcançar, da familiaridade com as coisas celestiais, com o Seu poder, entre outras coisas. A vida eterna começa aqui e agora. Essa vida eterna é uma vida constante. Na verdade, a palavra “eterna” significa constante no verdadeiro sentido da palavra, sem altos e baixos. Tendo-a em toda a sua plenitude, será a luz dos homens. Será essa vida a principal luz dos homens para seu dia a dia. “Nele, estava a vida e a vida era a luz dos homens”, João 1:4. Seremos guiados havendo alcançado essa vida permanente em toda a sua plenitude. Mas, seremos guiados e levados por ela. Não é somente luz para o dia-a-dia dos que verdadeiramente acharam e receberam essa vida – esse tipo de vida interior abundante. Será, igualmente, uma capacidade de efectuar não somente a vontade de Deus, mas, de efectuá-la da mesma maneira que ela é feita nos céus, através do mesmo poder e com a mesma simplicidade e virtude. “Aqui na terra como no céu”; “Os dias do Céu aqui na terra”. Amém

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José Mateus
zemateus@msn.com