VERDADEIRA INTERCESSÃO
"E viu que ninguém havia e maravilhou-se de que não houvesse um intercessor"", Is.59:16

Muito se fala sobre este assunto. Mas poucos chegam a saber uma ínfima parte do seu verdadeiro significado: consequentemente, pouco se sabe sobre a dimensão do seu alcance, do poder daquilo que pode. A verdadeira intercessão, não é constituída por palavras, mas sim por tomar aquele lugar de quem precisa - de Quem pode atender e também de quem pode ser atendido. Serão sempre três as facetas da verdadeira intercessão - nós teremos como ter de ser ouvidos, teremos que nos intrometer entre homem e Deus, falando dum lado insistentemente e persuasivamente com Deus sobre o homem e do outro lado com o homem sobre Deus. Um intercessor nada será mais que um intermediário muito persuasivo, que toma o seu lugar, o seu posto, entre as partes em conflito e se recusa abandonar o seu lugar de interveniente, a menos que haja sido ouvido por ambos os lados e que estes se entendam de ora em diante - o que será muito mais que ser claro e bem esclarecido.

Existe um conflito claro entre homem e Deus. A carne é inimizade a Deus e o Espírito é sempre uma forma de inimizade aberta contra todo homem carnal. Logo, a carne e o espírito sempre serão opositores um do outro, embora haja uma relação peculiar entre ambos. Quando um relacionamento humano está quebrado, as partes fecham-se nelas próprias e fazem como se uma e outra não existissem mais. Isto nunca acontece entre carne e Espírito, pois o conflito é sempre aberto e destroem-se e corroem-se um ao outro. A carne nunca será Espírito e o Espírito nunca será carne. Logo, a carne acha que tem um Deus para sustentá-lo em todas as suas veleidades, ou não fosse Deus um Deus de "toda a justiça"! Deus tem por certo que toda a criatura Lhe pertence por Criação e caso assim não seja, devido a constituição interior da pessoa em si, deve haver uma justiça eterna que destrua a carne da face de toda a Terra. Lemos que Deus disse quanto a isso, já desde os tempos de Noé: "Então disse o Senhor: O meu Espírito não permanecerá para sempre no homem porquanto ele é carne Gen 6:3. E disse o Senhor: Destruirei da face da terra o homem que criei", Gen 6:7. Primeiro tentou diminuir seus dias a ver se o homem que desejava viver se arrependia vendo a sua vida encurtar-se drasticamente, vindo a achar estranho morrer cedo. Mas nunca resultou, pois todo pecador é tolo e suicida ao ponto de nunca dar ouvidos à razão.

Torna-se assim evidente que existe um conflito aberto entre todo homem e Deus. O homem trata de lidar com Deus à sua maneira exclusiva: ignorando que existe; Deus pela justiça: destruindo para sempre.

Um intercessor é então alguém que se interpõe entre as partes em conflito, em primeiro lugar para que Deus reponha toda Sua glória sobre todo homem; em segundo, para que o homem retorne às suas origens de perfeição distinta, vivendo exclusivamente para aquilo que foi criado. É alguém que acha que Deus pode e tem como e porque vir a recriar todo o homem por inteiro e que o homem tem como e porque albergar a santidade e exclusividade de Deus em si. Um intercessor é também algo dos dois numa só pessoa: é Deus para o homem e homem para Deus. Cristo se fez carne porque intercede melhor assim; Ele também é Deus. Por essa razão é intercessor - tem tudo em Si mesmo, tudo o que é dos dois lados. Por isso lemos: "Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, porquanto vive sempre para interceder por eles. (26) Porque nos convinha tal sumo-sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e feito mais sublime que os céus", Heb 7:25-26.

Deus tem todo o poder para transformar o homem, quer ele queira ou não inicialmente, pois todo o poder Ele tem para, "derribando raciocínios e todo baluarte que se ergue contra o conhecimento de Deus, leve cativo todo pensamento à obediência a Cristo", 2Cor 10:5. Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne, (4) pois as armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus, para demolição de fortalezas", 2Cor.10:3-4. "Por isso daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne; e, ainda que tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos desse modo", 2Cor.5:16.

Mas o homem tem todo o poder para ser ouvido por Deus também. Se Deus ouviu a voz dum homem já, não a irá ouvir de novo? Sabemos que se diz de Josué que: "E não houve dia semelhante a esse, nem antes nem depois dele, atendendo o Senhor assim à voz dum homem; pois o Senhor pelejava por Israel", Josué 10:14. Então, uma das funções dum real intercessor é convencer Deus a todo custo a salvar quem está perdido - Ele pode. Mas como se essa questão não bastasse, Ele ainda tem coisas prometidas a esse respeito, às quais Ele terá necessariamente de vir a ser inteiramente fiel. É aqui onde nos esquecemos das doutrinas de eleição e que mais, pois quem está perdido precisa que alguém puro clame por ele diante de Deus, pois ele próprio nunca o fará a menos que seja para coisas carnais e materiais mesmo.

Assim, é comum num intercessor sentir em sim mesmo toda a miséria de quem é seu objecto de misericórdia, isto é, sente o verdadeiro estado de espírito de quem está perdido, avalia sobriamente sem fechar seus olhos para a realidade, sabendo de antemão que não existe pecado onde a mão de Deus não possa chegar para perdoar e extinguir de vez. A condição é que o pecador deixe seus caminhos logo, pois existem coisas sobre as quais não teremos como mudar nunca. A Palavra nos diz que "E virá um Redentor aos que se desviarem da transgressão, diz o Senhor", Is.59:20. Logo, temos de interceder diante de todo homem que ceda totalmente nessa questão, a qual todo homem considera desde nascença que é toda a sua vida, todo o seu desejo, pois sonha mesmo em conformidade com tudo aquilo que o pecado oferece.

Por outro lado, um intercessor se vira para Deus para, por todos os meios legais, fazer Deus intervir logo numa certa vida para bem da mesma. Essa é a verdadeira função dum verdadeiro intercessor - tem um duplo trabalho a efectuar. Por isso diz Deus daqueles que, em nome de Cristo, fazem o que Ele sempre fez: "E os que de ti procederem edificarão as ruínas antigas; e tu levantarás os fundamentos de muitas gerações; e serás chamado reparador da brecha e restaurador de veredas para morar", Isa 58:12.

Para que isso se efectue com toda a perfeição, temos outro aspecto a levar em conta também: o Espírito Santo. O Espírito Santo cria um pesar em quem intercede, chegando tal pessoa - a menos que se alarme com a ocorrência que deve ser sempre considerada normal numa vida evangélica profunda e limpa - a chegar a interceder com gemidos inexprimíveis mesmo. O próprio Consolador intercede por nós, dentro de nós mesmos, fazendo-nos ver e sentir a miséria de quem está perdido. Isto não é coisa para pessoas fracas que fogem da primeira vista da desgraça, pois a realidade dos factos é que vai tornar um intercessor real, vendo as coisas como Deus as vê, um dos partidos a convencer.

Logo temos também o Espírito Santo, muitas vezes a pedido do intercessor, a operar dentro de quem se tornou leviano pelo e no pecado. Assim temos uma dupla assistência que em tudo é perfeita e aperfeiçoante na salvação de quem está deveras perdido e em calamidade profunda, ao ponto de não a reconhecer mais como perdição sequer.

Assim temos este duplo trabalho operante dentro dos homens: dentro de quem intercede para que veja o lado de Deus, como ele é de facto e também dentro de quem está perdido para que abra seus olhos e ouvir e ver nossos argumentos de intercessão de facto. Achamos então, que este trabalho onde o Espírito Santo também intercede por nós, tanto diante dos homens como dentro de nós mesmos, não significa de maneira nenhuma que ele interceda nos céus por nós, mas que opera dentro de nós como se fossemos nós mesmos, dentro de Seu templo, em nosso ser; e também por nós dentro de quem tentamos convencer. Ele faz isso por nós em nós mesmos em tempo real e actual. Isto se chama o verdadeiro espírito de oração. Haja pessoas que nunca fujam da vista da miséria real e factual na qual todo homem se encontra de facto, nem do peso que sobrecarrega todo seu espírito e baixa todo seu semblante, pois ninguém gosta de se sentir mal e muito menos pelos outros. Mas é pelos outros devemos que fazer aquilo que Cristo fez por nós também.

Assim temos este duplo trabalho digno, muito digno mesmo, mas sendo assistidos nele pelo Espírito Santo que nos foi dado para isso mesmo, entre outras coisas é claro, pois, "o Espírito nos ajuda na fraqueza; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inexprimíveis" - mas em nós, como se fossemos nós mesmos, coisa nossa, de nossa própria autoria! Rom 8:26. Por esta razão é que muitos homens de Deus são apelidados de arminianos, pois agem sob tutela do Espírito de tal forma que nem parece ser assim, com tal coração e entrega que, mesmo dependo na sua totalidade do Espírito para sua realização, entregam-se a essa mesma obra como se apenas  deles dependesse tudo, devido a estarem inteiramente habituados e familiarizados com a obra do Espírito Santo neles por eles. Assim, amam e intercedem de todo coração e são criticados por isso.

Mas, aqui temos de cuidar de duas facetas distintas, pois devido àquilo a que todo homem se habituou desde sempre, ele age normal diante dos homens que conhece e anormal e fingido diante de Deus que acha que não existe. Logo passa este espírito para a intercessão, manipulando Deus e lidando com o homem apenas. Mas Deus atende apenas quem O pode tratar como Ele é, isto é, normal. Daí que lemos que, "Ora, sem fé é impossível agradar a Deus; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam", Heb 11:6. O intercessor terá de trocar os pólos, pois nada tem para esconder ou fingir diante de Deus mesmo, pois Ele tudo vê e observa. Quem deve ser manipulado é o homem e não Deus. Mas por outro lado, o homem é fugidio e tem espírito de goma, o qual escapa da mão de quem o quer segurar. Será então diante dos homens que temos de ser cuidadosos, precavendo-nos sempre de suas rebeldias e sermos sérios e concisos diante de Deus, pois nenhuma sabedoria funciona diante d'Ele, nenhum esquema. Como o homem vem da infértil incredulidade, aproxima-se de Deus querendo "comprá-Lo" e adquirir Seus favores com palavras estudadas e escolhidas, como se fosse homem, enquanto que diante dos homens que não têm sabedoria que se realce mesmo, somos desabafantes, concisos e concretos. Isto terá necessariamente que ser mudado em toda a nossa maneira de ser e de estar, tanto diante de Deus, como diante de todo homem! Logo, toda a sabedoria e todo o empenho sabe sempre a pouco quando intercedemos diante dos homens como se fossemos a própria boca de Deus; e toda a espontaneidade e verdade no íntimo vai saber sempre a pouco quando intercedemos diante de Deus pelos homens. Será que se seu vizinho tiver sua casa a arder, você chama os bombeiros com doçura, perdendo tempo com piropos e elogios à actuação deles antes de lhes comunicar que existe um incêndio devastador na casa de seu amigo? Se isso é verdade, se o homem está dentro do inferno por inerência, acha que Deus que vê todas as coisas atenderá um hipócrita querendo comprar Deus com louvores e "piropos santos" antes de clamar por alguém que está em vias de extinção eterna? Guarde seus louvores para quando ver a mão poderosa e salvadora de Deus! Ali sim, aí pode louvar Deus de todo coração e alguém mais o poderá acompanhar nesse hino de gratidão! Isto é o que o ser humano tem de mudar caso queira ser um herói intercessor.

Sabemos pois que "Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser; e os que estão na carne não podem agradar a Deus", Rom 8:7,8; logo, teremos necessariamente de agir em conformidade com toda a destreza diante de qualquer homem e com toda a sinceridade e abertura de coração diante de Deus. Este será o real trabalho dum verdadeiro intercessor: é alguém que cobre pelos dois, tanto diante de Deus pelo homem, como diante do homem por Deus. Que nunca se diga de nós que "Sim, a verdade desfalece; e quem se desvia do mal arrisca-se a ser despojado; e o Senhor o viu, e desagradou-lhe o não haver justiça. E viu que ninguém havia e maravilhou-se de que não houvesse um intercessor", Isa 59: 15,16.

Quero usar dois exemplos para melhor ilustrar tudo o que quero aqui transmitir, pois é coisa simples de se ver e experimentar de facto, mas difícil de colocar em palavras elucidativas e convenientes. A simplicidade de todo este esquema de salvação torna sua explicação um tanto ou quanto difícil. Logo quero usar o exemplo de Moisés para tentar explicar a parte de intercessão diante de Deus a favor do homem e dum cachorro para ilustrar a verdadeira intercessão diante do homem a favor de Deus. É de realçar que nenhum intercessor deve abandonar seu posto de vigília por um minuto que seja! Deus diz que "Mas o meu justo viverá da fé; e se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele", Heb 10:38. É difícil lidar com um Deus assim. Ele tem o Seu jeito e nunca mudará e se quisermos lidar com Ele para colocá-Lo a conversar pessoalmente com o homem, temos de saber que Ele não aceita recuos de nossa parte.

Numa bela manhã, quando cruzava uma das ruas de Lisboa, vi um cachorro atropelado com uma perna partida e cheio de dores. Aproximei-me e quando tentei pegar nele, quase me mordeu, pois achava que lhe iria infringir mais dor ainda. Ele não entendia (nem queria entender) que eu apenas o queria ajudar a levá-lo à clínica veterinária mais próxima. Então pensei que não me podia ofender por este cachorro não me entender, pois estava em grande sofrimento. Sendo assim, não podia atender à sua agressividade, mas sim à sua necessidade. Logo tentei falar meigamente com ele, levando-o a confiar em mim e a esquecer-se assim da sua dor por um momento. Só assim teria como ajudá-lo. Mas isto também não funcionou  muito bem, pois ele deixava-me chegar perto dele porque se sentia muito carente, mas não me permitia tocá-lo porque lhe doía. Então arranjei um cordel e aproximei-me dele de novo, com outra aproximação, com ar carinhoso e decidido (pois é importante saberem que não vamos recuar e vamos terminar nossa obra aconteça o que acontecer!) apontando para seu focinho dócil, mas cheio de dentes. Fiz um laço e consegui laçar seu focinho por inteiro. Toda a sabedoria de aproximação resultou. Pude então agarrar nele e transportei-o o seu médico sem mais demoras. Foi assim que este cachorro foi realmente salvo. Intercedi por ele, não levando em conta sua agressividade, nunca me ofendendo com ela, mas cuidando de conseguir tudo o que era necessário ao seu bem-estar futuro.

Todos nós sabemos que os homens vivem descuidados neste mundo, ignorando as ruas que cruzam, magoando e ferindo todo seu ser por inteiro e sendo atropelados pelo pecado. Mordem e gesticulam contra um primeiro gesto de ajuda oportuna que se lhes apresenta, nunca entendendo do que se trata aquele estender de nossa mão. Assim diz Deus que todo aquele que quer ganhar uma alma terá de ser sábio em todo o seu proceder. Logo, "o que ganha almas sábio é", Prov. 11:30. Esta sabedoria inclui sempre um momento oportuno de se laçar quem morde por onde morde, um esquema de o fazer, um mal a ignorar e uma obra a levar até ao fim sem nunca recuar dela em nenhuma circunstancia. Aquele que lança mão do arado e olha para traz nunca estará apto a promover o reino de Deus entre os homens. Pode alguém laçar o cachorro por onde morde e abandoná-lo ali na estrada pensando que fez algo de muito bom sem haver terminado sua tarefa por inteiro? Que sábio será esse que se dá por feliz havendo alcançado um feito de coragem apenas sem que haja alcançado seu propósito final ainda? Se antes estava machucado, agora com sua boca laçada, nem terá como abri-la para clamar de dor e ser ouvido por alguém que passe por ali de novo! No entanto, é isto o que fazem muitos que pregam o evangelho - laçam e deixam as pessoas ao abandono em doutrinas que Deus os abençoará e que nunca mais se perderão e que devem frequentar os cultos e orar, mas nunca cuidando de suas vidas reais de facto. Isto não é ser intercessor diante do homem.

Agora, intercedendo diante de Deus a favor de todo homem, não temos argumentos nenhuns com excepção de nossa própria vida. Deus disse que "Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos", João 15:13. Caso nossa vida seja preciosa diante de Deus, limpa, aprazível, accessível e cheia de fé, podemos intervir diante d'Ele, sem medo de a perder, sendo importunadores de primeira classe, tal como fez aquela viúva que nada tinha a perder clamando a um juiz mau e iníquo, quando este menos deveria ser perturbado. Esta viúva colocou sua própria vida em risco, pois sabemos que os juízes naquele tempo mandavam matar sem apelo nem agrado, pois tinham toda a autoridade para o fazer - tal como Deus a tem também. Jesus nos ensinou a agir da mesma forma para com Deus, mas este sendo Bom, pois foi para nós mesmos que se deu todo o trabalho de relatar esta parábola. Deus se torna numa pessoa difícil de ser achada, apenas para nos levar a buscá-Lo de todo nosso coração. Podemos mesmo achar que Deus é cheio de esquemas e desistir de procurá-Lo, achando que Ele deveria saber melhor. Mas não será assim que Ele será achado de nós. Pode até ter esquemas, mas nunca O acharemos fora deles: será achado à Sua maneira. E quem desistir perde a vida que traz em sua própria mão para ser salva. Deus não pedoa um lapso destes.

Deus se aproveita de toda a situação para nos levar a uma maior e mais real intimidade com Ele mesmo - quem poderá levar Deus a mal por isso? Se o acharmos, será porque O buscamos de todo nosso coração. Lemos que "Então me invocareis e ireis e orareis a mim e eu vos ouvirei. Buscar-Me-eis e Me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração", Jer 29:12,13. Ora, será apenas por nós próprios que devemos buscar Deus assim? Um intercessor, tapa a brecha entre outros e Deus, coloca-se entre Deus e homem de todo coração, oferecendo sua própria vida para o fazer logo, não se importunando com suas próprias necessidades quando fala com Deus. Sei dum homem que prometeu a Deus que, se isso resolvesse o caso, que se entregaria também para ser crucificado, mas não só isso, mas que escolheria ficar pendurado em todo sofrimento até à vinda de Cristo se fosse preciso, se isso salvasse as pessoas! Não será necessário dizer que este homem contribuiu para a salvação de milhares de pessoas quase sem pregações nos USA, o século passado! É frequente acharmos as pessoas buscarem Deus assim, de todo coração, mas apenas quando estão eles próprios em necessidade - mas, caro leitor, pode, tem você porque buscar Deus assim, esquecendo-se de si mesmo, de suas necessidades, carências e confortos diante de Deus que logo nota se é fingido ou não, quando pode ser ouvido por Deus? Vejamos o que significa isto, de buscar Deus de todo coração, também pelos outros.

Moisés chegou ao ponto de desejar veementemente perder a sua eternidade desde que os outros se salvassem. Ele disse a Deus de todo coração. "Agora, pois, perdoa o seu pecado; ou se não, risca-me do teu livro, que tens escrito", Ex. 32:32. E sabemos que ele aqui falava do livro da vida, tal como Paulo que diz "Porque eu mesmo desejaria ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne", Rom 9:3. É obvio que, para isto ser real e possível, nenhum intercessor terá como cobrir aquele abismo, o fosso que existe entre Deus e homem, caso esteja ocupado e preocupado (que é ainda mais grave que mera ocupação!) com as coisas da sua própria vida. Lemos que, "E todo aquele que milita, de tudo se abstém"; "ora, eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível, nós, porém, uma incorruptível. Pois eu assim corro, não como indeciso; assim combato, não como batendo no ar. Antes subjugo o meu corpo e o reduzo à submissão, para que não venha a ficar reprovado", 1Co 9:25-27. Pode você agir assim, desse mesmo modo, pelos outros, por quem mata, esfola e talvez desprezou, injuriou ou matou seus familiares ou amigos ou irmãos na fé? É que, se não conseguir, tudo aquilo que Cristo fez por si foi em vão, no que toca a si mesmo, pois você ainda não é amor de verdade - só por ser.

Vejamos o que significa interceder de todo coração, mas só que pelos outros também. "Buscar-me-eis e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração". Jer 29:13

É assim, Deus não está medindo as coisas pelo meio, nem está para permitir ou fazer ajustes de contas com qualquer ser humano: qualquer um O pode achar nas Suas condições. Você é crente? Ainda pode achar Deus, pois não se engane!

A parte essencial de todas as orações, nunca é o buscar mas sim o achar. Quem não acha, ou não orou e se orou deu no mesmo: melhor lhe seria nunca haver perdido seu tempo. Oração que não acha é sinal de mal-estar ou desaprovação e qualquer crente deve estar cabalmente habilitado a ler os sinais dos tempos: oração sem resposta, pede de nós algo mais que a própria resposta em si. O sol sem qualquer calor, a água sem humidade, o homem sem amor, um olho dum cego, ou uma oração sem resposta, nada de diferente têm entre eles. Resposta não pode servir de sinal, mas nunca deixa de ser sinal. Resposta é o coração da oração. Crente que ora quando Deus se cala, continuando assim mais um dia, é como criança que brinca com seu carrinho pensando que é gente grande num rali. Mas se continuar assim toda sua vida de crente, algo de errado se passa em tal pessoa - algo de muito errado mesmo!

Já falou com alguém ao telefone? Que acharia se estivesse falando sozinho? E que acharia se houvesse resposta e correspondência adequada, por exemplo, um "sim" e tal coisa nunca se confirmasse na prática depois? Dormiria ainda com paz, sabendo que pode estar a ser enganado ainda em tempo de reverter tudo a seu favor? Hoje ainda, assim que ouvir Sua voz, seu sinal de mal-estar? Ou preferiria o lar dos tolos onde se diria "Deus há-de fazer, Ele há-de me abençoar", quando Ele quer mostrar-lhe precisamente o oposto daquilo que você pensa pela ausência de resposta? Eu poderia imaginar, poderia afirmar até, que mesmo obtendo resposta não serve de sinal claro que Deus está connosco e de bem com quem ora - imagine então como está Deus com quem nunca obtém resposta! Caim falava com Deus e obtinha resposta! Os demónios pediram a Jesus para entrar nos dois mil porcos e Jesus lhes concedeu. Será que há pessoas dentro de nossas igrejas piores que Caim aos olhos de Deus? Se Deus ouve os demónios em pedido (por vezes), porque se recusa a ouvir os crentes?

Deveria ser a coisa mais simples, mais natural de todos costumes humanos, o ser-se ouvido por Deus. Nada disso deveria ser estranho ao ser humano. Mas é! Vamos ver este versículo de buscar Deus de todo o nosso coração: que significa ele para nós.

Em primeiro lugar, Deus se concentra na palavra "Me achareis" e passa todo o ênfase para, "de todo o coração". Sabe que Deus diz assim: "Eis que Meu galardão está comigo". Esta palavra, "ME achareis", deveria merecer muito mais atenção de todos nós - apenas por um momento que seja. Deus não diz para buscarmos as coisas que Ele dá e distribui, mas sim a Ele somente. Assim acharemos todas as coisas n'Ele e não todas as coisas apenas. Se O acharmos, seu galardão vem com Ele. Quer pão? Esqueça que está com fome e busque a Ele e não pão; está com sede? Ele diz "vem a MIM" e não às águas que Eu dou; entende este discurso? "Por que não compreendeis a minha linguagem? É porque não podeis ouvir a minha palavra", João 8:43. Jesus, Deus afirma "ME achareis". É a Ele que busca? Ou é a cura que Ele promete? Ou a felicidade? Deus nunca enganou ninguém: se não O achar, pessoalmente, individualmente junto com seu pedido, caso seu pedido haja sido atendido, é claro que se precipitará no mar também! Ou acha que só aos porcos pode acontecer tal coisa e ao seu pedido não? Deus disse a Abraão: "Não temas, Abraão; Eu sou o teu escudo, o teu único galardão", Gen 15:1. Se Deus atender seu pedido e Ele não estiver incluído pessoalmente na resposta da oração que fez, logo, seu pedido é coisa que para nada serve senão para ser pisado pelos homens, como sal sem sabor será.

"De todo o coração": poderia escrever um livro inteiro sobre isto. Mas não vou, porque espero que você se irá colocar de joelhos para multiplicar este pão com aquela confiança de quem o fará porque esta é uma vontade de Deus. Se está orando, se está suplicando preocupado, como pode estar seu coração TODO envolvido na busca de Deus? Quando Deus fala "de todo coração", quer dizer o oposto de se estar dividido entre dois, três ou dois mil pensamentos e ocupações. Se seu filho está à morte, se seu pedido é urgente, será que vai buscar Deus por Ele? Ou seu coração está dividido entre Deus e seu filho? Ou busca Deus porque seu coração não está sequer dividido: está todo com seu filho?

Há que buscar Deus, mas de todo coração. O mesmo Deus que disse "Não adulterarás", também disse com a mesma força de todas as Suas palavras que, "Não procureis, pois, o que haveis de comer, ou o que haveis de beber e não andeis preocupados. (30).

Porque a todas estas coisas os povos do mundo procuram; mas vosso Pai sabe que precisais delas", Lucas 12:29-30. Então? Em que ficamos então? Buscamos Deus? Ou achamos Deus? Vai querer, desejar só o galardão de Quem

amou todo o mundo de tal maneira? Ou será Ele o seu único galardão também? Se não for, seu coração estará dividido. E só O achará de todo coração. Pode você fazer isto pelos outros também? Já e só por eles?

Isto é o verdadeiro trabalho dum intercessor real colmatar, tapar a brecha entre homem e Deus. Deus está irredutível na total destruição do homem e isso nota-se pelos muitos flagelos à volta de todo mundo hoje mesmo. O homem é amante e aspirante ao pecado e acha que é para isso que Deus existe e deve existir, para lhe poder dar tudo que seu "pobre" coração deseja! Sabemos que Deus nunca mudará e que o homem é criação para viver apenas da perfeição. Também sabemos que o homem mudará caso Deus toque nele por dentro. Logo teremos de ter nossos horizontes todos muito bem definidos e delineados.

Vai você servir de interveniente entre estes dois pólos extremados, e irreconciliáveis e irredutíveis? Dum lado Deus, do outro o homem, ambos em desentendimento profundo, irremediável mesmo, onde um consenso nunca será possível. Um opera contra o outro, em inimizade actuante e visível. Vai colocá-los a conversar um com o outro, a falarem de suas desavenças? Só tem uma maneira e uma agenda sobre a mesa de negociações: o homem querer mudar todo seu coração, confessando todo seu pecado. Vai conseguir esse feito entre dois pólos que não suportam um o que o outro é e faz? Deus diz que "não posso suportar a iniquidade!" Isa 1:13. O homem insinua e acredita que nunca poderá viver sem elas e só quer Deus desde que todos os seus sonhos lhe sejam concedidos oportunamente e desde logo. O verdadeiro trabalho dum intercessor, será pela agência do Espírito Santo, nunca desfalecer em tal obra nobre, pois tudo é possível para aquele que crê. Ele intercede por nós em nós mesmos. Por essa razão gememos muitas vezes sem saber muito bem porque razão.

Todo crente tem necessariamente de servir de ponte, de plataforma de entendimento entre facções, uma Justíssima, outra injusta ao extremo. Seja um real intercessor - mas não por si. Jesus nunca fez um único milagre na terra que beneficiasse a Ele próprio directamente. Fez tudo por quem o rodeava naquele momento. Pode você vir a fazer o mesmo?

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José Mateus
zemateus@msn.com