PREFÁCIO
Sou Ministro Luterano. Passei mais de 14 anos em diferentes prisões por causa de minha fé cristã, mas não é este o motivo que me leva a escrever este livro. Sempre fui avesso à idéia de que a pessoa uma vez presa injustamente deva escrever ou pregar a respeito dos seus sofrimentos. Campanella, o notável autor de "Cidade do Sol", esteve encarcerado durante 27 anos, nos quais sofreu torturas, como passar 40 horas deitado numa cama de pregos. Isto nós sabemos porque seus biógrafos contaram, não que ele o tivesse dito.
Os anos de prisão não me pareceram demasiado longos porque descobri, sozinho em minha cela, que além da fé e do amor, há em Deus um deleite: um profundo e extraordinário êxtase de felicidade, a que nada no mundo se pode comparar. Saindo do cárcere, assemelhava-me a alguém que descia do cume de uma montanha, de onde tivesse descortinado, na extensão de quilômetros ao redor, a paz e a beleza dos campos, e agora voltava à planície.
Primeiro devo explicar por que, há mais de dois anos, vim para o Ocidente. Fui solto em 1964, juntamente com alguns milhares de outros presos políticos e religiosos, porque a República Popular Romena adotara uma política mais "amistosa" em relação ao Ocidente. Deram-me a menor paróquia do país. A minha congregação contava 35 membros. Se esse número subisse para 36, disseram-me, iria haver perturbação. Eu, porém, tinha muito que narrar e havia muita gente que queria me ouvir. Viajava secretamente para pregar em povoados e aldeias. Antes que a polícia soubesse que um estranho estava em terras de sua jurisdição, eu saía. Mas isso tinha de parar. Pastores que me ajudaram foram demitidos pelo Estado e eu podia tornar-me a causa de novas prisões e confissões arrancadas à força de torturas. Tornava-me um peso para aqueles a quem desejava servir, e também um perigo.
Amigos insistiram comigo que eu deixasse o país e, assim, estando no Ocidente, eu falasse em favor daquela igreja secreta. De declarações feitas por líderes da Igreja no Ocidente concluía-se que alguns não sabiam e outros não queriam saber a verdade sobre perseguição religiosa movida pelos comunistas. Prelados procedentes da Europa e da América iam fazer visitas amistosas aos nossos inquisidores e perseguidores, quando então se sentavam a banquetear-se com eles. Perguntávamos a eles qual a razão disso. "Como cristãos", diziam, "temos que proceder amigavelmente com todo mundo, como o senhor sabe. Até com os comunistas". Por que, então, não se mostravam amigos com os que sofriam? Por que nada perguntavam (nem uma palavra sequer), a respeito dos padres e pastores que haviam morrido na prisão ou debaixo de torturas? Ou por que não deixavam um pouco que fosse de dinheiro para as famílias desses mártires, que haviam ficado?
O Arcebispo de Cantuária, Dr. Ramsey foi em 1965 e assistiu a um serviço religioso. Ele não sabia que a congregação consistia de oficiais e agentes da polícia secreta e suas esposas; as mesmas pessoas que comparecem em cada ocasião daquelas. Essa mesma gente já ouvira visitantes como rabinos e muftis, bispos e batistas. Tais visitantes, voltando para casa, comentavam favoravelmente, segundo lemos, a liberdade que, como julgavam, imperava na Romênia. Um teólogo inglês escreveu um livro em que declarava que Cristo teria admirado o sistema presidiário comunista.
Nesse ínterim perdi a licença que tinha para pregar. Fui posto numa lista negra e passei a ser constantemente seguido e vigiado. Algumas vezes ainda preguei em casas de amigos que não ligavam ao perigo que isso representava, pelo que não fiquei surpreendido quando, algum tempo depois de terem começado as negociações secretas para a minha partida rumo ao Ocidente, um estranho convidou-me a ir à sua casa. Deu-me o seu endereço, não declinando o seu nome. Quando o procurei, estava sozinho.
"Quero prestar-lhe um serviço", disse-me. Reconheci que era um agente da polícia secreta. "Um amigo meu diz que os dólares para o senhor foram recebidos. Provavelmente o senhor gostaria de deixar logo o país. O meu amigo está preocupado. O senhor é um homem que fala com franqueza e acaba de sair da prisão. Eles pensam que seria melhor o senhor ficar detido por um pouco mais, ou um membro de sua família permanecer aqui como fiador de sua boa conduta. Naturalmente sua soltura será incondicional". Não lhe garanti nada. Eles tinham os dólares que deviam ser suficientes. Organizações cristãs do Ocidente haviam pago 2.500 libras pelo meu resgate. Negociantes recebem dinheiro estrangeiro e isso ajuda o orçamento da República Popular. Os romenos gostam de pilheriar, dizendo: "Venderíamos o Primeiro Ministro, se alguém quisesse comprá-lo". Vendem-se judeus a Israel a 1.000 libras por cabeça, membros da minoria germânica à Alemanha Ocidental, armênios à América. Cientistas, médicos e professores custam umas 5.000 libras cada um.
A seguir, fui chamado à repartição da polícia. Um dos funcionários disse-me: "Seu passaporte está pronto. Pode ir quando quiser e para onde quiser e pode pregar quanto queira. Só não fale contra nós. Atenha-se ao Evangelho. Do contrário, será reduzido para sempre ao silêncio. Podemos alugar um ”gangster" que se encarregará disso por 1.000 dólares, ou o traremos de volta para cá, como já fizemos com os outros traidores. Podemos aniquilar sua reputação no Ocidente; para isso inventaremos um escândalo em que dinheiro ou sexo esteja envolvido". Disse-me que eu podia sair. Era essa a minha liberdade incondicional.
Vim para o Ocidente. Médicos examinaram-me. Um deles me disse: "O senhor está todo crivado que só peneira". Não conseguia acreditar que os meus ossos se tivessem restabelecido e a minha tuberculose se houvesse curado sem cuidados médicos. "Não me fale em tratamento", disse-me. "Fale isso com Aquele que o manteve vivo e no Qual eu não creio".
Começava o meu novo pastorado em favor da igreja subterrânea - igreja secreta. Encontrei-me com amigos de nossa Missão Escandinava, na Noruega. Pregando lá, uma senhora do banco da frente começou a chorar. Depois me disse que fazia anos lera a notícia da minha prisão, e desde aquele tempo vinha orando por mim. "Vim hoje à igreja sem saber quem ia pregar", disse ela. "Enquanto ouvia, descobri quem era o pregador e chorei". Vim a saber que milhares de pessoas estiveram orando por mim, como oram ainda pelos que estão nas cadeias comunistas. Crianças, a quem eu nunca vira, escreviam-me, dizendo: "Por favor, venha à nossa cidade; as nossas orações a seu favor foram respondidas".
Em igrejas e universidades, por toda a Europa e na América, encontrei pessoas que, apesar de muitas vezes profundamente comovidas com o que eu dizia, não criam que um perigo realmente as ameaçava. "O Comunismo aqui seria diferente". Na Romênia também pensávamos assim, na época em que o Partido era insignificante. O mundo está cheio de pequenos partidos comunistas, que estão à espreita. Com um tigre novo a gente pode brincar: crescendo, ele nos devora.
Defrontei líderes da Igreja no Ocidente que me aconselharam a pregar o Evangelho e a evitar ataques ao Comunismo. Esse conselho também recebi da polícia secreta de Bucareste. O mal, todavia, deve ser chamado pelo seu próprio nome. Jesus disse aos fariseus que eles eram "víboras" e por isso, e não por causa do Sermão do Monte, é que foi crucificado.
Denuncio o Comunismo porque amo os comunistas. Podemos odiar o pecado enquanto amamos o pecador. Sobre os crentes pesa o dever de conquistar as almas dos comunistas, e se falharmos nisto eles cairão sobre o Ocidente e daqui, de igual modo, arrancarão o Cristianismo pelas raízes. Os chefes vermelhos são infelizes e desgraçados. Podem ser salvos, e o modo de Deus agir com esta finalidade é enviar um homem. Ele próprio não foi tirar os israelitas do Egito, mas para isso destinou Moisés. É assim que nos cumpre ganhar para Deus líderes comunistas em todas as esferas - no campo das artes, das ciências e da política. Conquistando os que possam modelar a mente dos homens atrás da Cortina de Ferro, poderemos ganhar os povos que eles dirigem e sobre os quais exercem influência.
A conversão de Svetlana Stalin, filha única do maior assassino de cristãos em massa, uma alma criada na mais rigorosa disciplina comunista, prova que há uma arma contra o Comunismo mais poderosa do que bombas atômicas: é o amor de Cristo!
RlCHARD WURMBRAND
PRIMEIRA PARTE
A primeira metade da minha vida terminou em 29 de Fevereiro de 1948. Caminhava eu sozinho por uma rua de Bucareste quando um carro Ford, de cor preta, parou de súbito do meu lado e dois homens pularam de dentro. Pegaram-me pelos braços e empurraram-me para o assento traseiro do veículo, enquanto um terceiro, ao lado do motorista, ficou apontando uma pistola para mim. O carro disparou, passando pelo meio das poucas viaturas em trânsito naquela manhã de domingo. Depois, numa rua chamada Calea Rahova, viramos e entramos por um portão de aço. Ouvi seu ruído forte ao fechar-se atrás de nós.
Meus seqüestradores pertenciam à Polícia Secreta Comunista. Era ali a sede deles. Uma vez lá dentro, os meus documentos e mais pertences, gravata, cordões dos sapatos e por fim o meu próprio nome foram arrebatados de mim. "De agora em diante", disse-me o oficial de serviço, "o seu nome será Vasile Georgescu".
Era um nome comum. As autoridades não queriam nem que os guardas soubessem a quem eles estavam vigiando, no caso de circularem indagações lá de fora, onde eu era bem conhecido. Eu tinha de desaparecer, como tantos outros, sem deixar rastro.
Calea Rahova era um presídio novo e eu era o seu primeiro preso. A experiência de prisão, entretanto, para mim não era novidade. Durante a guerra, eu havia sido preso pelos fascistas que dominavam na época de Hitler e outra vez quando os comunistas assumiram o poder. No alto da parede de concreto da cela havia uma janelinha; no piso, duas camas de tábuas e o costumeiro balde em um canto. Sentei-me a esperar pelo interrogatório, sabendo as perguntas que iriam fazer-me e as respostas que lhes deveria dar.
Conheço bastante o que é medo, mas naquele momento não senti nenhum. Aquela prisão e tudo quanto a ela se seguiu, era a resposta a uma oração que eu fizera, esperando que iria dar novo sentido à minha vida passada. Não sabia que coisas estranhas e maravilhosas estavam reservadas para mim.
Meu pai tinha em casa um livro que orientava os jovens na escolha de profissões, como a de advogado, médico, oficial do exército e outras. Certa vez, quando eu tinha uns cinco anos, ele trouxe-nos o livro, perguntando aos meus irmãos o que eles queriam ser. Depois de terem feito sua escolha, meu pai voltou-se para mim, que era o caçula. "E você, Richard, que deseja ser?" Olhei mais uma vez para o título do livro - "Guia Geral de Profissões" - e fiquei pensando. Depois respondi: "Quero ser um Guia Geral".
Cinqüenta anos se passaram, quatorze dos quais em prisão e tenho pensado muitas vezes naquelas palavras. Dizem que bem cedo na vida é que fazemos nossas escolhas. Não conheço nada que melhor defina meu presente trabalho do que esse título de "guia geral". Entretanto, a idéia de me tornar um pastor cristão estava muito longe de mim e dos meus pais, que eram judeus. Meu pai morreu quando eu tinha nove anos e a nossa família sempre sofreu penúria de dinheiro e de alimento. Um senhor, certa vez, ofereceu-se para me comprar uma roupa. Quando fomos à loja e o vendedor apresentou uma das melhores o homem disse: "Esta é boa demais para um menino como este".
Parece que ainda escuto sua voz. Meu estudo em escola foi deficiente, porém tínhamos em casa muitos livros. Antes dos dez anos eu já os havia lido, tornando-me tão cético quanto Voltaire, a quem admirava. Não obstante isso, a religião me interessava.
Assistia a rituais em igrejas ortodoxas e católico-romanas e, certa vez, numa sinagoga, vi um conhecido a orar por sua filha enferma. Ela morreu no dia seguinte e eu perguntei ao rabino: "Qual é o Deus que não ouviria uma oração como aquela, desesperada?" Ele não me deu resposta. Não podia eu crer em um ser Todo-Poderoso que deixava tanta gente a padecer fome e a sofrer, e menos ainda que ele tivesse posto na terra um varão de tanta bondade e sabedoria como Jesus Cristo.
Cresci e entrei para o mundo dos negócios de Bucareste. Estava me saindo bem, e antes dos vinte e cinco anos tinha bastante dinheiro para gastar em bares e cabarés luxuosos, com as meninas da "Pequena Paris", como chamavam àquela capital. Não ligava ao que acontecesse, contanto que minha sede de novas sensações fosse aplacada. Levava uma vida que muitos invejavam, mas que, no entanto, deixava-me em grande aflição mental. Sabia que tudo aquilo era falso e que eu estava jogando fora, como lixo, algo em mim que era bom e que podia ser usado. Embora estivesse certo de que não existia Deus, ansiava em meu coração que fosse de outro modo e que houvesse uma razão para a vida no universo.
Certo dia, eu fui a uma igreja e fiquei com outras pessoas diante de uma imagem da Virgem. Elas rezavam e eu tentei acompanhá-las, dizendo: "Ave Maria, cheia de graça..." mas sentia um vazio dentro de mim. Eu disse à imagem: "De fato, és como pedra. Tantos a pedir e nada tens para eles".
Depois que me casei continuei a andar atrás de outras moças. Prossegui na caça de prazeres, mentindo, trapaceando, sem refletir em nada, prejudicando outros até que, aos vinte e sete anos, tais excessos, combinados com as privações de outros tempos, acabaram levando-me à tuberculose. Naquela época essa era uma moléstia perigosa, chegando eu a ponto de me ver às portas da morte. Tive medo. Em um sanatório do interior repousei pela primeira vez em minha vida. Deitado, punha-me a olhar as árvores lá fora e me recordava de fatos passados. Estes se apresentavam a mim como que em angustiantes cenas teatrais: minha mãe chorando por mim; minha esposa também chorando; e tantas jovens indefesas igualmente em pranto. Eu as havia seduzido e difamado, ridicularizado e enganado, não passando de um impostor. Deitado ali, as lágrimas me vieram aos olhos.
Naquele sanatório orei pela primeira vez em minha vida, a oração de um ateu. Disse algo como o seguinte: "Deus, sei que Tu não existes. Mas, se por acaso existes, o que eu nego, cabe a Ti que Te reveles a mim; não sou eu que tenho o dever de procurar-Te".
Toda a minha filosofia até aí tinha sido materialista, porém meu coração não se satisfazia com ela. Teoricamente cria que o homem não passava de matéria e que, morrendo, decompunha-se em sais e minerais. Havia, no entanto perdido meu pai e assistido a outros funerais, e jamais podia pensar nos mortos senão como pessoas. Quem pode pensar que um filho seu, morto, ou esposa seja um amontoado de minerais? São sempre as pessoas queridas o que temos em mente. Pode nossas mentes iludir-se de tal forma?
Meu coração estava pleno de contradições. Passara horas em lugares barulhentos de distração, entre jovens semi-nuas e música excitante, porém gostava também de passear sozinho nos cemitérios, algumas vezes em época de inverno, quando os túmulos se cobriam de neve pesada. Dizia a mim mesmo: "Um dia também serei defunto e a neve me cobrirá a sepultura, enquanto os vivos estarão rindo, a gozar a vida. Não me será possível participar das suas alegrias. Nem chegarei, a saber, quais serão elas. Simplesmente não existirei mais. Depois de breve tempo ninguém mais se lembrará de mim. Assim, pois, qual é a vantagem destas coisas?”.
Considerando os problemas sociais e políticos, pensava que talvez um dia a humanidade encontraria um sistema que proporcionasse liberdade, segurança e saúde a todos. Quando todos estão felizes, ninguém quer morrer. O simples pensamento de que um dia deixará sua feliz vida pode fazê-los mais infelizes do que nunca. Recordava-me de haver lido que Krupp, o homem que se tornou milionário com a invenção de armas mortíferas e se horrorizava com a morte. Não permitia a ninguém que pronunciasse a palavra "morte" em sua presença. Divorciou-se da esposa porque esta lhe contara a morte de um sobrinho. Tinha ele tudo, porém era infeliz sabendo que a felicidade não podia durar muito, teria de deixá-la para trás e ir apodrecer numa sepultura.
Conquanto tivesse lido a Bíblia pelo seu valor literário, minha mente fechava-se no ponto que os adversários provocaram a Cristo: "Se és filho de Deus, desce da cruz". Ao invés disso, Ele morreu. Pareceu isso provar que os Seus inimigos tinham razão, e não obstante sentia que meus pensamentos se dirigiam espontaneamente a Cristo. Dizia a min mesmo: "Gostaria de poder encontrá-lo e com Ele conversar". Todos os dias minha meditação encerrava-se com este pensamento.
Havia no sanatório uma senhora que não se afastava do seu quarto, tão grave era o seu estado de saúde. De algum modo ouviu falar a respeito de mim e mandou-me um livro sobre os Irmãos Ratisbona, fundadores de uma ordem cujo objetivo era a conversão de judeus. Outros tinham estado orando por mim, também judeu, enquanto desperdiçava minha vida.
Após alguns meses em tratamento, obtive ligeira melhora, e fui convalescer numa aldeia, situada num monte onde me tornei amigo de um velho carpinteiro. Certo dia ele me deu uma Bíblia. Não era uma Bíblia como outras o que depois vim a saber, pois ele e a esposa haviam passado horas sobre ela a orar por mim.
Ficava eu deitado no sofá, em minha casa de campo, a ler o Novo Testamento, e à medida que os dias iam passando Cristo me parecia tão real como o era a senhora que me levava as refeições. Nem todos, porém que reconhecem Cristo se salvam. Satanás também crê, e não é crente. Eu disse a Jesus: "Nunca terás a mim como discípulo. O que eu quero é dinheiro, é viajar, é gozar. Já sofri bastante. O teu caminho é o da Cruz, e ainda que seja o caminho da verdade, não te seguirei". Sua resposta veio-me à cabeça com a força de argumento: "Venha comigo por este caminho! Não tema a Cruz! Você verá que isto será o maior gozo".
Continuei lendo e outra vez as lágrimas me vieram aos olhos. Não podia deixar de comparar a vida de Cristo com a minha; Seu modo de ver as coisas era tão puro; o meu tão viciado. Sua natureza era tão desprendida e altruísta; a minha tão voraz e cobiçosa. Seu coração era tão cheio de amor; o meu tão cheio de rancor. Minhas velhas certezas começaram a desmoronar-se em face desta sabedoria e veracidade. Cristo sempre apelara às profundezas do meu coração, a que minha consciência não tinha acesso, e agora dizia eu a mim mesmo: "Se eu tivesse a mente que Ele tem, poderia firmar-me nas conclusões dela". Eu era como o homem do velho conto chinês, a caminhar penosamente e exausto debaixo de uma soalheira, chegando por fim a um grande carvalho, em cuja sombra repousou. "Que felicidade foi a chance de encontrar-te!" A que o carvalho respondeu: "Não foi chance nenhuma. Eu estava esperando você aqui há 400 anos". Cristo esperara por mim toda a minha vida. E agora se dava o nosso encontro.
Essa conversão ocorreu seis meses após meu casamento com Sabina; moça que nunca tivera um lugar no pensamento para coisas espirituais. Foi um golpe terrível para ela. Era uma jovem formosa, que na infância passara por tantas privações. Esperava agora que uma vida mais feliz começasse. E eis que o homem a quem amava, seu companheiro de prazeres, transformava-se num crente devoto a lhe falar em ser pastor. Mais tarde confessou-me que tivera até pensado em suicidar-se.
Certo domingo, quando me propunha a assistir a um culto vespertino, ela desatou em prantos. Dizia desejar ir ver um filme. "Está bem", disse-lhe eu. "Iremos - porque amo você". Andamos de cinema em cinema e escolhi o filme que parecia mais sugestivo. Quando saímos, levei-a a um bar, onde ela se serviu de bolo de creme. Então eu disse: "Agora vá para casa dormir. Preciso procurar uma garota e levá-la a um hotel".
- Que você está dizendo? (ela perguntou)
- Falei bem claro. Você vá para casa. Vou procurar uma jovem para levá-la a um hotel".
- Como é que você diz uma coisa desta?
- Ora, você me fez ir ao cinema, onde viu como foi que o herói procedeu - por que não devo fazer o mesmo? Se amanhã e nos dias seguintes voltarmos a ver filmes dessa ordem... qualquer homem acaba fazendo o que vê lá; mas se você quer que eu seja bom marido, vá à igreja comigo algumas vezes.
Ela refletiu. Depois, calma e sossegadamente começou a ir sempre mais à igreja. Mas ainda suspirava pela vida alegre e quando queria ir a alguma parte, eu a acompanhava. Certa noite fomos a uma festa de muita bebedeira. O ar estava cheio de fumaça. Casais dançavam e se entregavam abertamente as carícias do amor. De repente minha esposa se aborreceu com tudo aquilo, e disse: "Ah, vamos embora! E já!".
Perguntei: "Por quê? Chegamos ainda há pouco". Ficamos até à meia-noite. Outra vez ela quis ir para casa, e outra vez recusei. Repetiu-se isso a 1 hora da madrugada. E outra vez às 2 horas. Quando vi que ela estava completamente enjoada, concordei em sair.
Viemos para o ar puro. Sabina disse: "Richard! Vou diretamente à casa do pastor para que ele me batize. Será como tomar um banho depois de toda aquela sujeira". Ri e observei: "Você já esperou tanto. Pode aguardar agora que o dia amanheça. Deixe o pobre pastor dormir".
Toda a nossa vida mudou. Antes, brigávamos por ninharias. Um divórcio não estaria fora de cogitação, se ela interferisse em minha vida de prazeres. Nasceu-nos um filho. Mihai foi um presente de Deus, porque nos primeiros tempos não queríamos um menino, o qual podia embaraçar nossos divertimentos. Sentimo-nos felizes quando o Rev. George Stevens, presidente da Missão da Igreja da Inglaterra em Bucareste, convidou-me para servir como secretário da mesma. Fiz o que pude para acomodar meus instintos de comércio, porém surgiu uma dificuldade quando persuadi um agente de seguros a aceitar um suborno em troca do arquivamento de uma exigência que ele fazia da Missão. Para surpresa minha, o Sr. Stevens parecia não entender o arranjo proposto por mim. "Mas, quem é que está com a razão?" perguntou. "A Companhia, ou nós?" Respondi que de fato a exigência tinha sua razão. "Então devemos pagar", acrescentou ele, dando por encerrada uma barganha que para mim era vantajosa.
Em 1940 as relações entre a Romênia e a Inglaterra foram suspensas. O Clero inglês teve de deixar o país. Como não houvesse outra pessoa, tive de assumir o trabalho da igreja.
Aprendi por mim mesmo a pregar, ordenando-me pastor luterano. Eu tinha considerado as denominações rivais, existentes na Romênia. A igreja ortodoxa, à qual pertenciam quatro de cada cinco pessoas, parecia muito afeiçoada a pompas externas. Senti a mesma coisa com relação ao ritual católico: um domingo de Páscoa, depois de ouvir sentado toda a liturgia em latim e uma alocução política feita pelo bispo, saí sem ouvir sequer, em minha própria língua, que Cristo ressuscitou dos mortos. Atraíam-me os cultos protestantes, mais simples, em que o sermão, pelo qual se podia ensinar e apresentar uma festa para gozo do espírito, era a parte central. E depois, sem a grandiosidade que lhe fora peculiar, eu tinha certa afinidade espiritual com Martin Lutero. E assim me tornei luterano.
Sempre tive minhas cautelas com o pessoal do clero, e acima de tudo com aqueles que me perguntassem se eu estava "salvo". Agora, se bem que não usasse veste clericais, tinha o impulso irresistível de encerrar o mundo inteiro em minha paróquia. Não podia fazer muitas conversões. Conservava comigo uma lista dos componentes de minha congregação e quando num ônibus e em salas de espera, puxava-a do bolso e me perguntava o que cada um estaria fazendo naquele momento. Se algum deles desertava, eu ficava prostrado em angústia durante horas. Era um sofrimento físico, como se um punhal me atravessasse o peito. Pedia a Deus que me livrasse daquilo. Não podia continuar assim.
As condições de Stalin para auxílio econômico a Hitler durante a guerra incluíam a partilha da Europa Oriental. Um terço de nosso território nacional foi divido entre a Rússia, a Bulgária e a Hungria. A influência nazista apoiou a expansão de um movimento denominado "Guarda de Ferro", cujos membros procuravam utilizar-se da igreja ortodoxa, para fins de terrorismo político. Na noite antes do assassinato do Primeiro Ministro Calinescu, seu principal opositor, nove fanáticos passaram horas prostrados no chão de uma igreja, seus corpos dispostos na forma de cruz. Depois disso, a Guarda de Ferro prestou auxílio ao protegido de Hitler, General lon Antonescu, para a conquista do poder. O rei Carol foi forçado a abdicar em favor do seu jovem filho Miguel, em cujo nome Antonescu governou como ditador.
Agora a Guarda de Ferro tinha carta branca para agir com judeus, comunistas e protestantes. Assassinatos eram perpetrados nas ruas. Nossa Missão foi acusada de traição. Todos os dias eu recebia ameaças. Certo domingo, do púlpito, vi um grupo de homens, vestindo a camisa verde da Guarda de Ferro, enchendo silenciosamente os últimos bancos da igreja. A congregação, de frente para o altar, não se apercebia dos intrusos, mas eu os vi empunhando revólveres. Eu pensava: se este vai ser meu último sermão, deverá ser bom mesmo.
Falei sobre as mãos de Jesus. Disse como haviam enxugado lágrimas, pego em crianças e alimentado famintos. Haviam curado enfermos, foram pregadas na cruz e abençoaram os discípulos antes que Ele subisse ao céu. Depois ergui a voz, "Mas quanto a vós outros? Que tendes feito com as vossas mãos?" A congregação olhava com espanto. Todos seguravam seus livros de orações. Trovejei, "Vós estais matando, espancando e torturando pessoas inocentes! Chamais a vós mesmos cristãos? Limpai as mãos, pecadores!".
Os homens da Guarda de Ferro pareciam cheios de furor. Apesar disso não cuidaram de interromper o culto. Levantaram-se de revólveres nas mãos enquanto elevei uma oração e impetrei a bênção, depois do que os assistentes começaram a sair. Quando quase todos se tinham retirado sem novidade, desci do púlpito e passei por trás de uma cortina. Antes que eu atravessasse uma portinhola, fechando-a a chave, ouvi rumor de passos apressados e gritos: "Onde está Wurmbrand? Vamos a ele!". Aquela passagem secreta tinha sido construída muitos anos antes. Através de corredores ganhei a rua ao lado, e assim escapei.
Com o prosseguimento da guerra, muitas pessoas das minorias cristãs: adventistas, batistas, pentecostais; foram massacradas ou levadas para campos de concentração com os judeus. Toda a família de minha esposa desapareceu; nunca mais os vi. Fui detido pelos fascistas em três ocasiões; processado, interrogado, espancado e preso. Deste modo fiquei bem preparado para o que havia de vir sob o domínio comunista.
Através da janela da prisão em Calea Rahova podia ver um canto do pátio. Um dia, enquanto olhava, um clérigo deu entrada pelo portão. Caminhava a passos rápidos pelo asfalto, penetrando numa porta: era um informante, que ia dar relatório de sua congregação.
Eu sabia que me aguardavam interrogatórios, maus-tratos, possivelmente anos de prisão e morte, e não sabia se minha fé seria bastante forte. Lembrava-me então que na Bíblia está escrito 366 vezes: uma para cada dia do ano; "Não temas!" Trezentos e sessenta e seis vezes e não somente trezentos e sessenta e cinco, para que não se excluam os anos bissextos. E o que me aconteceu foi em 29 de fevereiro; coincidência que me dizia não precisar ter medo!
Os interrogadores não se mostravam impacientes por me ver, porque as prisões comunistas assemelham-se a arquivos, cujas gavetas se puxam à medida que alguma informação se torne necessária. Fui interrogado repetidas vezes durante todos os quatorze anos e meio que passei preso. Sabia que aos olhos do Partido minhas ligações com as missões da igreja ocidental e com o Concílio Mundial de Igrejas eram traiçoeiras, desleais, mas havia muito mais coisas de importância que eles não sabiam e que de mim não deviam ouvir.
Havia-me preparado para prisão e torturas, como um soldado que em tempo de paz se prepara visando as cruezas da guerra. Estudara as vidas de cristãos que tinham enfrentado iguais sofrimentos e tentações para que se entregassem, e pensava como era que eu podia acomodar-me às experiências deles. Muitos que não se prepararam assim foram esmagados pelo sofrimento ou foram seduzidos a dizer o que não deviam. Os interrogados sempre diziam a clérigos: "Como cristãos vocês devem prometer dizer a nós toda a verdade sobre tudo". De minha parte, visto como tinha certeza de que me dariam como culpado fosse o que fosse que eu dissesse, decidi que sob torturas incriminaria a mim mesmo e nunca trairia amigos que me haviam ajudado a divulgar o Evangelho. Assim, fiz o plano de deixar meus inquiridores ainda mais confusos no final de suas investigações do que no princípio. Queria desnorteá-los por completo.
Minha primeira tarefa era conseguir de algum modo mandar aviso aos meus colegas e à minha esposa sobre o lugar em que me encontrava. Pude peitar um guarda para que se fizesse intermediário, porque naquele tempo minha família ainda tinha dinheiro. Ele recebeu umas 500 libras para levar recados nas poucas semanas que se seguiram. Depois, tudo quanto era nosso foi tomado.
O guarda levou-me a notícia de que o Embaixador da Suécia havia protestado contra o meu desaparecimento, dizendo que eu tinha na Escandinávia e na Inglaterra muitos que me queriam bem. A Sra. Ana Pauker, Ministra do Exterior, respondeu que nada se sabia do meu paradeiro, visto que eu deixara o país ocultamente fazia já algum tempo. O Embaixador, na qualidade de emissário neutro, pôde a custo exercer maior pressão, no fim de tudo perante a Sra. Pauker, mulher à frente da qual homens fortes se acovardavam. Eu a avistara antes e cheguei a conhecer o seu pai, um clérigo de nome Rabinovici, que me declarou com tristeza: "Ana tem o coração vazio de piedade por tudo quanto é judaico". Estudou medicina, depois passou a ensinar na Missão da Igreja Inglesa antes de abraçar o Comunismo e de se casar com um engenheiro das mesmas idéias, chamado Mareei Pauker. Ambos foram presos por conspiração, porém ela se mostrava partidária mais violenta. Foi residir em Moscou e Mareei acompanhou-a, com pouco entusiasmo. Em um dos expurgos promovidos por Stalin antes da guerra, ele foi executado: fuzilado, como se disse, pela mão da própria esposa, sendo que poucos punham em dúvida esta versão. Ana só exteriormente era mulher: intimamente era como Lady Macbeth: "cheia, da coroa à ponta dos pés, da mais terrível crueldade". Depois de passar os últimos tempos da guerra como cidadã soviética em Moscou, no posto de oficial do Exército Vermelho, voltou a exercer o cargo de Ministro do Exterior, para se tornar dominadora na Romênia.
Tamanha era a sua lealdade à Rússia, que certo dia, sendo o tempo claro, perguntou-lhe alguém por que andava em Bucareste com a sombrinha aberta, ao que ela respondeu, segundo boatejavam: "Não ouviu você o aviso meteorológico? Está chovendo grosso em Moscou".
Depois que um grupo de líderes políticos, chefiados pelo jovem Rei Miguel, retirou corajosamente do poder o General Antonescu, dando assim por encerrada sua parceria com a Alemanha, convocou-se uma reunião em Moscou para se decidir a configuração do mundo de após-guerra. Churchill perguntou a Stalin: "Que tal você predominar em 90 por cento da Romênia, cabendo a nós 90 por cento do direito de opinar na Grécia?" E escreveu estas palavras numa folha de papel. Stalin fez uma pausa. Depois, com um lápis azul, riscou um sinal grande no papel e passou-o para trás. Tropas russas de um milhão de homens invadiram a Romênia. Eram estes os nossos novos "aliados".
"Os russos estão chegando!" era uma frase que, para nós, não tinha nada de engraçado. Os novos ocupantes tinham uma única idéia na vida: beber, roubar e saquear os "capitalistas exploradores". Milhares de mulheres, de todas as idades e condições, eram raptadas por soldados que invadiam suas casas. Homens eram roubados em via pública, arrebatando-se deles novidades tais como bicicletas e relógios de pulso. Quando pelo fuzilamento se restabeleceu a ordem no Exército Vermelho e as lojas começaram a levantar suas persianas, as tropas visitantes ficavam admiradas diante dos artigos expostos à venda e ainda mais quando vieram, a saber, que a maioria dos fregueses era fazendeiros e operários de fábricas.
A capitulação, proclamada em 23 de agosto de 1944, ainda é celebrada todos os anos como o dia da libertação da Romênia. De fato, usaram-se os seus termos para espoliar o país de toda a sua marinha de guerra, a maior parte de sua frota mercante, a metade da sua frota terrestre e todos os automóveis. Produtos de granjas, cavalos, gado e todo o nosso estoque de óleo e petróleo eram desviados para a Rússia. Foi assim que a Romênia, conhecida como celeiro da Europa, viu-se reduzida a uma área de fome.
No dia em que me converti, orei: "Ó Deus, eu era ateu. Deixa-me agora ir à Rússia para trabalhar como missionário entre os ateus, e não reclamarei se depois tiver de passar todo o resto da minha vida em prisão". Deus, no entanto não me levou a empreender a longa viagem à Rússia. Ao invés disso, os russos vieram a mim.
Durante a guerra, a despeito da perseguição, os membros de nossa missão aumentaram grandemente em número. Muitos dos que haviam atormentado judeus e protestantes, agora adoravam ao lado de suas vítimas de antes.
Passada a guerra, continuou meu trabalho pelas missões da igreja ocidental. Tive um gabinete equipado, secretárias; uma "frente" para a minha campanha. Falo bem o russo. Era-me fácil conversar com soldados russos nas ruas, lojas e trens. Não usava uniforme clerical, de modo que me supunham um cidadão vulgar. Os jovens, especialmente, estavam desconcertados e saudosos do lar. Apreciavam que lhes mostrássemos aspectos de Bucareste, bem como receber convites para visitar uma casa de amigos. Nisto recebi auxílio da parte de muitos jovens crentes que também falavam russo. Dizia eu às moças que elas podiam usar a sua beleza para ajudar a levar homens a Cristo. Uma jovem viu um soldado sozinho num bar. Sentou-se ao seu lado e aceitou o oferecimento que o rapaz lhe fez de um copo de vinho; depois sugeriu que saíssem para alguma parte, onde pudessem conversar mais tranqüilamente. "Com você, em qualquer parte!" disse o russo, e ela o levou à minha casa. O soldado converteu-se e levou outros a ter contato conosco.
Secretamente publicamos o Evangelho em russo. Mais de 100.000 exemplares foram distribuídos em bares, parques, estações ferroviárias, onde quer que se achassem russos; isso durante mais de três anos. Eram passados de mão em mão, até que ficavam amarrotados. Muitos de nossos auxiliares foram presos, porém nenhum deles me denunciou.
Ficávamos admirados não tanto com o número de conversões, senão com a sua naturalidade. Os russos ignoravam religião por completo, mas era como se no profundo dos seus corações buscassem a verdade. Agora reconheciam-na com deleite. Na maioria dos casos eram jovens camponeses, que tinham trabalhado na lavoura, plantando e colhendo, e sentiam no íntimo que alguém põe a natureza em ordem. Contudo haviam-se criado ateus e acreditavam que o eram, assim como tantos acreditam que são cristãos, quando não o são.
Encontrei um jovem pintor, oriundo do extremo da Sibéria, quando viajava de trem. Falei-lhe de Cristo, no percurso da viagem. "Agora compreendo!" disse ele. "Eu só conhecia o que nos ensinaram nas escolas, que a religião é um instrumento do imperialismo, e assim por diante. Mas eu costumava andar em um velho cemitério perto da minha casa, onde podia ficar só. Muitas vezes me dirigia a uma casa pequenina, abandonada entre os túmulos". (Compreendi tratar-se de uma capela ortodoxa, do cemitério). "Na parede havia a pintura de um homem pregado a uma cruz. Pensava eu, Ele deve ter sido um grande criminoso, para receber tal castigo". Mas, se foi um criminoso, por que seu retrato haveria de ser colocado num lugar de honra - como se fosse Marx ou Lênin? Conclui que a princípio o tiveram por criminoso, e que depois o acharam inocente, e assim, tocados de remorso, expunham daquele modo a sua “gravura”.
Eu disse ao pintor: "Você está a meio-caminho da verdade". Quando chegamos ao nosso destino, horas depois, ele sabia tudo quanto lhe pude dizer de Jesus. Ao nos separarmos, ele disse: "Planejava roubar algumas coisas esta noite, como todos fazemos. Mas agora poderei fazer isso? Creio em Cristo".
Também trabalhamos entre comunistas romenos. Todo livro tinha de passar pela censura deles. Apresentávamos obras que levavam no frontispício o retrato de Karl Marx. Poucas das primeiras páginas repetiam os argumentos dele e os de Lênin contra a religião. O censor não ia além daí, o que era bom, visto como o restante do livro era cem por cento cristão. O censor gostou de outro dos nossos títulos: "Religião, ópio do povo". Diante de pilhas de livros, velhos e novos para ler, não se dava ao trabalho de olhar por dentro, onde encontraria só argumentos cristãos. Algumas vezes um censor deixava passar qualquer coisa em troca de uma garrafa de aguardente.
O número de comunistas romenos havia crescido, passando de poucos milhares para milhões, porque um cartão do Partido podia significar a diferença entre comer e passar fome. Stalin instalara um governo de "frente unida", de sua própria escolha, tendo a dirigi-lo o líder da "Frente de Lavradores", de nome Groza. À parte Ana Pauker, que segundo se dizia "inventara" Groza, o poder dos russos era exercido mediante três veteranos camaradas do Partido: Lucretiu Patrascanu, nomeado Ministro do Interior assumiu o comando da polícia e da "segurança", e Gheorghe Gheorghiu Dej, um rijo ferroviário, que era o Primeiro Secretário do Partido.
Assisti, na qualidade de observador, a uma reunião de padres ortodoxos, onde Gheorghiu Dej falou, depois que os comunistas assumiram o poder. Jovial e atarracado assegurou a todos estar preparado a "perdoar e esquecer". Apesar das muitas ligações da igreja deles, no passado, com a Guarda de Ferro e outras organizações de ala-direita, o Estado ia continuar a pagar-lhes salários, como antes. Suas observações finais, acerca da identidade dos ideais cristãos e dos comunistas, mereceram aplausos.
Em ocasiões informais Gheorghiu Dej foi franco em declarar seu ateísmo e sua convicção de que o Comunismo se propagaria pelo mundo inteiro e, no entanto falava com indulgência a respeito de sua velha mãe, que enchia o lar dele de ícones e criou as filhas como fiéis ortodoxas. Durante onze anos de prisão sob o velho regime, Dej tivera tempo de estudar a Bíblia e discutir religião com muitos secretários aprisionados, aos quais expressava simpatia. Fugindo da prisão pouco antes da chegada dos russos, teria sido capturado e morto pelo ditador Antonescu, se não tivesse sido protegido por um padre amigo. Todavia, se a religião chegou a tocar sua vida nos dias de luta, nenhum lugar havia para ela agora que ele estava por cima. A esposa, que por tanto tempo esperara pelo seu retorno, foi desprezada, tomando-lhe o lugar uma estrela de cinema. A casa vivia cheia de serventes e pessoas envolvidas em processos judiciais; Dej era rico e famoso, e nenhuma disposição tinha para ouvir a quem quer que fosse.
Quando alguém dirigiu a conversação, na reunião que teve com os padres, levando-a para o terreno espiritual, ele replicou com os argumentos normais do Partido. Assegurou-nos que todos íamos ter completa liberdade de consciência na nova Romênia, e em troca meus colegas prometeram não causar nenhuma perturbação ao Estado. Eu ouvia e guardava comigo minhas restrições. Muitos padres sobressaíram-se naquela reunião como campeões do modo comunista de vida, mas cedo ou tarde tropeçaram em alguma doutrina do Partido e acabaram sendo presos.
A campanha para minar a religião progrediu com rapidez. Todos os fundos e propriedades da igreja foram nacionalizados. Um Ministro de Cultos comunista controlava completamente o clero, pagando-lhes salários e sancionando nomeações. O ancião Patriarca Nicodim, um recluso virtual, foi aceito como figura-de-proa dos ortodoxos, mas o Partido precisava de um instrumento mais dócil, e Dej conhecia o homem adequado: o padre que o havia escondido dos fascistas um ano antes. E assim foi que o padre Justiniano Marina, obscuro professor de seminário, provindo de Rimincul Vilcea, foi feito bispo. Em breve todos os quatorze milhões de romenos ortodoxos, freqüentadores da igreja, vieram a saber que ele era o seu Patriarca só no nome.
A tarefa seguinte foi separar os católicos romanos dos católicos gregos, dos quais havia dois milhões e meio. Os católicos gregos, comumente chamados Uniatas, embora guardem muitas tradições propriamente suas (inclusive o direito que os padres têm ao casamento), aceitam a supremacia do Papa. Eram agora assaltados e à força se uniram à obediente Igreja Ortodoxa. A maioria dos padres e todos os bispos que se opuseram a esse consórcio forçado, foram presos, suas dioceses foram abolidas e confiscadas suas propriedades. Os católicos romanos, que receberam ordem de romper com o Vaticano, recusaram-se. Estes igualmente pagaram caro por sua resistência. Com os padres a encher os presídios e circulando pelo país inteiro, histórias sinistras do tratamento que recebiam, as religiões minoritárias só fizeram baixar a cabeça e esperar o desfecho da sua morte.
Não tiveram muito que esperar. Em 1945 um "Congresso de Cultos" foi convocado para se realizar no edifício do Parlamento da Romênia, reunindo-se ali 4.000 representantes do clero, que lotaram o salão. Bispos, padres, pastores, rabinos e teólogos muçulmanos aplaudiram quando foi anunciado que o Camarada Stalin (cujo retrato, em tamanho grande, pendia da parede) era o patrono do congresso. Preferiam não se lembrar que ele, ao mesmo tempo, era presidente da Organização Ateísta Mundial. O velho e temente Patriarca Nicodim abençoou a assembléia e o Primeiro-Ministro Groza abriu os trabalhos. Disse que ele mesmo era filho de um padre. Suas generosas promessas de apoio, secundadas por outros personagens que falaram depois, foram recebidas com reconhecimento e palmas.
Um dos principais bispos ortodoxos disse em resposta que no passado, muitos riachos políticos haviam afluído para o grande rio de sua igreja: verdes, azuis, tricolores, e agora ele saudava a perspectiva de que um vermelho viesse juntar-se àquele caudal. Um líder calvinista, outro luterano e o Rabino Chefe, cada qual por sua vez, se levantaram para falar. Todos manifestaram boa-vontade de cooperar com os comunistas. Minha esposa, ao meu lado, não podia mais suportar. E disse: "Vai e lava esta vergonha que atiram à face de Cristo!"
"Se eu fizer isso, você vai perder seu marido", respondi.
"Não quero ter por marido um covarde. Vá e fale", atalhou Sabina.
Pedi licença para falar e eles com prazer me convidaram à tribuna: os promotores do Congresso esperavam publicar no dia seguinte um discurso de congratulações do Pastor Wurmbrand, da Missão da Igreja da Suécia e do Concílio Mundial de Igrejas.
Comecei com uma ligeira observação sobre o Comunismo. Disse que, como clérigos, nosso era o dever de glorificar a Deus e a Cristo, e não aos poderes transitórios do mundo, e a manter o seu reino eterno de amor contra as vaidades da hora presente. E enquanto continuava, padres que durante horas estiveram sentados a ouvir lisonjas mentirosas acerca do Partido, pareciam despertar de um sono. Alguém começou a bater palmas. A tensão chegou ao máximo e eclodiu; aplausos ressoaram de súbito, onda após onda, delegados levantando-se e dando vivas. O Ministro de Cultos, ex-padre ortodoxo, de nome Burducea, que fora em outros tempos um fascista ativo, bradou da plataforma que estava cassado o meu direito de falar. Respondi que esse direito eu o tinha da parte de Deus, e continuei. Por fim desligaram o microfone, mas esse ponto o tumulto era tão grande no salão, que ninguém podia ouvir mais nada.
Com isso deu-se por fim a sessão do congresso daquele dia. Ouvi que o Ministro de Cultos tencionava cancelar minha licença de pastor e fui aconselhado a procurar auxílio do influente Patriarca eleito. Depois de várias tentativas, consegui entrar em contato com Justiniano, ao voltar ele de uma visita a Moscou, onde houvera grande agitação a seu respeito. De barbas negras, sorridente, convencido de sua nova dignidade, porém, não um insensato, era esse o homem que agora cuidava dos quatro quintos da população que na Romênia freqüentava as igrejas. De repente decidi que poderia empregar meu tempo com ele de melhor forma que conversando a respeito de meu próprio caso. Disse então que, desde que fora promovido, fora objeto de minhas orações constantes. A responsabilidade por quatorze milhões de almas devia na verdade ser uma carga terrível para alguém levar. Devia ele sentir-se como Sto. Irineu, que chorou quando o povo o fez bispo contra a sua vontade, dizendo: "Filhos, que fizestes - como me poderei tornar o homem que este cargo exige? A Bíblia diz que o bispo deve ser justo".
Enquanto eu falava, ele pouco dizia, mas depois que me retirei fez indagações entre amigos sobre mim. Por certo não se falou mais na cassação de minha licença. Posteriormente, quando fui detido pela polícia para um inquérito de seis semanas, Justiniano esteve entre os que ajudaram a obter minha liberdade. Ainda depois me convidou ao lashi, sede do seu episcopado, onde nos tornamos amigos. Era de espantar sua ignorância da Bíblia, mas isso não era exceção entre os padres ortodoxos. Ouviu com atenção quando lhe recordei a parábola do Filho Pródigo. Tomando suas mãos entre as minhas disse-lhe que Deus recebia com prazer os desviados que voltavam, mesmo que fossem bispos.
Outros crentes, além de mim, empregavam toda a sua influência sobre ele. Começara já uma vida de oração e amor a Deus em vasta escala contra a religião, pelo que o perdi de vista durante alguns anos.
A torrente do ateísmo avançava de par com a eliminação de partidos oposicionistas, porque depois de Stalin haver conseguido tudo dos seus aliados do tempo de guerra, as últimas reivindicações democráticas foram postas de lado. O grande líder do Movimento Nacional Camponês da Romênia, Luliu Maniu, foi submetido a julgamento com outras dezoito pessoas sob falsas acusações e, com a idade de mais de setenta anos, foi sentenciado a dez anos de prisão. Morreu na cadeia quatro anos depois. No reinado de terror, que se seguiu, estima-se em uns 60.000 os "inimigos do Estado" que foram executados.
Por ironia o Ministro da Justiça que presidiu todo esse expurgo, Lucretiu Patrascanu, de quarenta e sete anos, recebera muito auxílio de Maniu na defesa de comunistas perseguidos antes da guerra. Os dois também trabalharam juntamente com o Rei Miguel no planejamento do armistício que Patrascanu depois assinou em Moscou, em nome da Romênia. Uma vez Maniu reduzido ao silêncio, Patrascanu e outros líderes do Partido forçaram nosso mui querido e jovem rei a abdicar.
Veio então a proclamar-se uma República Popular. Quem, no entanto seria o seu líder? Não o títere Groza, por certo. Ana Pauker era detestada, até mesmo no Partido. Os demais tinham desavença entre si. Muitos dos admiradores de Patrascanu viam nele um comunista nacionalista que desviaria o país do extremismo Stalinista. Era um comunista tipo "ocidental", oriundo de uma família proprietária de terras, e o melhor que se podia dizer dele era que fora romeno antes de ser vermelho.
O problema da liderança foi assunto de vivos debates no Comitê Central do Partido.
Minha vida como pastor, até esse tempo, havia sido plena de satisfação. Tinha tudo quanto necessitava para a minha família. Gozava da confiança e do carinho dos meus paroquianos. Mas não sentia paz. Por que me permitia viver como sempre, quando uma ditadura cruel estava destruindo tudo quanto me era caro e quando outros sofriam por sua fé? Muitas noites, eu e Sabina oramos pedindo a Deus que nos desse uma cruz para levar.
Minha prisão, na ampla canoa que prosseguia por esse tempo, podia ser considerada resposta à minha oração, porém jamais podia supor que o meu primeiro companheiro de cela fosse o Camarada Patrascanu.
Quando a porta de minha cela em Calea Rahova se abriu, poucos dias depois de minha chegada, para que entrasse o alto Ministro da Justiça, julguei a princípio que ele ia interrogar-me na prisão. Por que teria eu tamanha honra? Mas logo a porta foi trancada atrás dele: e mais era de estranhar, sua camisa estava aberta no pescoço, sem gravata. Olhei para os seus sapatos muito polidos; nenhum cadarço. O segundo preso em minha cela novinha em folha era o homem que levara o Comunismo ao poder em nosso país.
Sentou-se na outra cama de tábuas e balançava os pés. Intelectual de mentalidade rija, não iria permitir que a transformação de Ministro em pássaro engaiolado afetasse a sua dignidade. Agasalhado em um dos nossos casacões, com que nos protegíamos da friagem de março, começamos a conversar. Embora eu soubesse que as suas doutrinas tinham esfrangalhado a justiça e causado tanta destruição, foi-me possível apreciá-lo como homem e acreditar em sua sinceridade. Tinha ele em pouco apreço sua prisão. Longe estava de ser aquele seu primeiro período de confinamento. Já houvera sido dito várias vezes pelos governantes na Romênia de tempos idos. Parecia que sua crescente popularidade havia unido os outros líderes do Partido contra ele. Num congresso, poucos dias antes, fora denunciado como traidor burguês na luta de classes pelo seu colega Teohari Georgescu, Ministro do Interior. Uma outra acusação, de ter sido "possivelmente ajudado pelas potências imperialistas", fora apoiada por Vasile Luca, Ministro das Finanças, que com ele estivera preso sob o antigo regime. As acusações recebiam ênfase da parte de Ana Pauker, outra amiga sua de outrora.
Vinham conspirando contra ele já por algum tempo, disse Patrascanu, mas um incidente em particular denunciou-o como não-comunista. Perguntara ele a um dos funcionários de Georgescu se havia verdade nos rumores de que prisioneiros estavam sendo torturados. "Por que não?", respondeu o homem, da parte do Ministério. Tratava-se de contra revolucionários que não mereciam piedade, especialmente quando se negavam a prestar informações. Patrascanu ficou profundamente conturbado. Será então este o pagamento, perguntou, de haverem lutado todos estes anos para levar o partido ao poder? Seu protesto foi noticiado a Georgescu, seguindo-se a denúncia no Congresso.
"Ao deixar a sala", disse, "vi novo motorista a me esperar no carro, o qual me observou", "Camarada Patrascanu, lonescu, seu chofer, adoeceu e levaram-no". Entrei no carro, dois secretas subiram atrás de mim - e aqui estou!".
Tinha certeza de que em breve seria reconduzido ao seu posto, e quando a ceia chegou, comecei a imaginar que isso bem que podia ser possível. Em lugar de cevadas cozidas, trouxeram-lhe frango, queijo, frutas e uma garrafa de vinho branco do Reno. Patrascanu sorveu um copo de bebida e afastou a bandeja, dizendo não estar com apetite.
Enquanto eu procurava comer sem muita voracidade, ele foi contando histórias divertidas. Uma foi em torno do senador suíço que desejava ser Ministro da Marinha. "Mas não temos marinha nenhuma!" observou o Primeiro-Ministro. "Que importa?" atalhou o senador. "Se a Romênia pode ter um Ministro da Justiça, por que não pode a Suíça ter um Ministro da Marinha?" Patrascanu ria muito com esta anedota, apesar de ridicularizar a "justiça" que ele havia implantado e da qual acabou sendo vítima.
Na manhã seguinte Patrascanu saiu escoltado da cela, supondo eu que para ser interrogado. Voltou irritado à noite, dizendo que não estivera a responder perguntas, mas a fazer uma preleção na universidade, onde ensinava Direito. O Partido queira que sua prisão ficasse em sigilo por enquanto, e ele com trinta anos de disciplina comunista atrás de si, tinha de curvar-se ao desejo deles. Conversava comigo porque com ninguém mais, mesmo fora da prisão, podia falar. Revelar, mesmo que fosse à esposa, estar ele "debaixo de inquérito", ou pedir conselho a alguém seria uma ofensa capital. Aquele isolamento pesava-lhe no sistema nervoso, sendo esta mesma a sua finalidade. Só podia abrir-se, ser autêntico, comigo, porque tinha razão de acreditar que nunca mais eu veria o mundo exterior.
Relatando-me algo de sua vida primitiva, interessava-me ver que ele se tornara comunista não por qualquer critério objetivo, mas em revolta contra tribulações de outrora. Seu pai, cidadão abastado, defendera os alemães com entusiasmo na Primeira Guerra Mundial, razão por que, com a vitória dos Aliados, toda a sua família sofreu ostracismo. O jovem Patrascanu teve de ir para a Alemanha, a fim de receber educação universitária, e, voltando, aderiu ao único partido político que lhe deu boas-vindas. Sua primeira mulher, comunista, morreu num dos expurgos stalinistas. Casou-se de novo com outro membro do Partido, acontecendo ser ela amiga de minha esposa, dos seus tempos de escola.
Procurei mostrar-lhe a origem de suas convicções. "O senhor assemelha-se a Marx e Lênin", disse eu, "cujas idéias e ações foram também o resultado de sofrimentos do passado. Marx sentia em si algo de genial, mas sendo judeu e residindo na Alemanha quando lá predominava o anti-semitismo, não podia dar vazão aos seus sentimentos senão como revolucionário. O irmão de Lênin fora enforcado por atentar contra a vida do imperador: ira e frustração levaram-no a querer subverter o mundo. Foi bem o que aconteceu com o senhor".
Patrascanu rejeitava essa idéia. Seus nervos encontravam alívio em discussões filosóficas contra a iniqüidade da igreja. Os calamitosos dias dos Papas Borgia, a Inquisição Espanhola, a selvageria das Cruzadas, a perseguição movida a Galileu, tudo isto vinha à tona da conversa.
"Mas são os crimes e erros da Igreja que nos fornecem muito mais o que admirar nela", retorqui. Patrascanu ficou surpreso. "Que quer dizer com isso?"
Respondi: "Um hospital pode ter mal cheiro de pus e sangue; nisto reside sua beleza, porque recebe doentes com as suas chagas repelentes e moléstias horríveis. A Igreja é o hospital de Cristo. Milhões de pacientes nela se tratam, com amor. Ela aceita pecadores, estes continuam pecando, e pelas transgressões deles a Igreja é censurada. Para mim, por outro lado, a Igreja é qual uma mãe que se posta ao lado dos filhos, até mesmo quando estes cometem crimes. A política e os preconceitos dos seus serventuários são adulterações daquilo que nos vem de Deus, isto é, a Bíblia e seus ensinos, o culto e os sacramentos. Sejam quais forem as suas faltas, a Igreja tem muita coisa sublime em sí. O mar afoga milhares de pessoas cada ano, mas ninguém põe ,em dúvida a sua beleza".
Patrascanu sorriu: "Eu podia alegar outro tanto em favor do Comunismo. Seus praticantes não são perfeitos: há canalhas entre eles; mas isto não quer dizer que haja erros em nossas teorias".
"Então julgue pelos resultados", atalhei, "como Jesus aconselhou. Ações lamentáveis têm manchado a história da Igreja, contudo ela tem sido pródiga em amor e cuidado pelo povo no mundo inteiro. Tem produzido uma multidão de santos, e tem a Cristo, o maior de todos eles, como seu cabeça. Quem são os ídolos do senhor? Homens como Marx, dado como ébrio pelo seu biógrafo Riazanov, diretor do Instituto Marx de Moscou. Ou Lênin, cuja esposa nos conta ter sido ele jogador e cujos escritos destilam veneno. "Por seus frutos os conhecereis". O Comunismo tem feito desaparecer milhões de vítimas inocentes, tem levado países à bancarrota, tem enchido o ar de mentiras e temor. Onde está o seu lado bom?"
Patrascanu defendeu "a lógica da doutrina do Partido". Respondi que as doutrinas, como tais, nada significam. "O senhor pode cometer atrocidades dando-lhes nomes bonitos. Hitler falava de uma luta pró Lebensraum (espaço vital) e trucidou populações inteiras. Stalin disse:” Precisamos cuidar das pessoas como flores “, e matou a esposa, a dele e a sua".
Patrascanu parecia incomodado, mas foi franco. "Nosso propósito de longo alcance é comunizar o mundo. Poucos há que querem percorrer todo esse caminho conosco, mas é-nos sempre possível achar alguns que se dispõem, levados por suas razões particulares, a caminhar conosco por certo tempo. Primeiro tivemos as classes dominantes da Romênia e o rei, que apoiaram os Aliados contra os nazistas. Quando eles acabaram de servir aos nossos propósitos, nós os destruímos. Conquistamos a igreja ortodoxa com promessas, depois nos servimos das seitas menores para miná-la. Utilizamo-nos dos fazendeiros contra os donos de terras e posteriormente os camponeses pobres contra os fazendeiros ricos; e agora todos serão coletivizados. Eram estas as idéias táticas de Lênin, e funcionam!".
Disse-lhe eu: "Ninguém ignora que todos os seus companheiros de jornada foram encarcerados, executados ou de alguma forma destruídos no passado. Como podem os senhores esperar que continuarão utilizando-se de pessoas e jogando-as fora depois?”.
Patrascanu riu. "Porque são estúpidas. Aqui está um exemplo. Dez anos depois da Primeira Guerra Mundial, o Grande pensador Bolchevique Bukharin opôs-se aos planos de Trotsky de fazer a revolução mundial pelas armas. Argumentava ser melhor esperar até que os países capitalistas começassem a brigar uns com os outros. A Rússia podia então aderir ao lado vencedor e arrebatar a parte do leão dos países vencidos. Era uma profecia notável - mas ninguém a levou a sério. Se o Ocidente tivesse sabido que metade da Europa e dois terços da Ásia se tornariam comunistas como resultado disso, a última guerra jamais teria sido feita. Felizmente nossos inimigos não escutam nossos argumentos nem lêem nossos livros, por isso podemos falar abertamente".
Chamei-lhe a atenção para uma falha no seu argumento: "Não vê, Sr. Patrascanu, que assim como os senhores utilizam as pessoas e depois as lançam para um lado, de igual modo os seus camaradas o têm usado e lançado fora? Não enxerga o senhor a lógica maligna da doutrina de Lênin?"
Desta vez a amargura de Patrascanu se pôs à mostra. Disse: "Quando Danton foi levado à guilhotina e viu Robespierre a observá-lo de uma sacada, bradou-lhe: Você virá depois! -Asseguro-lhe agora que esses virão depois de mim - Ana Pauker, Georgescu e Luca, por igual".
E assim aconteceu, dentro de três anos. Naquela noite não falamos mais, contudo, às 22 horas, quando já tínhamos ido para a cama, a porta abriu-se e meu novo nome foi chamado. Três homens estavam do lado de fora. Um deles, a quem depois conheci como Appel, mandou que me vestisse. Obedeci, e Patrascanu cochichou-me que vestisse o casacão também. Serviria para abrandar as pancadas. Uma espécie de óculos pretos, de proteção, foram-me postos nos olhos para que eu não visse para onde me levavam. Fui conduzido através de um longo corredor a uma sala onde me fizeram sentar numa cadeira. Tiraram-me as vendas dos olhos.
Estava diante de uma mesa, tendo à frente de meus olhos uma luz viva e desagradável. A princípio via somente uma figura indistinta, do lado oposto, mas adaptando-se minha vista àquele brilho, reconheci um homem chamado Moravetz. Ex-inspetor de polícia, que sofrera um contratempo por revelar segredos aos comunistas, tinha sido agora recompensado com a função de inquiridor.
"Ah", disse ele, "Vasile Georgescu. Você tem papel e caneta naquela cadeira. Leve sua cadeira e descreva suas atividades e sua vida". Perguntei o que lhe interessava de modo particular.
Moravetz franziu sarcasticamente a sobrancelha, "Como padre, você tem ouvido algumas confissões. Trouxemo-lo aqui para que nos relate isso".
Escrevi um esboço de minha vida até ao tempo de minha conversão. Depois, julgando que essa declaração chegaria ao conhecimento dos líderes do Partido e produziria algum efeito, expliquei minuciosamente como sendo ateu, como eles, tive os olhos abertos para a verdade. Escrevi durante uma hora ou mais, quando Moravetz me tomou o papel, dizendo. "Por hoje basta". Fui levado de volta à minha cela, encontrando Patrascanu a dormir. Alguns dias se passaram novamente sem que me inquietassem. Os comunistas invertem os métodos normais da polícia, que consistem em fazer o prisioneiro falar enquanto se acha sob o choque da captura. Preferem deixá-lo "amadurecer". O inquiridor não diz nunca o que quer; apenas aborda sua presa dando-lhe esta ou aquela direção, insinuantemente, de modo a provocar ansiedade e sentimento de culpa. Enquanto a pessoa dá tratos à bola para descobrir o motivo de sua prisão, aumentam-lhe o nervosismo com outros ardis: um julgamento constantemente adiado, a detonação das armas de um pelotão, gravada em "tape", gritos agudos de outros presos. Começa a fazer falsos juízos. Um lapso ou descuido conduz a outro, até que a exaustão o força a admitir sua culpa. O inquiridor passa a mostrar simpatia. Dá esperança ao preso de um paradeiro ao seu sofrimento, se ele admitir que merece o castigo e disser tudo. Assim foi que Appel voltou poucos dias depois, começando o primeiro de meus inumeráveis interrogatórios.
Desta vez fui levado a uma sala do subsolo, poucos degraus abaixo de minha cela, por Appel, que me deu uma cadeira, ofereceu-me um ‘toffeë' (doce de caramelo) que tirou de sua pasta, e instalou-se num sofá. Um dos seus colegas tomava notas. Mascando firme, Appel conferia itens de minha declaração e observou que o pensamento de uma pessoa era orientado pela classe a que pertencia. Não sendo eu de origem proletária, estava propenso a ter opiniões reacionárias. Eu tinha certeza de que Appel também não era proletário, e fiz ver que nenhum dos grandes pensadores do Partido foi "operário" naquele sentido.
Marx foi filho de um advogado, o pai de Engel foi proprietário e Lênin veio da nobreza. A classe, só por si, jamais ditou as convicções de ninguém. Appel interrompeu. "Quais eram suas relações com o Sr. Teodorescu"?
"Teodorescu?" perguntei. "Existem muitos com este nome. A quem o senhor se refere”?
Mas Appel não o disse. Pelo contrário, passou a discorrer sobre a Bíblia e as profecias de Isaías acerca da vinda do Messias. De vez em quando, sem avisar, mencionava os nomes de pessoas que haviam ajudado a distribuir meus livros com os soldados soviéticos, ou encaminhavam socorro vindo do Concílio Mundial de Igrejas. As setas vinham aparentemente ao acaso. Appel era sempre cortês e nunca insistia. Parecia mais interessado em minhas relações às perguntas súbitas do que em minhas respostas e, depois de outra hora, fui levado de volta à cela para pensar na significação daquilo.
Patrascanu procurava divertir-se às minhas custas, conversando a respeito dos planos do Partido para desarraigar o Cristianismo da Romênia. Já Ana Pauker, Georgescu e outros membros do Comitê Central haviam estado secretamente com Justiniano, decidindo que este serviria bem aos propósitos deles. "Justiniano", afirmou, "tem tanto a ver com Deus quanto eu com o Imperador do Japão. Relativamente ao velho Patriarca Nicodim, está caduco. Que respeito se pode ter a um homem que expediu encíclicas no começo da guerra, convocando todo o mundo a combater o dragão Bolchevique de sete cabeças, e depois, quando rompemos com Hitler, incitava o seu rebanho a marchar com o glorioso Exército Vermelho contra o monstro nazista? Foi o que ele fez, e o país inteiro sabe disto. São estes os príncipes da Igreja, e o resto não lhes fica atrás. Eles não ficarão com você muito tempo".
Respondi-lhe que se ele não saísse da prisão logo, como esperava, poderia entrar em contato com cristãos mais exemplares. "O Patriarca Nicodim é um bom homem", continuei, "mas está velho e cansado. Nem posso condenar o futuro Patriarca Justiniano e os outros que têm sido logrados, ou forçados a enveredar pelo caminho que o senhor tomou. É o mesmo que abusar alguém de uma jovem e depois chamá-la prostituta".
Pensei, com essa cutucada, alcançar meu objetivo, visto como Patrascanu era propenso a falar com gosto e rudeza sobre sexo. Aliás, procurei fazê-lo ver o que era o amor cristão. Estava muito absorvido pelos seus contratempos, a princípio, para ouvir muita coisa, mas era um homem estudioso, desapontado por nada ter para ler, e então discutia para se distrair. Sobre religião avançou ele, "Na escola estudei tudo isso. Costumava rezar, porém depois abandonei".
Inquiri por quê.
"O Jesus de vocês exige demais. Especialmente tratando-se da juventude".
Disse-lhe eu: "Nunca me apercebi que Jesus pedisse alguma coisa do homem. Quando meu filho Mihai era criança, certa vez, lhe dei dinheiro para que me comprasse um presente de aniversário. Assim, Jesus concede-nos as virtudes que parece pedir de nós, e nos faz pessoas de melhor caráter. Mas talvez o senhor não tivesse bons professores de religião".
- É provável. Não são muito comuns. Patrascanu ergueu-se e bocejou. "Além do mais, há muita coisa intragável no Cristianismo".
- Dê um exemplo.
- A humildade, e em especial a submissão à tirania. Veja a epístola de S. Paulo aos Romanos. Diz que toda autoridade vem de Deus, pelo que devemos comportar-nos bem, pagar com prontidão nossos impostos e não dar coices contra aguilhões; e isto num tempo em que Nero dominava o mundo!
Retorqui-lhe, "Leia de novo a Bíblia e o senhor a achará carregada de fogo de revolução. Começa com os escravos hebreus, revoltados contra Faraó. Prossegue com Samuel, Jaeljeú e muitos outros rebeldes à tirania. Antes de avançar, pergunte a si mesmo como foi que a autoridade aprovada por Deus chegou ao poder. De ordinário é isso resultado de uma sublevação de modo que submissão à autoridade significa submissão àqueles que fizeram com êxito uma revolução. Washington tornou-se autoridade por derrubar os ingleses".
"Como Lênin desbancou os Czares", observou Patrascanu.
"Só para introduzir um regime pior de terror. Chegará um dia o homem que também há de dar cabo da tirania comunista, e instaurará um governo livre. Será essa autoridade procedente de Deus. Devemos submeter-nos a ele. O que essa passagem da Escritura ensina realmente não é submissão a tiranos, mas é evitarmos derramamento inútil de sangue em revoluções sem possibilidade alguma de vitória".
Patrascanu continuou, "Que diz sobre 'Dai a César o que é de César?' Com este axioma Jesus não estava com certeza insistindo na submissão dos judeus ao tirano de Roma?”
"O primeiro César foi um usurpador", disse eu, "até mesmo em Roma. Era um general que se fez ditador. Seus sucessores não tinham mais direitos na Palestina, que se tornara colônia romana à força, do que os russos têm aqui. Ironicamente, até Jesus poderia dizer: Dai a César o que lhe devemos; um pontapé no traseiro para expulsá-lo daqui!”. Patrascanu deu uma gargalhada. "Se todos os clérigos explicassem a Bíblia como você, não tardaria que a entendêssemos melhor", disse ele. Eu não tinha tal confiança. Uma noite pediu-me que lhe declarasse a fé cristã em poucas palavras. Recitei o Credo Niceno e depois disse, "Em troca, diga-me qual é de fato o credo comunista".
Patrascanu refletiu por um momento. "Nós comunistas cremos que dominaremos o mundo", disse isto e reclinou-se no seu colchão carunchento.
Na manhã seguinte foi levado da cela. Nunca mais o vi. Tínhamos tornado íntimos na semana que passamos juntos. Senti que fora tocado por muita coisa que eu lhe dissera, mas não estava nos seus planos admitir isso nem para si próprio. Anos depois vim a saber do que lhe aconteceu.
Meu inquiridor seguinte, um homenzinho chamado Vasilu, que gostava de falar pelo canto da boca, tinha uma lista de quesitos datilografados. O primeiro era o mais difícil: "Escreva os nomes de todas as pessoas que o senhor conhece, onde tem tido encontro com elas e quais têm sido suas relações com as mesmas". Havia muitos amigos a quem eu queria defender, mas se os omitisse e a polícia o soubesse, tornar-se-iam duas vezes suspeitos. Como eu hesitasse, Vasilu interveio de olhos fuzilantes, "Não se ponha a escolher. Eu disse 'todas' as pessoas".
Para começar escrevi os nomes dos meus paroquianos e auxiliares que conhecia. A lista ia já numa página ou duas. Acrescentei os membros comunistas do Parlamento e todos os companheiros de viagem e informantes que pude lembrar.
"Pergunta Número Dois", disse Vasilu. "Que tem o senhor feito contra o Estado”?
"De que me acusam?" indaguei.
Vasilu deu um murro na mesa, "O senhor sabe o que tem feito. Desembuche! Comece pelos seus contatos com o seu colega ortodoxo Padre Grigoriu, e o que pensa dele. Escreva logo e não pare!" Os clérigos eram sempre inquiridos uns a respeito de outros: os protestantes sobre padres ortodoxos, os católicos acerca de adventistas, e assim por diante, para a provocação de rivalidades sectárias. Qualquer coisa que se escrevesse podia ser usada como armadilha. Um preso recebia a ordem: “Assine com um apelido!: aqui é assim que se faz". Quando tinha feito várias declarações debaixo de nomes diferentes, pediam-lhe que denunciasse um amigo, com a advertência de que se recusasse a fazê-lo, a todo o mundo se diria ser ele um informante que já fizera relatos sob nomes falsos. Bastava essa ameaça para que muitos se tornassem verdadeiros informantes. Durante as prolongadas esperas em solidão, entre um e outro inquérito, preparavam-se novos quesitos, procurando o preso lembrar-se do que dissera antes e do que ocultara. Os inquiridores costumavam ir aos pares, com os quesitos escritos a máquina. Se acontecia de um sair, o outro não falava enquanto aquele não voltasse. Alguns deles, naqueles primeiros tempos, eram homens bastante decentes que tinham de viver fosse como fosse. Um deles, quando o seu companheiro saiu da sala, mostrou-me relatos feitos contra mim. Vários estavam assinados por pessoas de minha confiança, podendo eu imaginar a pressão que sobre elas tinha sido feita.
Eu estava ainda na primeira fase de um longo processo. A quantidade de prisioneiros era enorme e os inquiridores competentes, poucos porém, outros mais estavam sendo treinados todos os dias nos métodos soviéticos. Pelo menos tive tempo de preparar-me. Recebi novo alento quando um barbeiro, enquanto me barbeava, segredou-me que Sabina estava passando bem e levando adiante nosso trabalho. O alívio foi indescritível. Pensava que minha esposa tinha sido também presa e Mihai, meu filho, passasse fome ou estivesse dependendo da caridade de vizinhos. Agora estava pronto a me esmerar em tantos capítulos de minha biografia espiritual quantos quisessem os inquiridores. Sobre outros assuntos revelava o menos possível. O simples fato de um amigo ter visitado uma vez o Ocidente podia resultar na prisão de sua família e fazê-lo levar uma bárbara surra.
Os interrogatórios continuaram meses a fio. A pessoa tinha de convencer-se primeiro do seu crime para possibilitar deste modo os ideais comunistas serem implantados, e eles só criariam raízes quando o indivíduo se rendesse à crença de que estava inteiramente e para sempre em poder do Partido, entregando a este todos os retalhos do seu passado.
Dizia-se por aquela época na Romênia que a vida consistia em quatro "autos": a "autocrítica", que tinha de ser registrada com regularidade nos escritórios e fábricas; o "automóvel", que levava as pessoas à Polícia Secreta; a "autobiografia", que eram obrigadas a escrever; e a "autópsia". Sabendo que torturas me aguardavam, resolvi matar-me antes a trair os outros. Sobre isto não alimentava escrúpulos morais, porque a morte de um crente significa sua partida para junto de Cristo. Lá poderia eu dar-Lhe explicações e por certo ele me compreenderia. Se Sta. Úrsula foi canonizada por se matar, antes que perder a virgindade às mãos dos bárbaros que saquearam seu mosteiro, então o dever que eu tinha de proteger meus amigos era também mais importante do que a vida.
O problema era assegurar os meios do suicídio, antes que suspeitassem do meu intento. Guardas revistavam os presos e suas celas constantemente, à procura de instrumentos de morte: estilhaços de vidro, pedaços de corda, lâminas de barbear. Certa manhã, por ocasião da visita rotineira do médico, disse-lhe que não podia lembrar de todos os detalhes que os inquiridores precisavam porque já fazia semanas que não dormia. Prescreveu-me um comprimido à noite para dormir; um guarda, toda vez que eu o tomava, perscrutava minha boca para ver se o engolia. Mas o fato era que eu o prendia debaixo da língua e daí o retirava quando o guarda saía. Mas onde esconder minha presa? Não no copo, que estava sujeito a qualquer imprevisto. Não no meu colchão de palha que todos os dias era sacudido e dobrado. Havia o outro, que fora de Patrascanu, Ia abrindo nele alguns buracos, onde todos os dias ocultava um comprimido no meio da palha.
No fim do mês eu tinha trinta comprimidos. Era para mim um conforto, em face do receio de sucumbir debaixo de torturas. Tinha, porém, crises quando pensava em tomá-los. Estávamos no verão. Ouvia rumores familiares, que me vinham do mundo lá fora. Era uma jovem a cantar, o bonde que rangia nos trilhos virando na esquina, mães que chamavam os filhos, "Silviu, Emil, Matei!" Sementes plumosas eram trazidas pelo vento e caíam suavemente no piso cimentado de minha cela. Perguntava a Deus o que Ele estava fazendo. Por que estava eu sendo forçado a dar fim à vida que se tinha dedicado ao seu serviço? Olhando para cima, uma noite, pela estreita janela, vi a primeira estrela aparecer no céu escuro. Veio-me ao pensamento que Deus enviava aquela luz, a qual começara sua jornada aparentemente inútil fazia bilhões de anos, e agora atravessava as grades de minha cela para consolar-me.
Na manhã seguinte um guarda entrou e, sem dizer palavra, pôs o catre sobressalente ao ombro, com os meus compridos lá amealhados, e levou-o para outro detento. Fiquei transtornado a princípio. Depois ri, sentindo-me mais calmo do que semanas antes. Como Deus não queria o meu suicídio, iria dar-me forças para suportar o sofrimento que se avizinhava. A Polícia Secreta tinha sido paciente, disseram-me, mas agora chegava a vez de aparecerem resultados. O Coronel Dulgheru, o notável investigado nela, não falhava em conseguí-los. Sentou-se diante de sua carteira, imóvel e ameaçador, com as delicadas mãos estendidas para adiante. "O senhor tem estado a brincar conosco", disse-me.
Dulgheru, antes da guerra, tinha trabalhado na Embaixada soviética. Depois, sob os fascistas, foi internado e assim confraternizou com Gheorghiu Dej e outros prisioneiros comunistas. Notaram sua tenacidade, inteligência e crueldade. Pois aí estava, com poderes a ele confiados de vida e morte.
Imediatamente começou a inquirir-me acerca de um homem do Exército Vermelho que fora apanhado a contrabandear Bíblias para a Rússia. Até então os investigadores pareciam nada saber do meu trabalho entre os russos, mas apesar de o soldado detido não ter revelado o meu nome, descobriram que estivemos juntos. Agora, mais do que sempre, eu tinha de pesar cada palavra, porque na verdade eu balizara o homem em Bucareste e o alistara em nossa campanha.
Dulgheru era persistente nas perguntas. Pensava estar sentindo o faro de algo importante. Nas semanas seguintes fiquei extenuado por uma variedade de meios. As camas foram retiradas da cela e eu tinha muito mal uma hora para dormir por noite equilibrado numa cadeira. Duas vezes por minuto a fresta do espia dava na porta um estalido metálico, aparecendo nele o olho do guarda. Muitas vezes, quando cochilava, ele entrava e me despertava. No fim perdi toda a noção de tempo. Uma vez despertei e vi a porta da cela entreaberta. Uma música suave ouvia-se no corredor; ou era ilusão? Depois o som tornou-se desafinado, ouvindo-se soluços de mulher. Ela se pôs a gritar. Era minha esposa! Não, não! Por favor, não me espanquem mais. Mais não! Não agüento!”Ouviu-se um chicote a estalar na pele nua de alguém. O grito era de horrorizar. Cada músculo do meu corpo retesava-se em contrações de terror. Pouco a pouco a voz foi sumindo, em gemidos; mas agora foi a voz de um estranho. Extinguiu-se no silêncio. Eu fiquei desfalecido, trêmulo e banhado em suor. Depois vim a saber que aquilo era uma gravação em "tape", porém todo preso que a ouvia pensava que a vítima era sua esposa ou namorada.
Dulgheru era um refinado selvagem, segundo o modelo dos diplomatas soviéticos com os quais se misturara. "É com pesar que ordeno torturas", disse-me. Sendo todo-poderoso nas prisões, podia dispensar notas e testemunhas e muitas vezes foi sozinho à minha cela, à noite, para continuar o interrogatório. Uma dessas sessões críticas arrastou-se durante horas. Inquiriu-me sobre meus contatos com a Missão da Igreja da Inglaterra. Que tinha eu feito lá? Disse que fora visitar a Abadia de Westminster. Ele ficou mais exasperado.
"O senhor sabe", disse com rancor, "que posso ordenar sua execução agora mesmo, esta noite, como contra-revolucionário que o senhor é?” Respondi, "Coronel, a oportunidade é sua de fazer uma experiência. O senhor diz que pode mandar fuzilar-me. Sei que pode. Então ponha aqui a mão no meu peito. Se o coração estiver batendo rápido, como demonstração de que estou com medo, saiba que não existe um Deus e vida eterna alguma. Mas, se bate tranqüilamente, como a dizer 'vou para aquele a quem amo', então o senhor deve refletir. Há um Deus e uma vida eterna".
Dulgheru esbofeteou-me e logo lamentou sua falta de domínio próprio.
"O senhor é um tolo!", disse. "Não vê que está completamente à minha mercê e que o seu Salvador, ou seja, lá como o queira chamar, não vai abrir as portas de nenhuma prisão? O senhor não verá mais nunca a Abadia de Westminster".
Respondi, "O nome dele é Jesus Cristo, e se ele quiser poderá soltar-me e, além disso, far-me-á ver a Abadia de Westminster". Dulgheru olhou-me com ferocidade, como se lhe faltasse o fôlego. Depois berrou, "Está certo. Amanhã você enfrentará o camarada Brinzaru".
Por isso esperava eu. O Major Brinzaru, ajudante do coronel, tinha sob o seu cuidado uma sala onde se guardavam porretes, cassetetes e rebenques. Seus braços eram peludos quais os de um gorila. Outros investigadores usavam o seu nome para intimidar. O poeta contemporâneo russo Voznesensky escreve. "Nos dias presente de sofrimentos indizível, bem feliz com efeito é aquele que não tem coração", e Brinzaru era um felizardo neste sentido. Apresentou-me sua coleção de armas. "De qual você se agrada?" perguntou. "Gostamos de ser democratas aqui".
Exibiu a sua arma favorita, um cassetete comprido, de borracha preta. "Leia o rótulo". Estava lá, MADE IN U.S.A. (fabricado nos Estados Unidos da América).
"Nós espancamos", disse Brinzaru mostrando num sorriso os dentes amarelos, "mas os seus amigos americanos nos fornecem os instrumentos para isso". Depois me mandou de volta à minha cela para que eu pensasse.
Disse-me o guarda que Brinzaru trabalhara antes da guerra para um político proeminente, sendo tratado como um da família. Depois que os comunistas assumiram o poder, ocasião em que foi alçado às fileiras da Polícia Secreta, um jovem preso foi levado à sua presença para investigação. Era um filho do tal político, que procurava desencadear um movimento patriótico. Brinzaru disse-lhe, "Quando você era criança eu costumava sentá-lo nos meus joelhos!" A seguir torturou o rapaz e executou-o com suas próprias mãos.
Curioso: Brinzaru não me deu a surra com que me ameaçou. Em sua ronda noturna de inspeção, empurrou com um piparote a tampa da fresta do espia para me observar um pouco. "Ainda aí, Georgescu? Que faz Jesus esta noite?"
Respondi, "Está orando pelo senhor". Afastou-se sem nada mais dizer.
No dia seguinte voltou. Sob sua supervisão fizeram-me ficar de pé, de frente para uma parede com as mãos erguidas acima da cabeça, de modo a tocar nesta com as pontas dos dedos. "Conserve-o nesta posição", ordenou ao guarda antes de se afastar.
Afinal começavam as torturas. Não quero considerá-las como de muita importância, mas precisam ser referidas porque eram comuns em todas as prisões da Polícia Secreta. Primeiro fiquei de pé durante horas, muito depois de meus braços terem ficado dormentes, e minhas pernas começarem a tremer e depois inchar. Quando desmaiava e caía no chão, davam-me uma crosta de pão e um gole d'água e me punham de novo em pé. Um guarda rendia o outro. Alguns deles forçavam as vítimas a tomar posições ridículas ou obscenas, e isto prosseguia, com breves intervalos, durante dias e noites. À frente ficava a parede para onde olhar.
Pensava eu nas paredes referidas na Bíblia, e me recordava de uma passagem de Isaías, que me deixava triste: Deus dizia a Israel que os seus pecados levantavam um muro de separação entre Ele e o povo. As falhas do Cristianismo permitiram que o Comunismo triunfasse, e era essa a razão de eu ter uma parede pela frente. Depois me lembrava de uma frase dos Salmos. "Com o Senhor salto muralhas". Eu também podia saltar aquela parede para o mundo espiritual da comunhão com Deus. Pensava, outrossim, nos espias judeus que retornaram de Canaã relatando que as cidades eram grandes e muradas; mas como as muralhas de Jericó ruíram, assim a parede à minha frente podia ir abaixo pela vontade de Deus. Quando o sofrimento me esmagava, recitava para mim mesmo uma frase do Cântico dos Cânticos: "O meu amado é semelhante ao gamo, ou ao filho da gazela; eis que está detrás da nossa parede". Eu imaginava Jesus postado atrás de minha parede, dando-me forças. Lembrava-me que, enquanto Moisés, sobre o monte, tinha as mãos erguidas, o povo escolhido marchava para a vitória. Talvez nossos sofrimentos estivessem ajudando o povo de Deus também a ganhar sua batalha.
De quando em quando o Major Brinzaru olhava para dentro e perguntava se eu queria cooperar. Uma vez, estando eu no chão, ele bradou, "Levante-se! Decidimos afinal deixá-lo ir ver a Abadia de Westminster. Você parte agora".
"Ande!" mandou o guarda. Procurei calçar os sapatos, mas os meus pés estavam muito inchados. "Vamos! Depressa! Fique fazendo voltas! Vou observar de fora".
A cela media doze passos ao redor: quatro passos, uma parede; dois; a seguinte; a seguir quatro; depois dois. Eu arrastava os pés, com umas meias furadas. A fresta do espia dava um estalido. "Mais depressa!" bradava o guarda. Minha cabeça começava a rodopiar. "Mais depressa - ou quer levar uma surra?" Dava com a cabeça pelas paredes, o que me doía muito. O suor ardia-me nos olhos. Rodeava, rodeava e continuava rodeando. Clique! "Alto! Dê meia volta! Ande!" E lá me punha a rodear, a rodear na direção contrária. "Mais depressa!" Cambaleava, e me aprumava. "Continue o movimento!" Quando caía, o guarda investia com um porrete e me dava forte pancada num cotovelo, enquanto com esforço violento eu me erguia. O sofrimento era tão angustiante que eu caía outra vez. "Ponha-se de pé! Continue andando! É este o seu manejo!"
Quase todo mundo tinha de passar pelo manejo ou picadeiro de adestramento, como era conhecido. Só depois de horas é que nos davam um pouco d'água ou alguma coisa para comer. A sede extinguia a fome. Era até mais lancinante do que as furadas a punhal quente pelas nossas pernas acima. O pior de tudo era ter que andar de novo depois de nos darem alguns minutos de descanso, ou poucas horas à noite, quando entorpecidos jazíamos no chão. As juntas rígidas, os músculos quebrados e os pés lacerados não suportavam o peso do corpo. A gente agarrava-se às paredes, e os guardas a berrar ordens. Quando não podíamos mais suster-nos de pé, ficávamos agachados, de gatinhas.
Não sei quantos dias e noites passei no manejo. Punha-me a orar pelos guardas, enquanto me movimentava. Pensava no Cântico dos Cânticos, em que se diz que a Noiva de Cristo dançava em honra do seu noivo. Dizia a mim mesmo, "Mover-me-ei com tanta airosidade como se fosse isto uma dança de amor divino, para Jesus". Durante certo tempo me parecia isso mesmo. Se alguém quer fazer tudo quanto tem de fazer, então o que faz é o que quer; e as mais severas tribulações, sendo voluntárias, tornam-se mais suportáveis. Quando me punha a dar voltas, parecia como se tudo girasse ao redor de mim. Acabava por não distinguir uma parede da outra, ou uma parede da porta, assim como sob a influência do amor divino não distinguimos entre os bons e os maus, e a todos podemos abraçar.
Estava virtualmente sem dormir havia já um mês, quando o guarda me colocou nos olhos uma espécie de óculos enegrecidos e me conduziu a um gabinete para nova entrevista. Era uma sala espaçosa e mobiliada. Atrás de uma mesa, sentados, estavam três ou quatro vultos, aos quais só podia ver indistintamente devido à luz ofuscante dos refletores diante do meu rosto. De pé diante deles, com algemas nos pulsos, descalço, tinha sobre mim apenas uma camisa rota e suja. Repetiram perguntas já conhecidas. Dei-lhes as mesmas respostas. Dessa vez havia uma mulher entre os investigadores. Em dado momento ela disse em voz estridente: "Se não responde corretamente, mandaremos esticá-lo no cavalete". A máquina de suplício que por último se usou na Inglaterra para arrancar confissões, há 300 anos, acrescentara-se às armas de persuasão do Partido! Eu disse, "Na epístola aos Efésios, S. Paulo diz que devemos esforçar-nos por alcançar a medida da estatura de Cristo. Se os senhores me esticam no cavalete, estarão ajudando-me a atingir meu objetivo". A mulher bateu com força na mesa, ouvindo-se uma discussão atrás do brilho forte dos refletores. Algumas vezes uma pronta resposta servia para desviar um soco. Não fui posto no cavalete; em lugar disso retrocedemos à Inquisição, às bastonadas nas solas dos pés.
Fui levado à outra cela. Cobriram-me com um capuz. Mandaram-me ficar de cócoras e abraçar os joelhos. Meteram-me uma barra de metal entre os cotovelos e os joelhos, e depois fui içado a uma tripeça, girando e ficando de cabeça para baixo, amarrados os braços que se uniam ao corpo, com os pés para cima. Seguravam minha cabeça enquanto alguém me vergastava as solas dos pés. As bordoadas eram como explosões. Algumas me atingiram as coxas e a base do espinhaço. Tinha vertigem e recobrava os sentidos por me ensoparem com água fria. Cada vez diziam que, se eu dissesse apenas um dos nomes que eles queriam, aquilo ia parar. Quando me tiraram da haste de metal precisei ser carregado para a minha cela.
Cada vez que me levavam àquela sala punham-me os óculos escuros, que me impediam de saber a localização dela. Algumas vezes conservavam os óculos em mim enquanto era esbordoado. Quando vemos que o golpe vai ser descarregado, recebemo-lo sem surpresa. Mas de olhos vendados, sem saber onde vai ser desferido, o medo é duas vezes maior.
Passei por outras torturas. Brinzaru tinha um chicote de nylon. Depois de algumas chicotadas com ele eu ficava sem sentidos. Uma vez encostaram um punhal à minha garganta, enquanto Brinzaru insistia que eu falasse, se quisesse viver. Dois homens fizeram-me deitar; seguraram-me com força, sentindo eu as garras deles e o punhal a me rasgar a pele. Outra vez perdi os sentidos; quando voltei a mim meu peito estava coberto de sangue. Puseram-me água pela garganta por meio de um funil, até que o estômago ficou cheio de arrebentar; então os guardas deram pontapés e me pisotearam. Era deixado numa cela com dois rafeiros, cães de guarda adestrados a avançar, rosnando, ao mais leve movimento, sem morder. Colocavam perto um pedaço de pão, mas ninguém se atrevia a pegá-lo. Eventualmente descobríamos que os cães não iam atacar; mas muitas vezes nos atacavam, ferindo nosso rosto a dentadas. Também fui marcado com ferro em brasa.
No fim assinei, a meu respeito, todas as "confissões" que eles quiseram: que eu era adúltero e, ao mesmo tempo, homossexual; que vendera os sinos da igreja e embolsara o dinheiro (embora nossa igreja fosse uma casa de oração, e não tivesse sinos); que sob o disfarce de trabalhar para o Concílio Mundial de Igrejas eu fazia espionagem com o objetivo de derrubar o regime, e isso por meio de traição; que eu e outros, tempos antes, tínhamos nos infiltrado na organização do Partido sob falsos pretextos e revelado seus segredos. Brinzaru leu essas confissões e perguntou: "Onde estão os nomes das pessoas às quais você passou os segredos?"
Ficou satisfeito quando lhe dei uma porção de nomes e endereço. Certamente por isso eu iria ser gratificado e promovido. Poucos dias depois recebi outro açoite. Tinham feito verificação dos nomes. Eram de pessoas que tinham fugido para o Ocidente ou já haviam morrido. Mas na folga que me deram recobrei um pouco de forças.
Talvez a espera fosse a pior tortura: deitado a ouvir gritos e choro, e sabendo que numa hora qualquer chegaria minha vez. Deus porém me ajudou a nunca dizer uma palavra que prejudicasse outras pessoas. Perdia os sentidos facilmente e eles me queriam vivo. Cada preso podia ser uma fonte de informações, útil em algum futuro contratempo na sorte do Partido, não tendo importância quanto tempo eles passassem detidos. Um médico comparecia às sessões de tortura para tomar o pulso e verificar se a vítima estava prestes a escapar para o outro mundo, quando a Polícia Secreta ainda precisava dela. Era aquilo uma imagem do Inferno, onde o tormento não tem fim e ninguém morre.
Era difícil lembrar a Bíblia. Não obstante, procurava ter sempre em mente a possibilidade de Jesus ter vindo à terra na qualidade de rei, mas ao invés disso escolheu ser condenado como criminoso açoitado. Os açoites infligidos pelos romanos eram horríveis, e a cada golpe que eu recebia lembrava-me que Ele também sabia o que era aquele sofrimento, e então me regozijava por partilhar dele com Cristo.
A zombaria e as humilhações também excediam a capacidade de ser suportada. Mais de uma vez Jesus disse que seria açoitado, escarnecido e crucificado. Eu costumava pensar que os escarnios comparados com açoites e crucificação, eram nada. Mas isso foi antes de ver um homem forçado a abrir a boca, para que outros nela escarrassem e urinassem, enquanto os nossos torturadores riam e proferiam zombarias.
Não e fácil crer, mas assim como os agentes da Inquisição espanhola tinham como coisa sagrada queimar hereges; assim muitos homens do Partido criam haver justificação para o que fizessem. O Coronel Dulgheru parecia ser um deles. Costumava dizer: "E no interesse vital da sociedade que pessoas sejam maltratadas, no caso de esconderem informação necessária à proteção do povo". Muito depois, quando ele me viu reduzido a frangalhos, a chorar de fadiga nervosa, disse-me como se estivesse compadecido: "Por que você não cede? É uma coisa dessas de todo fútil. Você não passa de carne e vai acabar arruinado". Eu, porem, tinha prova do contrário: fosse apenas carne não teria resistido. O corpo,no entanto é só a residência temporária da alma. Os comunistas firmando-se no instinto de autoconservação pensavam que um homem faria qualquer coisa para evitar ser extinto. Enganavam-se. Os crentes, que criam no que disseram perante a igreja, sabiam que morrer não era o fim da vida, senão o seu cumprimento; não era extinção, e sim a promessa de eternidade.
Eu já passara sete meses na prisão de Calea Rahova. Era outubro e o inverno já havia chegado. Sofríamos, dessa vez, muito frio, assim como fome e maus-tratos, e ainda tínhamos pela frente meses de inverno. Contemplando pela janela a neve acompanhada de chuva a cair no pátio da prisão, eu tremia de frio, mas não estava desanimado. O que eu fizesse por Deus com paciente amor na prisão seria pouco, mas o bem, nesta vida, sempre se afigura pouco, comparado com o montante de males. Enquanto no Novo Testamento o mal é pintado como enorme animal de sete chifres, o Espírito Santo apresenta-se como uma pombinha a descer voando. É a pomba que vence a besta!
Certa noite apareceu-me um prato com saboroso ensopado de carne, e quatro fatias de pão. Antes que os comesse, o guarda voltou, fez-me juntar meus pertences e segui-lo a um lugar onde outros presos estavam enfileirados. Com o pensamento no meu ensopado, fui de caminhão para o Ministério do Interior. É um edifício esplêndido, que os turistas muito admiram, os quais não sabem ser ele construído sobre uma vasta prisão com um labirinto de corredores e centenas de indefesos internados.
Minha cela ficava em profundo subterrâneo. Uma lâmpada acesa no teto alumiava as paredes desguarnecidas, uma armação de cama com três tábuas e um colchão de palha. O ar entrava por um cano no alto da parede. Não havia um balde, por isso tinha sempre de esperar que o guarda me levasse à privada. Esta era a pior imposição que faziam a qualquer detento. Algumas vezes faziam que esperássemos durante horas, enquanto riam de nossas súplicas. Homens, e também mulheres, deixavam de comer e beber com receio de que isso lhes aumentasse a agonia. Eu mesmo comi no prato em que atendi depois a uma necessidade física, sem lavá-lo depois porque não havia água para isso.
O silêncio aí era praticamente completo, e de propósito. Nossos guardas usavam botinas de sola de feltro e podíamos ouvir as mãos deles à porta da cela antes que a chave entrasse na fechadura, De vez em quando se ouvia o som longínquo de um preso martelando firme a sua porta, ou berrando. A cela media somente três passos em cada direção, por isso quando me deitava tinha sobre mim a lâmpada, que ficava acesa a noite inteira. Como desse modo não podia dormir, orava. O mundo exterior deixara de existir. Todos os rumores que estava acostumado a ouvir; do vento e da chuva no pátio; botas com tachões de aço nas pedras do calçamento; uma voz de pessoa, tudo se fora. Meu coração parecia contrair-se, como querendo parar naquele silêncio de morte.
Conservaram-me no confinamento solitário dessa cela nos dois anos seguintes. Não tinha nada para ler nem material de escrita. Por companhia tinha apenas meus pensamentos. Não era, porém um homem meditativo, mas uma alma que raramente conhecera calma. Eu tinha o meu Deus. Mas havia realmente vivido para servi-lo, ou fora aquilo simplesmente uma profissão?
O povo espera que os pastores sejam modelos de sabedoria, pureza, amor e fidelidade. Isso eles nem sempre podem ser verdadeiramente, porque também são homens. Desta forma, com menor ou maior intensidade eles começam a desempenhar o seu papel. Com o correr dos anos dificilmente poderão dizer quanto do seu procedimento vai cumprindo aquilo que se deseja.
Lembrava-me do profundo comentário que Savonarola escreveu em torno do Salmo cinqüenta e um na prisão, com os ossos tão quebrados que só pôde assinar o papel de sua auto-acusação com a mão esquerda. Dizia ele haver duas espécies de cristãos: os que sinceramente crêem em Deus, e os que, com igual sinceridade, acreditam que crêem.
Podemos diferenciá-los uns dos outros por suas ações em momentos decisivos. Se um ladrão, planejando roubar uma casa rica, vê um estranho que pode ser um policial, recua. Se, reconsiderando, acaba arrombando a casa, prova com isso não ter crido que o tal homem fosse um agente da lei. Nossas crenças provam-se pelo que fazemos.
Cria eu em Deus? O teste chegara agora. Estava só. Não havia salário a ganhar, nem opiniões excelentes a considerar. Deus só me oferecia sofrimentos - continuaria eu a amá-lo?
Comecei a relembrar um dos meus livros favoritos, "The Pateric", que discorria sobre certos santos do quarto século, os quais organizaram mosteiros no deserto, quando a Igreja estava sendo perseguida. Tinha 400 páginas, mas na primeira vez que me veio às mãos não comi, bebi ou dormi enquanto não terminei a leitura. Os livros cristãos assemelham-se ao bom vinho - quanto mais velhos, melhores. Continha a seguinte passagem:
Um irmão perguntou ao seu superior: "Padre, que é o silêncio?" A resposta foi: "Meu filho, silêncio é você sentar-se sozinho em sua cela, na sabedoria e no temor de Deus, defendendo o coração das setas abrasadoras do pensamento. Silêncio como este faz nascer o bem. Oh, silêncio despreocupado, escada para o céu! Oh, silêncio, em que a gente só cuida das primeiras coisas, e só fala com Jesus Cristo! Quem guarda silêncio é quem canta: "Meu coração está pronto para louvar-Te, ó Deus!" Imaginava eu como se podia louvar a Deus com uma vida de silêncio. A princípio, orava muito para ser solto. Perguntava: "Disseste na Escritura que não é bom o homem estar só; por que pois me conservas sozinho?" Mas à medida que os dias e semanas passavam, o único que me visitava ainda era o guarda, que me levava fatias de pão preto e uma sopa aguada, mas não me dizia nunca uma palavra.
Sua chegada lembrava-me todos os dias o ditado: "Os deuses andam com sapatos macios". Noutros termos, os gregos acreditavam que ninguém percebia a aproximação de uma divindade. Talvez aquele silêncio me aproximasse de Deus. Também talvez fizesse de mim um melhor pastor, porque notara que os melhores pregadores foram homens que, como Jesus, guardavam um silêncio íntimo. Quando a boca se abre muito, mesmo para falar o bem, a alma perde o seu ardor, assim como uma sala perde seu calor por uma porta que se abra.
Pouco a pouco fui aprendendo que da árvore do silêncio pende o fruto da paz. Comecei a descobrir minha verdadeira personalidade, tendo certeza de que pertencia a Cristo. Achei que mesmo onde estava, meus pensamentos e sentimentos se voltavam para Deus, e que podia passar noite após noite em oração, em exercício espiritual e louvor. Sabia agora que não estivera cumprindo a minha aspiração, embora acreditasse que sim. Organizei uma rotina que procurei observar nos dois anos seguintes. Ficava de vigília a noite inteira. Quando, às 22 horas, a campainha batia o sinal de silêncio, começava meu programa. Algumas vezes ficava triste, outras alegre, mas as noites não eram bastante longas para tudo quanto tinha a fazer.
Começava com uma oração em que lágrimas muitas vezes de agradecimento, raramente faltavam. As orações, como os sinais de radio, soam mais distintamente à noite: é então quando se ferem grandes batalhas espirituais. A seguir, pregava um sermão como o faria na igreja, começando com a frase "Amados irmãos", um sussurro que nenhum guarda pudesse ouvir, e terminando com "Amém". Por fim pregava a verdade completa. Não tinha que me importar com o que o bispo pensasse, a congregação dissesse ou os espiões relatassem. Não pregava ao vazio, Cada sermão era ouvido por Deus, seus anjos e santos; mas eu sentia que entre os que ao redor me ouviam, estavam os que me levaram a fé, membros do meu rebanho, tanto mortos como vivos, minha família e amigos. Eram eles a "nuvem de testemunhas" de que a Bíblia fala. Eu experimentava a "comunhão dos santos", referida no Credo.
Toda a noite falava à minha esposa e ao meu filho. Considerava tudo quanto neles era bonito e bom. Algumas vezes meus pensamentos alcançavam Sabina para lá das paredes do cárcere. Ela tem uma nota em sua Bíblia, escrita naquela época: "Hoje vi Richard. Estava deitada na cama, acordada, e ele se inclinou e me falou". Concentrara toda a minha força em transmitir-lhe uma mensagem de amor. Éramos ricamente recompensados em pensar um no outro por poucos minutos, todos os dias; apesar de tantos casamentos terem sido desfeitos pela prisão, o nosso permaneceu firme e se fortaleceu.
Pensar na família também me podia magoar. Sabia que Sabina fora muito pressionada para divorciar-se de mim. Se ela recusou e levava adiante o trabalho de sua igreja, era quase certo que acabariam prendendo-a. Depois Mihai, com apenas dez anos, seria deixando só. Virava o rosto para o colchão de palha e apertava-o com os braços, como se fosse o meu filho.
Uma vez levantei-me de um pulo, bati violentamente com os punhos na porta de aço, gritando:
"Restituam-me o meu menino!" Os guardas acorreram e me fizeram deitar, enquanto me aplicaram uma injeção que me tornou inconsciente durante horas. Quando voltei a mim, pensei que ia enlouquecer. Sabia de muitos a quem isso aconteceu.
Esse fato encorajou-me a pensar na mãe de Jesus, que ficou ao pé da cruz sem uma palavra de queixa. Não sei se teríamos razão em interpretar o seu silêncio como perfeito pesar: sentir-se-ia ela também orgulhosa porque o seu Filho dava a vida pêlos homens? À tardinha daquele dia, que era de Páscoa, ela deve ter cantado os louvores de Deus, seguindo o rito judaico. Também eu devia agradecer a Deus os sofrimentos pêlos quais meu filhinho pudesse estar passando. Por outro lado readquiri confiança: mesmo se Sabina desaparecesse, tínhamos amigos que sem dúvida cuidariam dele.
Um dos meus constantes exercícios espirituais era imaginar, como num quadro vivo mental, que eu entregava toda minha vida a Cristo: o passado, o presente e o futuro; minha família, minha igreja, meus arrebatamentos, meus secretos pensamentos; cada membro do meu corpo. Confessava meus pecados passados a Cristo sem reserva e via-o limpando-os com sua mão. Muitas vezes chorei.
Nos primeiros dias gastei muito tempo esquadrinhando minha alma. Foi um engano. Amor, bondade, beleza são criaturas tímidas, que se escondem quando sabem que estão sendo observadas. Sobre este ponto meu filho deu-me uma lição, quando tinha cinco anos. Eu o tinha reprovado, "Jesus tem um caderno grande; numa das páginas está o seu nome. Hoje de manhã Ele teve de escrever lá que você desobedeceu a sua mãe. Ontem você brigou com outro menino, dizendo que a culpa era dele; isso também foi escrito no caderno". Mihai disse, depois de refletir um minuto: "Papai, Jesus só escreve as coisas ruins que a gente faz, ou também as coisas boas?"
Meu filho estava tantas vezes no meu pensamento! Lembrava-me com prazer como ele me havia ensinado teologia. Quando li na epístola aos Coríntios: "Examinai-vos avós mesmos para ver se permaneceis na fé", ele perguntou: "Como vou examinar a mim mesmo?"
Respondi: "Bata com força no peito e indague: Coração, você ama a Deus?" Dei um murro no peito quando falei.
"Não está direito, não", atalhou Mihai. "Uma vez o homem que na estação bate nas rodas do trem com um martelo, deixou-me experimentar, e disse:” Você bata nelas de leve, no caso de estarem empenadas, não com força “. Assim também não tenho que dar uma pancada forte em mim para saber se amo a Jesus". Sabia eu agora que o silencioso "Sim" de meu coração, quando fazia a pergunta: "Você ama a Jesus?", era suficiente.
Cada noite passava uma hora, identificando-me com a mente dos meus principais adversários - o Coronel Dulgheru, por exemplo. Imaginando-me no seu lugar, achava milhares de desculpas para ele. Deste modo podia amá-lo e aos outros torturadores. Depois considerava minhas próprias faltas do ponto de vista dele, e alcançava nova compreensão de mim mesmo. É mais fácil consolar os outros do que a nós mesmos, assim como podemos ler com calma simpatia acerca das vítimas da guilhotina, mas ficamos chocados quando uma revolução nos ameaça. Assim agora, punha-me a inverter a época dos acontecimentos, pensando no presente como se ocorresse em tempos idos, e no passado como se acontecesse agora. Por esta forma pode-se até esperar ter um encontro com os outros de outrora.
Pensava no que faria se fosse um grande estadista, um multimilionário, o Imperador da China, o Papa. Sonhava no que seria a vida, se eu tivesse asas ou a capa da invisibilidade, e decidi ter encontrado por acaso uma definição do espírito humano como força invisível, alada, que pode transformar o mundo. Eram fantasias divertidas, mas que consumiam tempo. Um arquiteto atarefado não se põe a indagar o que poderia fazer com materiais inexistentes - pedras sem peso, vidro elástico. A meditação, como a arquitetura, deve ser construtiva. Tais digressões, porém, ajudavam-me a descobrir como é que entidades opostas podem unir-se na vida do espírito, compreendendo eu agora como Cristo pode encerrar tudo em si, ser o Leão de Judá e ao mesmo tempo o Cordeiro de Deus.
Não me faltavam divertimentos em minha cela vazia. Dizia gracejos a mim mesmo e inventava novos. Jogava xadrez, usando peças feitas de pão: as Pretas vs. as Menos-pretas de cal das paredes. Podia divertir minha mente de sorte que uma Preta não sabia do próximo movimento de uma Menos-preta, e vice-versa, e desde que não perdi uma partida em dois anos, achava que podia reivindicar o título de campeão.
Verifiquei que a alegria pode ser adquirida como hábito, da mesma forma como uma folha enrolada de papel quando se abre e depois é solta, volta naturalmente a ficar enrolada. "Regozijai-vos", é uma ordem de Deus. João Wesley costumava dizer que "nunca se entristecia, nem mesmo por um quarto de hora". Não posso dizer a mesma coisa de mim, mas aprendi a regozijar-me nas piores condições.
Os comunistas crêem que da satisfação material vem felicidade, mas na minha cela, sozinho, com frio, fome, andrajoso, dançava de alegria todas as noites. A ideia me veio com as lembranças da meninice, de ter observado dervixes a dançar. Houvera-me comovido, além do entendimento, pelo êxtase deles, a grave beleza daqueles monges muçulmanos, a graça dos seus movimentos, a rodopiar, enquanto proferiam o nome com que expressam a pessoa de Deus, "Alá!" Depois aprendi que muitos outros - judeus, pentecostais, primitivos cristãos, pessoas da Bíblia como Davi e Miriã, meninos acólitos da catedral de Sevilha na comemoração da Páscoa, mesmo hoje, também dançaram e dançam para Deus.
As palavras só por si nunca puderam expressar o que o homem sente na presença da divindade. Algumas vezes eu ficava tão cheio de gozo que me parecia prestes a arrebentar se não lhe desse expressão. Lembrava-me das palavras de Jesus: "Bem-aventurados sereis vós quando os homens vos odiarem e vos expulsarem de sua companhia, e vos vituperarem e de vós falarem mal por causa do Filho do homem. Regozijai-vos e exultai!" Eu dizia a mim mesmo: "Só a metade deste mandamento é que tenho cumprido. Tenho-me regozijado, o que não basta. Jesus diz claramente que também devemos pular (exultar)".
Quando a seguir o guarda perscrutou pela fenda da espionagem, viu-me a pular em volta da cela. As ordens deviam ser que procurasse cuidar de quem desse sinal de prostração, porque ele saiu às pressas e voltou com algum alimento da sala da administração: um pedaço grande de pão, algum queijo e açúcar. Recebendo-os, lembrei-me como a passagem em S. Lucas continuava, dizendo: "Alegrai-vos nesse dia e pulai de gozo -porque é grande o vosso galardão". Era um enorme pedaço de pão: mais do que a ração de uma semana.
Raramente deixei passar uma noite sem dançar, a partir desse dia. Embora nunca voltassem a me recompensar por isso, compus cânticos e os entoava baixinho, dançando com a minha própria música. Os guardas acabaram acostumando-se com aquilo. Eu não quebrava o silêncio e eles já tinham visto muitas coisas esquisitas naquelas celas subterrâneas. Amigos a quem mais adiante falei de dança na prisão, perguntaram: "Para que isso? Qual a sua utilidade?" Não se tratava de algo útil: Era uma manifestação de alegria, como a dança de Davi, um santo sacrifício oferecido no altar do Senhor. Não me importava se meus capturadores pensassem que eu estava maluco, visto haver descoberto uma beleza em Cristo que não conhecera antes.
Algumas vezes tinha visões. Um dia, quando dançava, pareceu-me ouvir chamar meu nome - não "Richard", mas outro nome, que não posso revelar. Sabia que tinha sido eu que fora chamado pelo meu novo nome e de súbito me veio à mente, não sei por que: "Este deve ser o Arcanjo Gabriel". E a cela encheu-se de luz. Não ouvi nada mais, porém compreendi que devia cooperar com Jesus e os santos na construção de uma ponte entre o bem e o mal, ponte de lágrimas, orações e sacrifícios pessoais que os pecadores atravessassem para se juntar aos bem-aventurados. Vi que nossa ponte tinha de ser tal que até os mais fracos em bondade pudessem usar Jesus prometeu que no Juízo Final os que tivessem alimentado os famintos e vestido os nus sentar-se-iam à sua mão direita, enquanto os malfeitores seriam lançados nas trevas exteriores. Hoje toda pessoa, com certeza, algumas vezes ajuda outros, e outras vezes deixa de fazê-lo: o corpo é um, mas o espírito, não. A Bíblia fala do homem "interior" e do "exterior"; do homem "novo" e do homem "velho"; do homem "natural" e do "espiritual". É o homem interior e espiritual que pode alcançar felicidade na vida eterna.
Vi que devia amar o homem como ele era, não como devia ser. Outra vez percebi grande multidão de anjos movendo-se calmamente através do escuro em direção da minha cama. Aproximando-se cantaram um cântico de amor, que Romeu poderia ter cantado para Julieta. Não podia crer que os guardas não ouvissem aquela música maravilhosa e arrebatadora, que para mim era muito real.
Prisioneiros que por muito tempo ficam solitários, não raro têm visões. Há explicações naturais para esses fenómenos que não os invalidam. A alma usa o corpo para os seus próprios desígnios. Essas visões ajudaram a sustentar minha vida: o que basta para provar não terem sido meras alucinações.
Certa noite ouvi pancadinhas na parede ao lado de minha cama. Novo prisioneiro tinha chegado à cela vizinha e estava dando-me sinal. Respondi, e com isso provoquei um frenesi de pancadas com renovado vigor. Dentro de pouco percebi que meu vizinho estava transmitindo um código simples: A - uma pancada; B - duas pancadas; C - três pancadas.
"Quem é você?" foi sua primeira mensagem.
"Um pastor", respondi.
Partindo desse começo cansativo, desenvolvemos um sistema novo: uma pancada indicava as cinco primeiras letras do alfabeto; duas pancadas, o segundo grupo de cinco; e assim por diante. De modo que B era uma pancada, seguida de uma pausa, depois mais duas pancadas; F eram duas pancadas seguidas depois de um intervalo por outra. Mas este código ainda não satisfez o meu novo vizinho. Ele conhecia o sistema de Morse e me transmitiu letra por letra, até que aprendi todas.
Disse-me por sinais o seu nome. "Deus o abençoe", respondi com esforço. "Você é cristão?"
Passou-se um minuto, "Não posso afirmar isso".
Era um técnico de rádio, como se revelou, que aguardava julgamento num processo de certa relevância. Tinha cinquenta e dois anos, era de saúde precária. Abandonara a fé poucos anos antes, casando-se com uma descrente. Estava em grande depressão física. Falava com ele através da parede todas as noites, tornando-me fluente no uso de Morse.
Não tardou que ele batesse: "Gostaria de confessar meus pecados.
Foi uma confissão interrompida com muitos silêncios: "Eu tinha sete anos... dei um pontapé num menino... porque ele era judeu... Ele me amaldiçoou... 'Que sua mãe... não o veja... quando ela estiver morrendo'... Mamãe estava morrendo... quando fui preso".
Quando o homem esvaziou o coração do fardo de tantas coisas, disse que se sentia mais feliz do que anos antes. Tornamo-nos amigos pelo sistema Morse, como outros se tornam amigos pela caneta. Ensinei-lhe versos da Bíblia. Dizíamos gracejos um ao outro e transmitíamos o movimento das peças em jogo de xadrez. Mandei-lhe mensagens acerca de Cristo, pregando em código. Quando o guarda me surpreendeu nisso um dia, fui transferido para outra cela, onde tive outro vizinho, com o qual comecei de novo. Com o tempo muitos aprenderam o código. Presos foram muitas vezes removidos, e mais de uma vez fui traído por informantes, de modo que passei a transmitir só versos bíblicos e palavras acerca de Cristo: não estava pronto a sofrer por argumentos políticos.
Homens eram forçados por confinamento solitário a mergulhar em fatos acontecidos e enterrados havia muito tempo. Traições e desonestidades de outras épocas voltaram á tona com inevitável persistência. Era como se entrassem na cela e fitassem as pessoas para censurá-las; Mãe, pai, meninas abandonadas havia tempo, amigos caluniados ou fraudados em direitos seus. Todas as confissões que ouvi em Morse começavam: "Quando eu era menino", "Quando estava na escola..." A memória de transgressões antigas lá estava como feroz cão de guarda diante do santuário da paz de Deus. Quando porém todas as outras portas de acesso ao céu se fecham para o homem, diz a Cabala que resta a bab hadimot, a porta das lágrimas, e era por essa que nós, prisioneiros, tínhamos de passar.
Certa manhã, quando um vizinho me transmitiu o aviso que aquele dia era Sexta-feira Santa, encontrei um prego no banheiro e com ele risquei a palavra JESUS na parede de minha cela, esperando que servisse de conforto aos que ali fossem parar depois de mim. O guarda ficou irado. "Você vai para a gaiola!", disse.
Fui levado por um corredor a um armário embutido em uma parede, alto para caber uma pessoa de pé, com vinte polegadas quadradas, dispondo de uns buraquinhos por onde o ar passava, e um outro por onde se metia o alimento. O guarda me jogou lá dentro e fechou a porta. Pontas agudas feriam minhas costas. Estremeci e inclinei-me para frente, quando outra porção de cravos me furaram o tórax. O pânico apoderou-se de mim, mas o esforço me sustinha de pé. Depois, movendo-me cautelosamente no escuro, tateei os lados - tudo estava coberto de pontas de aço. Só me mantendo rigidamente erguido podia evitar a empalação. Era isso a gaiola.
Minhas pernas começaram a doer. Passada uma hora todos os músculos pareciam chagas. Meus pés, doloridos do manejo, inchavam. Quando sucumbi, lacerando-me nas pontas agudas, fizeram-me sair para um descanso, depois do que me puseram lá de novo. Procurei pensar nos sofrimentos de Cristo, mas os meus eram fortíssimos. Depois me lembrei que meu filho Mihai, quando bem pequeno, certa vez perguntou-me: "Que vou fazer, papai? Estou enfadado". Respondi: "Pense em Deus, Mihai!" Ele atalhou: "Por que pensar nele? Minha cabeça é pequena: a dele é bem grande. Assim é Ele quem deve pensar em mim". Dizia então a mim mesmo: "Não experimente pensar em Deus. Deixe de pensar seja em que for". Naquela escuridão sufocante recordava-me que os iogues indianos extinguem da mente todo pensamento, repetindo uma fórmula sagrada muitas e muitas vezes. Este método é também usado pêlos monges do monte Atos, na interminável reza deles chamada "oração do coração", em que dizem uma palavra em cada pulsação do coração: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem misericórdia de mim!" Eu já sabia que Cristo era misericordioso, mas como costumava dizer à minha esposa todos os dias que a amava, assim pensava:
"Farei o mesmo com Jesus", comecei a dizer: "Jesus, querido noivo de minha alma, eu Te amo As pulsações silenciosas de um coração amoroso são uma música que vai longe, por isso repetia essa frase no mesmo ritmo. A princípio pareceu-me ouvir o sorriso escarninho do demónio: "Tu O amas, e Ele te deixa sofrer. Se Ele é onipotente, porque não te fez sair da gaiola?" Continuava eu a dizer silenciosamente: "Jesus, querido noivo de minha alma, eu Te amo". Em pouco tempo a significação daquelas palavras apagou-se e perdeu-se. Eu havia deixado de pensar.
Mais adiante tive muitas vezes de praticar esse abstraimento em momentos difíceis. Jesus diz no Evangelho segundo S, Mateus: "Porque na hora em que não penseis virá o Filho do homem". Tem sido esta a minha experiência com Ele. Deixe-se de pensar -e Cristo vira, de surpresa. Mas a claridade de Sua luz é difícil de suportar. Algumas vezes inverti o processo, fugindo do mesmo e voltando aos meus pensamentos.
Passei dois dias na gaiola. Alguns passaram uma semana ou mais, todavia o médico avisou que meu estado se tornara perigoso. Já estava entre a vida e a morte. Em consequência de meu confinamento prolongado e a falta de sol, alimentação e ar, meus cabelos deixaram de crescer. O barbeiro só espaçadamente me visitava. As unhas ficaram pálidas e amolecidas, como plantas conservadas no escuro.
Comecei a ter alucinações. Fitava meu corpo de estanho com água para convencer, em momentos de desespero, que não estava no Inferno, onde não há água - e então ele virava capacete. Via pratos deliciosos postos numa mesa que se estendia muito além da cela. De muito longe vinha minha esposa e se aproximava; trazia um prato com enorme pilha de salsichas fumegantes, mas eu rosnei para ela: "Isto é tudo? Como é pouco!" Outras vezes minha cela se expandia tornando-se biblioteca, com estantes e mais estantes de livros encadernados que subiam até desaparecer no escuro: novelas famosas, poesias, biografias, obras religiosas e científicas. Elevavam-se à minha frente. Outras vezes, milhares de rostos viravam-se ansiosamente para o meu lado: me via cercado de enormes multidões, esperando que eu falasse. Gritavam perguntas. Vozes respondiam. Ouviam-se aplausos e gritos em contrário. Um oceano de rostos estendia-se ao infinito.
Também me atormentavam sonhos de violência contra os que me haviam aprisionado, assim como fantasias eróticas. Este é um Inferno que não é facilmente entendido pêlos que não têm passado por ele. Eu tinha trinta e nove anos quando fui preso, gozava saúde e era vigoroso, e agora a recidiva da tuberculose despertava em mim um maior impulso genésico. Deitado e em vigília, ficava inflamado, vindo à mente mulheres e jovens, e depois apesar de procurar afugentá-las - sobrevinham-me visões de perversões e exagerações do ato do amor. Frustração e senso de pecado causavam-me um sofrimento horrível: algumas vezes agudo e causticante; outros, imprecisos, mas presente sempre.
Encontrei um meio de combater tais alucinações, tratando-as como intrusas hostis, tais como o vírus da tuberculose no meu corpo: longe de censurar-me pelas suas invasões, reivindicava as alucinações não como pecados mas como inimigas, pude planejar o meio de destruí-las. Maus pensamentos podem ser subjugados pelo raciocínio, se atentarmos calmamente nas suas consequências. Não procurava expulsá-las, sabendo que voltariam furtivamente por uma porta lateral; ao invés disso, deixava-as à vontade, enquanto ponderava quanto custaria na vida real se a elas me entregasse. Rendendo-me a tais tentações traria com certeza miséria a outras famílias e a mim próprio. Minha esposa teria que procurar divórcio. O futuro do meu filho ficaria arruinado. Meus paroquianos perderiam a fé. E depois, desprezado de todos, teria ainda que responder a Deus pêlos danos causados. Como os médicos empregam um vírus para combater outro, assim podemos empregar a máxima do diabo -"dividir para dominar" - e derrotá-lo. O demónio do orgulho - o medo de perder o bom conceito - pode ser dirigido contra o demónio da sensualidade. O demónio da avareza odeia os vícios que custam dinheiro!
Um dia, estando obstruídas nossas privadas, levaram-me ao banheiro dos guardas. Acima da pia, na parede, havia um espelho. Pela primeira vez, em dois anos, eu pude contemplar-me.
Era jovem e gozava saúde quando entrei para a penitenciária. Consideravam-me simpático, naquela época. Agora, vendo a que ponto chegara, ri de mim mesmo: riso triste, homérico. Tantos que me admiravam antes e me amavam, se pudessem ver agora o velho medonho que ali estava a me fitar, ficariam apavorados. Era uma lição para mim: o que é realmente belo em nós é invisível aos olhos físicos. Ainda ia ficar mais feio - um esqueleto e uma caveira - e, lembrando disso, minha fé e o desejo de me apegar à vida espiritual eram fortalecidos.
Vi no banheiro um pedaço de jornal, o primeiro em que peguei desde minha prisão. Estava lá a notícia de que o Primeiro Ministro Groza havia tomado a decisão firme de exterminar os ricos, o que achei engraçado - um governo inclinado a liquidar a riqueza, quando o resto do mundo envidava esforços por dar fim à pobreza. Procurei o nome de Patrascanu se por acaso tinha sido reconduzido à posição de antes, mas não o encontrei entre os Ministros, na Câmara onde Groza proferiu seu discurso.
Voltado escoltado à minha cela, ouvi a mulher chorando e gritando como louca. Seus berros estridentes pareciam vir de uma prisão em nível abaixo de nós. Chegaram tais gritos a paroxismos, depois foram de súbito silenciados.
Poucos dias depois novo prisioneiro foi posto na cela contígua à minha. Bati a mensagem: "Quem é você?" e recebi pronta resposta. Era lon Mihalache, que fora membro de vários governos de antes da guerra e colega do notável líder político luliu Maniu. Quando começou o terror do Partido, Mihalache aderiu a um grupo que tentou evadir-se. Foi preso no aeroporto e, em outubro de 1947, foi sentenciado à prisão perpétua. Tinha mais de sessenta anos. "Passei toda a minha vida lutando para ajudar meus patrícios, e esta é a recompensa", disse ele.
"Quando é de sua vontade tudo quanto acontece, então o que acontece é apenas o que o senhor quer", disse-lhe por sinais. "A renúncia é o caminho da paz".Ele retrucou-me, "Não há paz sem liberdade".
Continuei: "Num país onde reina a tirania... cadeia é lugar de honra".Disse-me que para ele Deus desaparecera.
Atalhei por sinais: "Deus nunca desaparece de ninguém... Nós é que somos os desaparecidos... Se nos encontramos a nós mesmos... achamos a divindade dentro de nós... A prisão pode ajudar-nos nessa busca". Respondeu que ia tentar outra vez.
Antes de Mihalache ser removido dois dias depois, disse-me que a mulher cujos gritos tínhamos ouvido era a esposa de um ex-Primeiro-Ministro, lon Gigurtu. A maneira como seus bramidos pararam mostrou que lhe deram injeção para fazê-la calar-se. Quando logo mais bati na parede, não houve resposta. Mihalache fora embora.
Logo depois disso recomeçou meu interrogatório. Passou a ser dirigido pelo Tenente Grecu, um jovem forte, inteligente e confiante em si mesmo, imbuído da crença de estar construindo um mundo melhor. Sua inquisição levou-nos a reconsiderar uma vez mais a obra de alívio à fome de que eu fora encarregado pela missão da igreja escandinava. Negaria eu ainda, perguntou-me, que o numerário recebido fora empregado na espionagem?
Respondi: "Posso compreender suas suspeitas de estarem os ingleses e americanos gastando dinheiro aqui em espionagem, mas que interesse podia ter a Noruega ou a Suécia em tais atividades?"
Ele me redarguiu: "Uma e outra são instrumentos de que se servem os imperialistas".
"Mas a Noruega tem fama de possuir espírito democrático, e a Suécia tem governo socialista já há quarenta anos".
"Tolice!" retorquiu-me. São fascistas como todas as outras".
Em nosso próximo encontro Grecu me disse haver refletido que eu podia ter razão.
Inquiriu a seguir sobre a distribuição do Evangelho em russo. Sugeri que um dos diretores da Sociedade Bíblica, de nome Emile Klein, podia tê-la promovido. Perguntou por que eu fizera repetidas visitas à cidade de lashi (um dos centros desse trabalho). Respondi que tinha um convite para sempre comparecer à residência do atual Patriarca.
Na manhã seguinte fui de novo chamado. Grecu estava na sua carteira, segurando um bastão de borracha.
"Sua conversa foi mentira", bradou. "Emile Klein morreu antes de você ser preso. Por isso foi que falou nele. Verificamos as datas de suas viagens a lashi - o Patriarca Justiniano dificilmente estaria lá".
Empurrou a cadeira para trás. "Basta! Aqui está papel. Sabemos que você se tem comunicado em código com outros presos, inclusive Mihalache. Agora precisamos saber com exatidão o que cada um deles disse. Queremos saber que outras infrações do regulamento da prisão você cometeu. E diga a verdade. Se não..."
Bateu na carteira com o bastão: "Tem meia hora para isso", disse e foi saindo da sala.
Sentei-me para escrever. A primeira palavra tinha de ser "Declaração". Tive dificuldade em começar: já fazia dois anos que não pegava em caneta. Admiti haver infringido regulamentos. Transmitia por sinais a mensagem do Evangelho para o outro lado das paredes. Amealhara comprimidos para me suicidar. Fizera uma faca de um pedaço de estanho, figuras de jogo de xadrez com pedaços de pão e cal da parede. Comunicara-me com outros presos, cujos nomes não sabia. (Não disse que ouvira confissões e até levara alguns à fé pelo sistema de Morse). Escrevi: "Nunca falei contra os comunistas. Sou discípulo de Cristo, que nos capacita amar os nosso inimigos. Compreendo-os e oro pela conversão deles, para que se tornem meus irmãos na Fé. Não posso declarar nada do que outros me transmitiram por sinais, porque um ministro de Deus jamais pode ser testemunha em processos judiciais. Minha profissão é defender, e não acusar".
Grecu voltou no tempo marcado, brandindo o bastão. Estivera surrando presos.
Tomou minha "Declaração" e começou a lê-la. Logo depois colocou o bastão para um lado. Quando terminou a leitura, lançou-me um olhar perplexo. Disse: "Sr. Wurmbrand (nunca antes me tratara por "senhor") por que diz que me ama? Esse é um dos mandamentos do seu Cristianismo, que ninguém é capaz de cumprir. Eu não amaria alguém que me trancasse em prisão solitária durante anos, que me fizesse padecer fome e me surrasse".
Respondi: "Não é questão de guardar um mandamento. Quando me tornei cristão foi como se tivesse nascido de novo, com um novo caráter cheio de amor. Como somente água pode manar de uma fonte, assim só o amor pode brotar de um coração amoroso".
Durante duas horas conversamos sobre o Cristianismo e suas relações com as doutrinas marxistas, com as quais ele se criara. Grecu surpreendeu-se quando eu disse que a primeira obra de Marx foi um comentário ao Evangelho de S. João; nem sabia que Marx, no prefácio de sua obra "Capital" escreveu que o Cristianismo - especialmente em sua forma protestante - é "a religião ideal para a renovação das vidas estragadas pelo pecado". Uma vez que a minha tinha sido infelicitada pelo pecado - disse-lhe - eu apenas segui o conselho de Marx quando me tornei cristão protestante.
Depois desse encontro Grecu me chamava ao seu gabinete quase que todos os dias, quando conversávamos uma ou duas horas. Confirmou as citações que lhe fiz. Isto se tornou o pretexto de longas discussões em torno do Cristianismo, nas quais pus em relevo o seu primitivo espírito democrático e revolucionário.
Repetidas vezes me afirmou: "Fui criado ateu e nunca serei outra coisa". Observei-lhe: "Ateísmo é um termo sagrado para os cristãos. Nossos antepassados, quando lançados às feras por causa de sua fé eram chamados ateus por Nero e Calígula. De sorte que se alguém se diz ateu, respeite-o".
Grecu sorriu. Continuei: "Tenente, um dos ancestrais era rabino - isso no século dezessete. Seus biógrafos registram que certa vez ele encontrou um ateu e disse: "Invejo você, caro irmão! Sua vida espiritual deve ser muito mais pujante que a minha. Quando vejo alguém atribulado, digo quase sempre, 'Deus que o ajude', e passo adiante. Você não crê em Deus, por esta razão toma sobre si o fardo dos outros e ajuda a todos quantos encontra".
"Os cristãos não criticam o Partido pelo seu ateísmo, mas por produzir ateus de tipo errado. Há deles duas espécies: os quais dizem: "Não há Deus, portanto posso praticar todo o mal que quiser"; e aqueles que raciocinam: "Visto que não há Deus,preciso praticar todo o bem que Ele faria, caso existisse". O maior ateu desta segunda espécie foi Cristo. Quando ele via pessoas famintas, enfermas e aflita, não passava de largo, dizendo: "Deus que os ajude". Agia como se toda a responsabilidade dos outros pesasse sobre Ele. Por isso o povo perguntava: "Este homem é Deus? Ele faz as obras de Deus!" Foi assim que descobriram que Jesus era Deus. Tenente, se o senhor pode tornar-se esta espécie de ateu, amando e servindo a todos, os homens cedo descobrirão que o senhor se tornou um filho de Deus; e o senhor mesmo descobrirá em si a Divindade".
Estes argumentos podem chocar algumas pessoas. Mas S. Paulo nos diz que os missionários entre judeus devem ser judeus, entre os gregos devem ser gregos. Com o marxista Grecu tive de ser marxista e falar a linguagem que ele entendesse. As palavras atingiram-lhe o coração. Começou a pensar e a amar a Jesus. Duas semanas depois, no seu uniforme caqui, na gola os distintivos azuis da Polícia de Defesa, confessou-se a mim, vestindo eu a roupa esfarrapada e remendada da prisão. Tornamo-nos irmãos. Daí por diante ele destemidamente ajudou os prisioneiros quanto lhe era possível, enfrentando dificuldades e perigos. Continuou prestando serviço ao Partido, mas só de lábios, exteriormente. Um dia, porém, desapareceu, ninguém sabendo o que lhe acontecera. Fiz cautelosamente alguma investigação entre os guardas, pensando eles que tinha sido preso. Ocultar uma verdadeira conversão não é coisa fácil. Seu emprego desagradável. Deus olha para o coração e vê numa boa súplica a promessa de vida nova no futuro.
Durante meu segundo ano de detenção, uma dessas almas divididas foi em minha cela. Todo o tempo que esteve comigo suas mãos permaneceram algemadas nas costas. Tinha eu de lhe dar comida e fazer tudo para ele.
Dionisiu era um jovem escultor, cheio de ideias novas naquele mundo que só pedia bustos lisonjeadores de Stalin. Não tendo dinheiro com que comprasse alimento, assumiu um posto na Polícia Secreta que o obrigava a surrar prisioneiros, mas ao mesmo tempo corria grande risco por adverti-los contra informantes. Quando viu que dele suspeitavam, decidiu fugir do país. Depois, estando perto da liberdade, foi compelido por algum impulso íntimo a voltar e entregar-se. Tais personalidades partidas encontram-se por toda parte sob o Comunismo. Dionisiu levou a vida inteira a ser empurrado em duas direções.
Durante dez noites inteiras ensinei-lhe a Bíblia. Seu senso de culpa desapareceu. Antes de ser removido de minha cela, disse: "Se um dos quinze padres de minha cidadezinha tivesse conversado comigo quando eu era mais moço, teria encontrado a Jesus há mais tempo".
Encontrei outros crentes ocultos trabalhando na Polícia Secreta, e alguns ainda desempenham seus deveres. Não se diga que um homem não pode torturar e ao mesmo tempo orar! Jesus fala-nos de um cobrador de impostos (ofício que na época não se exercia sem extorsão e brutalidade) o qual orou, suplicando misericórdia para si, pecador, e saiu para casa "justificado". O Evangelho não diz que aquele homem imediatamente abandonou o interrogatório não terminou com a partida do Tenente Grecu, porém Deus me concedeu o dom de esquecer os nomes de todos a quem poderia causar dificuldades. Embora enquanto preso compusesse mais de 300 poesias, num total de 100.000 palavras, e as lançasse ao papel quando fui solto, tornei-me inexpressivo, reticente durante o inquérito. Por esta causa tentaram novo ardil.
Sob o pretexto de que minha tuberculose se tinha agravado - e de fato eu tossia quase de contínuo - os médicos prescreveram-me nova droga, uma cápsula amarela que me fazia dormir muito e ter sonhos deleitáveis. Quando acordava, davam-me outra. Fiquei inconsciente por alguns dias, só despertando quando os guardas me levavam comida, que agora era leve e saudável.
Minha recordação do interrogatório reatado é confusa, indistinta. Sei que a droga não me faz trair meus amigos, porque quando adiante fui julgado, estive sozinho. Nenhum julgamento imponente dos homens da "rede de espionagem" do Concílio Mundial de Igrejas jamais ocorreu. Ministraram a droga ao Cardeal Mindszenty, a trotskystas e muitos outros. Ela debilitava o poder da vontade ao ponto de a vítima entrar num delírio de auto-acusação. Depois, eu passava a ouvir homens que, por seu turno, vinham bater ruidosamente na porta das celas, pedindo para ver o oficial político, afim de fazerem novas acusações contra si próprios. Aquele tratamento podia também produzir efeitos a longo prazo: homens que, meses antes, haviam tomado a droga, depois confessavam a mim pecados que nunca tinham tido oportunidade de cometer. Talvez a tuberculose em mim neutralizasse os efeitos dela. Ou talvez a dose que me ministravam era excessiva. Seja como for, pela graça de Deus, fui salvo de trair os outros.
Fiquei ainda mais fraco depois da droga, e um dia desfaleci por completo. Mas embora só pudesse levantar-me da cama com esforço extremo, minha mente ficou lúcida por algum tempo. Tinha até medo de sua lucidez.
Não é lendo que o grande Sto. António, Martinho Lutero e muitos outros homens de menor categoria viram o Demônio.
Eu mesmo o vi uma vez, quando menino. Sorriu para mim arreganhando os dentes. Esta é a primeira vez que refiro a isto, em meio século. Sozinho na cela, agora, senti outra vez sua presença. Estava escuro e fazia frio, e ele zombava de mim. A Bíblia fala de lugares "onde os sátiros dançam", e minha cela se fez um deles. Ouvia sua voz de dia e de noite: "Onde está Jesus? O teu Salvador não te pode salvar! Foste enganado e enganaste a outros. Ele não é o Messias - seguiste a quem não devias seguir!" Bradei em alta voz: "Então quem é o verdadeiro Messias que há de vir?" A resposta veio clara, mas por demais blasfema para ser aqui repetida. Eu tinha escrito livros e artigos provando que Cristo era o Messias, mas desta vez não pude pensar num só argumento. Os demônios que levaram Nyils Hauge, o grande evangelista norueguês, a vacilar em sua fé quando na prisão, eles que até fizeram João Batista duvidar, preso no cárcere, enfureceram-se contra mim. Eu estava desarmado. Minha alegria e serenidade tinham-se acabado. Antes havia sentido Cristo tão junto a mim, suavizando minhas amarguras, alumiando minha treva, mas agora exclamava: "Eloí, Eloí, lama sabactâni?", tendo a impressão de completo abandono.
Naqueles dias negros e horríveis, vagarosamente compus uma longa poesia que não pode ser facilmente aceita pêlos que não têm conhecido nenhum estado físico e espiritual igual ao meu. Foi a minha salvação. Por palavras, ritmo e exorcismo pude derrotar Satanás. Vai adiante uma versão sem rima e sem métrica, que apresenta o sentido exato do original romeno:
Desde menino frequentei templos e igrejas. Neles Deus era glorificado. Diferentes ministros cantavam e com zelo queimavam incenso. Afirmavam ser justo amar-te. Mas ao crescer vi tão profundos sofrimentos no mundo deste Deus que eu disse a mim mesmo: "Ele tem um coração de pedra. Se não fosse assim, Ele minoraria as dificuldades do caminho para nós". Crianças enfermas agitam-se febris nos hospitais: pais tristes oram por elas. O céu fica surdo. Pessoas a quem amamos vão pelo vale da morte, até mesmo se por elas prolongamos nossas súplicas. Homens inocentes são queimados vivos em fogueiras. E o céu queda-se em silêncio. Deixa que tais coisas aconteçam. Pode Deus estranhar-se, em voz baixa, até os crentes passem a duvidar? Famintos, torturados, perseguidos em seu próprio país, não têm resposta para tais perguntas. O Todo-Poderoso fica desacreditado pêlos horrores que nos assaltam.
Como posso amar o criador de micróbios e tigres que dilaceram os homens? Como posso amar aquele que tortura todos os seus servos porque um deles comeu do fruto de uma árvore? Mais triste que Jó, não tenho esposa, nem filho, nem pessoas que me confortem, e nesta prisão estou privado de sol e de ar, e o regime de vida é duro de suportar.
Da cama de tábuas em que me deito farão meu ataúde. Estirado nela, procuro descobrir por que meus pensamentos voam para ti, por que tudo quanto escrevo se dirige a ti. Qual a razão deste amor veemente em minha alma? Por que o meu cântico só tem a ti em mira? Sei bem que estou rejeitado; logo mais apodrecerei num túmulo.
A noiva dos Cantares de Salomão não amava ao inquirir se havia "razão de seres amado". O amor justifica-se a si mesmo. O amor não é para os sensatos, os que raciocinam. Pelo meio de mil provações ela, a noiva, não deixará de amar. Ainda que o fogo a consuma e as ondas a submerjam, ela beijará a mão que a fere. Se não encontra resposta para suas indagações, confia e espera. Um dia o sol brilhará nos lugares escuros e tudo terá sua explicação.
O perdão dos muitos pecados só fez que aumentassem o amor inflamado de Madalena. Ela, porém, deu perfume e derramou lágrimas antes que dissesses tua palavra de perdão. E ainda que não a disseras, mesmo assim ficaria sentada a chorar, tamanho era o amor que por ti nutria ainda que pecadora. Ela te amava antes que vertesse o teu sangue. Ela te amava antes que a perdoasse, tampouco te pergunto eu se é razoável amar-te. Não amo na esperança de salvação. Amar-te-ia mesmo que fosse em desventura eterna. Amar-te-ia mesmo dentro de fogo consumidor. Se recusares baixar até ao nível dos homens, ainda sereis meu sonho distante. Se recusares semear a tua Palavra, ainda te amaria sem ouvi-la. Se tiveres hesitado e fugido da crucificação, e eu não fosse salvo, ainda assim eu te amaria. Até mesmo se em ti eu descobrisse pecado, cobri-lo-ia com o meu amor.
Agora ousarei dizer palavras loucas, para que todos saibam quanto eu te amo. Ferirei agora cordas virgens, ainda não tocadas, e te magnificarei com música nova. Se os profetas houvessem predito outro, abandoná-los-ia, não a ti. Apresentassem eles milhares de provas, ficar-te-ia amando. Se adivinhasse que eras um enganador, oraria por ti com lágrimas, e embora não te pudesse acompanhar na falsidade, isso não diminuiria o meu amor. Por Saul, Samuel passou ávida em pranto e rigoroso jejum. Assim o meu amor resistiria, ainda que te soubera perdido. Se tu, e não Satanás, te houveras rebelado injustamente contra o Céu e perdido o encanto das asas, caindo como um arcanjo lá das alturas, em desesperança, ainda assim eu esperaria que o Pai te perdoasse e que um dia andarias com Ele outra vez pelas ruas áureas do Céu.
Se foras um mito, eu abandonaria a realidade e contigo viveria em sonho. Se viessem a provar que tu não existes, passaria a viver do meu amor. Meu amor é louco, sem motivo, como o teu também. Senhor Jesus procura achar felicidade aqui. Porque mais não te posso dar. Quando terminei este poema, não senti mais a proximidade de Satanás. Retirara-se. No silêncio, senti o ósculo de Cristo, e quem quer que seja beijado queda-se em silêncio. Voltaram a mim a tranquilidade e alegria.
SEGUNDA PARTE
Depois de quase três anos de confinamento solitários, cheguei às portas da morte. Tinha frequentemente lemoptises. O Coronel Dulgheru disse: "Não somos assassinos como os nazistas. Queremos que você viva - e sofra". Foi chamado um especialista. Querendo a todo custo evitar contágio, fez seu diagnóstico pela fresta do espia, na porta da cela. Vieram ordens sobre minha transferência para um hospital-presídio.
Fizeram-me subir das celas subterrâneas; no pátio do Ministério do Interior voltei a ver o luar e as estrelas. Deitado numa ambulância pude contemplar cenários conhecidos de Bucareste. Iam tomando a direção de minha casa e por um momento julguei que me levavam para lá, onde iria morrer. Quando já estávamos perto, a ambulância desviou-se e começou a subir a encosta de uma montanha, nos arredores da cidade. Vi então que nos dirigíamos a Vacaresti, um dos grandes mosteiros de Bucareste, o qual no decurso do último século foi transformado em presídio. A bela igreja e a capela paroquial agora eram armazéns. Muitas paredes, que separavam as celas dos monges, tinham sido derrubadas e agora havia salas espaçosas em que os prisioneiros viviam em grande número. Restavam poucas celas em que pessoas podiam ficar isoladas.
Enrolaram minha cabeça com um lençol antes de os guardas me retirarem da ambulância. Pegaram-me por baixo dos braços e assim fui ajudado a andar, atravessando o pátio, subindo algumas escadas e ao longo de uma sacada. Quando retiraram o lençol, vi-me sozinho em uma cela estreita e vazia. Ouvi um oficial dizer ao guarda, fora da varanda: "Ninguém tem permissão de ver este homem, exceto o médico, e mesmo assim você esteja presente". Minha existência ali tinha de permanecer em segredo.
O guarda, já meio grisalho, teve a curiosidade despertada por essa advertência. Quando o oficial se afastou, perguntou o que eu havia feito. Disse: "Sou um pastor e filho de Deus".
Inclinando-se para mim, sussurrou-me: "Louvado seja o Senhor! Eu sou um dos soldados de Jesus!" Era um membro secreto do "Exército do Senhor", movimento avivalista separado da igreja ortodoxa, o qual apesar de perseguido pelos comunistas e pelo clero, propagara-se rápido pelas vilas, arrebanhando centenas de milhares de adeptos.
O nome do guarda era Tachici. Trocamo-nos versículos da Bíblia e ele me ajudou o mais que pôde - guardas tinham sido sentenciados a doze anos de prisão pelo fato de darem uma maçã ou um cigarro a algum detento. Eu estava muito fraco para me levantar da cama, pelo que eram frequentes as dejeções nela. Em curto período, cada manhã, sentia lucidez mental, depois me agitava de um lado para outro e entrava em delírio. Dormia pouco. Havia, porém, uma janelinha pela qual pude voltar a contemplar o céu. Ao amanhecer era despertado por uns sons diferentes, que havia tanto não escutava: trinado dos pássaros!
Disse a Tachici: "Martinho Lutero, quando passeava pelos bosques, costumava tirar o chapéu para os passarinhos e dizer:
"Bom dia teólogos - vocês despertam e cantam, ao passo que eu, bobo velho, sei menos do que vocês e vivo preocupado com tudo, em vez de simplesmente confiar no cuidado do Pai celestial".
Da janela se via um canto do pátio coberto de relva, de ordinário desocupado. Algumas vezes médicos, de batas brancas, passavam apressados, sem sequer olhar de relance para cima. Tinham de praticar a medicina "no espírito da luta de classe".
Podia ouvir homens conversando, quando saíam para exercício. Em dias passados, algumas vezes tinha saudade do timbre da voz humana, mas agora me irritava. Nada valia o que diziam. Seus pensamentos pareciam triviais e falsos.
A voz de um ancião me veio da cela contígua, certa manhã. "Sou Leonte Filipescu. E quem é o senhor?"
Reconheci o nome de um dos primeiros socialistas da Roménia, indivíduo talentoso de quem o Partido se utilizara e depois abandonara: "Combata a sua doença", continuou, "Não ceda! Vamos ser libertados dentro de duas semanas".
"Como sabe?", perguntei. "Os americanos estão pondo os comunistas para trás, na Coreia. Estarão por aqui duas semanas mais".
Eu disse: "Mas ainda que não encontrem oposição, levarão por certo mais de quinze dias para chegar à Roménia".
"Asneira! Distância nada representa para eles. Têm jatos supersônicos!"
Não discuti. Os presos viviam de ilusões. Se acontecia a papa certa manhã ser um pouco mais grossa, aquilo queria dizer que um ultimato americano tinha amedrontado a Rússia, razão por que o tratamento que nos davam estava melhorando! Se alguém era derrubado no chão com o soco de um guarda, significava aquilo que os comunistas estavam aproveitando ao máximo o restante dos dias do seu predomínio. Os homens voltavam do pátio de exercício cheios de animação: "O Rei Miguel disse pelo rádio que estará de volta ao trono no mês vindouro".
Ninguém podia suportar o pensamento de ter de passar os próximos dez ou vinte anos preso. Filipescu ficou ainda mais convencido de uma soltura em breve quando foi removido, um mês depois, para outro hospital-presídio, onde nos iríamos encontrar outra vez. Para o seu lugar chegou um líder da Guarda de Ferro Fascista, Radu Mironovici, que se dizia fervoroso cristão, mas que sempre estava a extravasar o ódio aos judeus.
Pedi a Tachici que me ajudasse a levantar da cama e fui até onde estava Mironovici: "Quando você toma a Santa Comunhão em sua igreja ortodoxa, o pão e o vinho se transmudam no corpo e no sangue reais de Jesus Cristo?" Respondeu que sim.
"Jesus era judeu", disse-lhe. "Se o vinho se torna o seu sangue, então esse sangue é de judeu, não é mesmo?"
Relutantemente admitiu que sim. Prossegui: "Jesus diz que todo aquele que come o seu corpo e bebe o seu sangue terá vida eterna. Assim, pois, para ter vida eterna você precisa adicionar ao seu sangue ariano algumas gotas de sangue de judeu. Como é possível, então, odiar os judeus?"
Não teve resposta. Pedi que visse o absurdo de um seguidor de Jesus, que era judeu, odiar judeus - assim como era absurdo os comunistas serem anti-semitas, uma vez que acreditavam no judeu chamado Karl Marx. Mironovici dentre em pouco foi removido para uma cela distante, mas afirmou a Tachici: "Desmoronou-se uma parte de minha vida, que era falsa. Era um cristão que muito me orgulhava de seguir a Cristo".
Um dia em que minha temperatura era elevada e me sentia abatido, os guardas voltaram a mim. Enrolaram-me a cabeça com um lençol e me levaram por um corredor. Quando me descobriram a cabeça, vi-me numa sala grande, vazia, com janelas gradeadas. Quatro homens e uma mulher estavam sentados a uma mesa e me encararam. Ia ser julgado, e eles eram os meus juizes.
"Nomeou-se um advogado para defendê-lo", disse o presidente do tribunal. "Ele abriu mão do seu direito de chamar testemunhas. Pode sentar-se".
Guardas me fizeram ocupar uma cadeira, enquanto me davam injeção para me acalmar. Quando passaram as náuseas e a tontura, o promotor levantou-se. Disse que eu na Roménia defendia a mesma ideologia criminosa que Josef Broz Tito defendia na lugoslávia. Pensei que eu estivesse delirando. Ao tempo de meu aprisionamento o Marechal Tito era considerado um comunista modelo - não sabia eu que depois ele se tivesse revelado separatista e traidor. Continuou seu interminável discurso em torno do meu crime: trabalho de espionagem por intermédio das missões da igreja escandinava e do Concílio Mundial de Igrejas, propaganda de ideologia imperialista sob o disfarce de religião, infiltração no Partido sob o mesmo pretexto, sendo o meu real objetivo a destruição dele, e assim por diante. Enquanto ele continuava, senti que ia caindo da cadeira, fazendo eles uma pausa enquanto me aplicavam outra injeção.
O advogado da defesa fez o que pôde. Não foi muito. "Tem o senhor algo a dizer?" perguntou o presidente. Sua voz soava-me distante e a sala começou a escurecer. Uma coisa só me veio à cabeça aturdida.
"Eu amo a Deus", disse.
Ouvi minha sentença: vinte anos de trabalho forçado. O julgamento tomara dez minutos. Ao sair, envolveram-me outra vez a cabeça com o lençol.
Dois dias depois Tachici segredou-me: "Você vai embora. Deus o acompanhe!" Outro guarda veio após e, entre um e outro, fui conduzido ao portão principal. Um panorama de Bucareste estendia-se lá embaixo - a última vez que teria de vê-la nos seis anos seguintes. Os grilhões da praxe, pesando uns 23 quilos, foram postos a marteladas em volta dos meus tornozelos. Fui erguido para dentro de um caminhão, onde já estavam uns quarenta homens e poucas mulheres. Todos, até os doentes, estavam em grilhões. Perto de mim uma jovem começou a chorar. Procurei consolá-la.
"O senhor não se lembra de mim?" disse em soluços.
Olhei-a mais de perto, mas o seu rosto a ninguém me fazia lembrar.
"Eu pertencia à sua congregação". Depois que fui presa, a pobreza constrangeu-a a furtar - contou-me -e agora tinha sido sentenciada a três meses de prisão. "Tenho tanta vergonha". Suas palavras entrecortavam-se de soluços. "Eu estava na sua igreja, agora o senhor é um mártir e eu, uma ladra".
"Também sou pecador, salvo pela graça de Deus", atalhei. "Creia em Cristo e seus pecados lhe serão perdoados".
Ela beijou minha mão, prometendo que, ao ser libertada, faria minha família saber que me vira.
Num desvio de estrada de ferro passamos para um vagão especial, destinado a transporte de presos. As janelas eram pequeninas e foscas. Enquanto avançávamos ruidosa e vagarosamente através da planície na direção dos contrafortes dos montes Cárpatos, descobrimos que todos ali tínhamos tuberculose, sendo bem provável que nos levassem a Tirgul-Ocna, onde havia um sanatório sofrível para prisioneiros portadores daquela moléstia. Durante uns 400 anos indivíduos condenados tinham trabalhado nas jazidas locais de sal, e fazia trinta anos que um médico afamado, Romascanu, construíra o sanatório, doando-o ao Estado. Tivera boa celebridade antes que os comunistas dele tomassem conta.
Depois de uma viagem de 200 milhas, que tomou um dia e uma noite, chegamos à estação de Tirgul-Ocna, cidade de 30.000 habitantes. Com seis outros homens incapacitados de andar, fui posto numa carroça. Os demais foram arrastados, sob as vistas dos guardas, para um enorme edifício no perímetro da cidade. Quando era introduzido nele, vi um rosto conhecido. Era o Dr. Aldeã, ex-fascista, que se converteu e se tornou nosso amigo chegado. Depois que me ajudou a subir para um leito na sala de isolamento, ele me examinou.
"Também sou prisioneiro aqui", disse-me, "mas me deixam trabalhar como médico. Não há enfermeiras; há apenas um médico. De sorte que temos de cuidar uns dos outros da melhor maneira possível".
Tomou minha temperatura e fez seu diagnóstico.
"Não quero enganá-lo", disse. "Não há mais o que fazer no seu caso. O senhor pode ter ainda duas semanas de vida. Procura comer o que lhe derem, embora não seja do bom. Do contrário..." Bateu no meu ombro e saiu.
Nos dias seguintes dois homens morreram, dos que tinham ido de carroça lá da estação. Ouvi outro daqueles, com voz rouca, a argumentar com Aldeã: "Juro, doutor, que estou melhor. Afebre
vai baixando, eu sei. Ouça, por favor! Hoje escarrei sangue só uma vez. Não deixe que me levem para a Sala 4!"
Perguntei ao homem que me levou um mingau muito ralo o que acontecia na Sala 4. Baixou o prato com cuidado e respondeu: "Para lá mando os que estão desenganados!"
Procurei tomar o mingau, mas não pude. Alguém me fez toma-lo com uma colher. Eu não podia firmá-la na mão. O Dr. Aldeã me disse: "Sinto muito, mas eles insistem. O senhor vai ter que ir para a Sala Quatro".
E assim reuni-me aos meus companheiros de carroça.
Eu já podia estar morto. Presos faziam o sinal da cruz ao passar pelo pé de meu leito. A maior parte do tempo estive em coma. Se gemia, outros me viravam de lado, ou me davam água.
O Dr. Aldeã pouco podia fazer. "Se ao menos tivéssemos algum medicamento moderno", dizia. A estreptomicina, nova descoberta americana, estava operando prodígios contra a tuberculose, segundo rumorejavam, mas o Partido, segundo suas normas decidira que tudo era propaganda ocidental.
Nos quinze dias que se seguiram, quatro dos que haviam entrado na sala comigo morreram. Algumas vezes eu não tinha certeza se estava vivo ou morto. À noite meu sono era intermitente, acordando com dores agônicas. Outros presos me viravam de lado, numa média de quarenta vezes, para que as dores abrandassem. Pus escorria de uma dúzia de feridas. Meu tórax estava intumescido e a espinha também estava afetada. Escarrava sangue constantemente.
Alma e corpo estavam prestes a quebrar os laços que os uniam. Encaminhava-me para as fronteiras do mundo físico.
Perguntei ao anjo que me guardava: "Que espécie de guardião és tu, que não podes afastar de mim este sofrimento, nem sequer os pensamentos que nada têm de cristão?" E num fuzilar de luz ofuscante, cuja duração pareceu ser a de um milésimo de segundo, vi um vulto com tantos braços quanto os de Crisna, e ouvi sua voz: "Não posso fazer tudo quanto devo por você. Também sou um convertido".
Naquela época não conhecia a Bíblia nem dogmas. Minha mente não trabalhava, pelo que não podia julgar o valor objetivo daquela visão. Vinha-me uma vaga lembrança de que os místicos ortodoxos falavam de casos isolados em que anjos negros foram levados de volta ao serviço de Deus. Entretanto a conversão não podia mudar completamente o caráter dos que tinham sido muito maus, mesmo que o arrependimento tivesse sido profundo. Em qualquer caso, naquelas circunstâncias, a visão que me apresentava alguma explicação de coisas que me aconteciam ajudou-me bastante.
Sobrevivi à primeira crise. O olhar de piedade do Dr. Aldeã começou a mudar e ficar algo perplexo, à medida que eu me agarrava à vida. Não tomei remédio algum, mas durante uma hora, de manhã, a febre baixava um pouco e minha mente ficava mais clara. Comecei a olhar à volta e a ficar atento às coisas ao meu redor.
A sala tinha doze leitos, juntos uns dos outros, e algumas mesinhas. As janelas mantinham-se abertas, podendo eu ver homens a trabalhar num canteiro de hortaliças, e mais além muros altos e arame farpado. Eu estava muito calmo. Não havia sinetas de despertar nem guardas aos brados - de fato, não havia guarda nenhum. Eles temiam contágio e se mantinham à distância dos pacientes tanto quanto possível. Sendo assim, Tirgul-Ocna era administrada de longe e por negligência e indiferença tornou-se uma das prisões de menos rigor. Raramente se providenciava ou se fazia alguma coisa por nós. As roupas, que usávamos, eram as que tínhamos quando fomos detidos, emendadas e remendadas no decorrer dos anos com qualquer coisa que se pudesse encontrar.
Comida era levada por criminosos comuns até à porta da secção política, e daí conduzida às celas. Os que podiam andar iam receber sua ração; os demais a recebiam na cama. Consistia em sopa aguada de repolho, algumas vezes de legume ou um caldo ralo de cevada ou milho.
Alguns presos, em boas condições físicas, cavavam terra à roda do edifício. Os outros ficavam deitados em seus leitos de tábuas e passavam as horas a prosar. Na sala Quatro, no entanto, era diferente a atmosfera. Porque ninguém saía vivo de lá. Era conhecida como a "Sala da Morte".
Muitos morreram, no decurso dos trinta meses que lá passei, sendo seus lugares ocupados por outros. Há, porém, uma circunstância notável. Ninguém morreu ateu. Fascistas, comunistas, santos, homicidas, ladrões, padres, ricos proprietários de terras e os mais pobres camponeses eram metidos todos juntos numa pequenina cela. Entretanto nenhum deles morria sem fazer suas pazes com Deus e o próximo.
Muitos deram entrada na Sala Quatro como incrédulos de firmes convicções. Via a incredulidade deles sempre se desmoronar em face da morte. Eu ouvira dizer: "Se um gato atravessa uma ponte, isso não quer dizer que ela seja sólida; mas se um trem passa por ela, então é porque é sólida mesmo". Assim, pois, se alguém se diz ateu enquanto com a esposa se senta a tomar chá e a comer bolo, isso não é prova nenhuma de ateísmo. Uma convicção para ser genuína deve sobreviver a enorme pressão, e isto é o que não acontece com o ateísmo.
O velho Filipescu costumava recitar trechos de Shakespeare, a quem os apreciava, ou nos contava histórias de sua vida, para matar o tempo. Durante cinquenta anos fora revolucionário. A primeira de suas muitas prisões por agitação política deu-se em 1907. Mas em 1948 a Polícia Secreta foi no seu encalço: "Sofri pelo Socialismo antes de vocês nascerem", disse-lhes. Retorquiram que nesse caso ele devia ter aderido aos comunistas e partilhado dos frutos da vitória.
"Fiz ver àqueles moços: 'O Socialismo é um corpo vivo de dois braços - a Democracia Social e o Comunismo revolucionário. Decepe-se um deles e o Socialismo ficará aleijado'. Eles riram".
Filipescu foi sentenciado a vinte anos. Um guarda me disse: "O senhor vai morrer na prisão!" Respondi: "Não fui sentenciado à morte, por que então querem matar-me?"
Contou-nos que começara a vida como sapateiro, mas educara-se e aprendera a apreciar as coisas belas da vida. Aceitou os ensinos marxistas sobre a religião - que a igreja estava do lado dos opressores, que o clero era mantido pêlos ricos a fim de persuadir os pobres, que a recompensa deles receberiam no Céu.
Mas ninguém conhece as profundezas do seu próprio coração. Assim como tantos se julgam religiosos e não o são, assim alguns pensam que são ateus sem o serem. Filipescu negava a Deus, mas o que negava era apenas sua primitiva concepção dessa palavra, não as realidades do amor, da retidão e da eternidade.
Foi isso o que lhe sugeri.
"Creio em Jesus Cristo e O amo como o maior dos seres humanos", disse ele, "mas não posso pensar nele como Deus".
Sua condição piorava sem intermitências. Dentro de uma quinzena, após uma série de hemorragias, chegou ao fim. Pronunciou para mim, murmurando, suas últimas palavras: "Eu amo a Jesus". Naquela semana houve várias mortes, sendo ele jogado despido numa vala comum, cavada pelos presos.
O General Tobescu, ex-chefe do corpo degendarmes, disse de um canto em voz alta quando ouviu isso: "É esta a sorte que os socialistas ocidentais preparam para si, quando se fazem aliados dos comunistas".
O Abade Superior de Iscu, Tismânia, meu vizinho, benzeu-se. "Pelo menos podemos ser gratos por haver ele ido para Deus no final de tudo", disse calmamente.
O Sargento-mor Bucur discordou, do outro lado da sala. "Nada de sorte! Ele nos dizia que não podia pensar em Cristo como Deus".
Respondi: "Filipescu descobrirá a verdade, agora no outro mundo, porque amava a Jesus, que a ninguém rejeita. O salteador que no Gólgota se converteu e a quem Jesus prometeu o paraíso, chamou-o homem, apenas. Creio na Deidade de Jesus - e também no seu amor por aqueles que não podem vê-la".
Bucur não amava a ninguém, mas cultuava o seu conceito de Estado, ele próprio na qualidade de vice-rei da vila onde havia exercido sua justiça. Adorava contar a todo mundo como, sendo sargento da gendarmaria, tinha surrado ladrões e mendigos, espancado os próprios homens a seu serviço quando estes ousavam responder-lhe, e - especialmente, surrado judeus. "Não deixava marca nenhuma neles", dizia com orgulho. "Punha-lhes primeiro sacos de areia frouxa nas costas. Isso machucava e dói muito, mas eles não podiam queixar-se porque nada tinham a mostrar!"
Não podia entender por que fora deposto sob o novo regime. Estava pronto a dar sovas em anticomunistas com tanto gosto quanto outro qualquer no cumprimento do dever.
Conquanto muito doente, Bucur não queria admitir isso. Quando o Dr. Aldeã o examinava um dia, ele explodiu: "Por que estão me conservando aqui? Não tenho nada de doença. Não sou o que estes outros são!"
Aldeã olhou o termômetro, meneou a cabeça e disse: "Pelo contrário, você está muito pior que eles. Deve parar de discutir e pensar em sua alma!".
Bucur ficou irado: "Quem o senhor pensa que é?", exclamou depois que o médico saiu.
"Desconfio que Aldeã tem sangue de judeu", acrescentou - era a pior coisa que podia pensar de alguém.
Gostava de contender com Moisescu, um judeu baixinho, de meia-idade, cuja cama ficava junto à sua.
"A Guarda de Ferro sabia como tratar vocês", disse. "Você sabe", redarguiu Moisescu calmamente, "que fui preso na qualidade de membro da Guarda de Ferro?". O riso foi geral na sala, "Foi mesmo", protestou. "Após a Guarda de Ferro ter sido derrubada, era crime terrível possuir uma camisa verde, porque era considerada distintivo dela. Nós, judeus, perdemos tanto durante o seu domínio que cheguei a pensar: 'Eis uma oportunidade de voltar às nossas mãos alguma coisa do que perdemos. Vou comprar todas as camisas verdes que não foram vendidas, para tingi-las de azul e vendê-las'. Minha casa foi abarrotada de quantas camisas verdes havia em Bucareste. Foi quando a polícia apareceu para uma investigação. Não quiseram ouvir minhas explicações e assim fui classificado de Guarda de Ferro. E então aconteceu um judeus ser preso como simpatizante dos nazistas!"
Não obstante Bucur declara a plenos pulmões ser cristão militante, sua vida inteira foi uma luta com Deus. Ia à Igreja, mas não havia quem o orientasse. Os padres de sua aldeia não eram ministros de religião, senão mestres de cerimônias. Não podia compreender, agora, a razão de estar sofrendo e morrendo, nem qual a verdade que havia na fé.
Disse-lhe eu: "Você é de parecer, agora, que não há razão para esperança. Todavia o mais escuro da noite é o que se avizinha do nascer do sol. Os cristãos crêem que aurora vai raiar. A fé pode ser declarada em duas locuções:” ainda que o" e "mesmo assim". Lemos no Livro de Jó: "Ainda que o Senhor me mate, mesmo assim nele esperarei". Muitas vezes aparecem, correlacionadas na Bíblia, essas duas locuções. Ensinam-nos a ter fé nos momentos mais caliginosos".
Bucur sentia-se grato por alguém interessar-se no seu caso. Contudo não manifestava remorso algum pelas crueldades e maldades de outrora, até o dia em que viu que o Dr. Aldeã tivera razão. Sua vida declinava rápido. Disse com voz assustada: "Morro por meus pais".
Passou horas inconsciente. Voltando a si, declarou: "Quero confessar-me - diante de todos vocês. Tenho pecado tanto. Não posso morrer pensando nisso". Sua voz adquiriu uma calma estranha. Contou-nos como trucidara judeus em quantidade, agindo não para cumprir ordens, mas porque sabia que nunca seria castigado. Matara mulheres e um menino de doze anos. Tivera sede de sangue, como um tigre.
No fim de sua narração, murmurou: "Agora o Sr. Wurmbrand vai ter ódio de mim". Repliquei: "Não - você é quem odeia esta criatura que matava. Você a injuriou e repeliu de si. Não é mais aquele assassino. O homem pode nascer de novo".
Na manhã seguinte ele ainda vivia: "Não disse tudo ontem, tive medo", declarou-me. Atirara em crianças nos braços das mães. Quando a munição se acabava, esbordoava-as com cacete até morrerem. Sua história terrível parecia não ter fim, mas quando a deu por terminada caiu em prostração. Sua respiração era difícil e irregular. O peito arfava, como se lhe faltasse ar suficiente. Todos estávamos em silêncio. Suas mãos cerravam-se e se descerravam sobre o sujo lençol, e depois agarraram a pequena cruz que trazia ao pescoço. Da garganta vinha o ruído da agonia e logo após expirou.
Alguém chamou um preso no corredor. Dois homens entraram e levaram o corpo de Bucur. O sol matinal penetrou pelas janelas, alumiando-lhe o rosto, mas agora que os olhos estavam fechados e os traços rígidos da boca se haviam relaxado, sua feição cadavérica tinha uma expressão de profunda paz, que nunca na vida ele houvera conhecido.
Presos de outras salas do hospital vinham muitas vezes à Sala Quatro a fim de passar a noite conosco, prestando auxílio aos moribundos e os confortando.
Pela Páscoa um amigo levou alguma coisa enrolada num pedaço de papel para Valeriu Gafencu, um ex-soldado de cavalaria da Guarda de Ferro, Ambos procediam da mesma cidade. "Trouxe isto escondido", disse. "Abra!”
"Gafencu desembrulhou. Eram dois torrões de uma substância alvíssima açúcar! Já fazia anos que nenhum de nós via pedaços de açúcar. Nossos corpos depauperados ansiavam por aquilo. Todos os olhares caíram em Gafencu e na presa que ele sustinha nas mãos. Devagar embrulhou de novo.
"Ainda não vou comê-lo", disse. "Alguém pode estar em piores condições do que eu durante o dia. Mas, agradeço-lhe".Colocou o presente com cuidado ao lado da cama, onde ficou. Poucos dias depois minha febre subiu, enfraquecendo-me muito. O açúcar foi passado defuma cama para outra até que parou na minha.
"É um presente", disse Gafencu. Agradeci-lhe, mas deixei o açúcar intacto, para o caso de alguém precisar dele mais do que eu no dia seguinte. Quando minha crise serenou, dei-o a Soteris, o mais idoso de dois comunistas gregos, cujo estado era grave.
Durante dois anos o açúcar passou de mão em mão na Sala Quatro (e duas vezes esteve comigo); cada vez o paciente tinha forças de resistir a ele. Soteris e Glafkos eram guerrilheiros comunistas, que fugiram para a Roménia ao fim da guerra civil na Grécia. Foram detidos, como outros muitos dos seus camaradas, por serem maus combatentes. Agora não se cansavam de blasonar das suas proezas, antes que a maré da luta se voltasse contra eles. Assaltaram os famosos mosteiros do monte Atos, pilhando o que puderam levar e destruindo o que não levaram. Não se permitia a presença de mulheres no monte, e muitos dos 2.000 monges não as viam já fazia anos. "Levamos conosco um grupo de moças guerrilheiras", adiantou Soteris. "Vocês precisavam ver como aqueles marmanjos dispararam a correr!"
Soteris orgulhava-se do seu ateísmo, ao passo que pilheriava e tinha esperança de viver: mas à aproximação da morte, clamava a Deus por auxílio. Só a voz sumida do padre, a prometer-lhe o perdão celestial, podia sossegá-lo. Também ele, depois, encontrou grande força moral para renunciar aos dois pedaços de açúcar.
Seu corpo foi preparado para a sepultura por um preso de fora, que muitas vezes foi ajudar-nos. Era conhecido, respeitosamente, como "Professor", sendo Popp o seu nome. Raramente seu vulto de homem ilustrado, ombros baixos, aparecia desacompanhado de alguém que dele recebia lições de história, francês ou outra matéria.
Perguntei-lhe certa vez como conseguia haver-se sem material de escrita. Explicou: "Esfregamos um pedaço de sabão numa mesa e depois riscamos as palavras com a unha". Admirando-me de sua tenacidade, seus inocentes olhos azuis brilharam: "Eu costumava pensar que ensinava para viver. Na prisão aprendi que ensino porque amo os meus alunos!"
"O senhor tem vocação, como os padres dizem". "Bem, replicou, "aqui descobrimos o que valemos".
Ao perguntar-lhe se era cristão, pareceu embaraçado. "Pastor, tenho tido muitas decepções. Na minha última prisão em Ocnele-Mari, a igreja foi transformada em armazém. Pediram que alguém fosse derrubar a cruz da torre. Ninguém ligou. Por fim um padre voluntariamente atendeu ao pedido".
Disse-lhe que nem todos quantos recebem ordens sacras têm coração sacerdotal; nem todos quantos se têm chamado cristãos são discípulos de Cristo no verdadeiro sentido do termo. "O homem que vai ao barbeiro para barbear-se, ou encomenda roupa ao alfaiate não é discípulo dele, e sim freguês. Assim, quem se chega ao Salvador somente para ser salvo é cliente dele, não seu discípulo. Discípulo é aquele que diz a Cristo: "Como anseio realizar uma obra igual à tua! Ir de lugar em lugar expulsando o medo, e em substituição deixando alegria, verdade, consolo e vida eterna!"
Popp sorriu. "Mas que diz daqueles que se tornam discípulos na undécima hora? Tenho-me intrigado em ver tantos ateus convictos virarem crentes no fim".
Observei-lhe que nossas mentes não operam sempre no mesmo nível. "Um gênio pode conversar asneiras às vezes, ou brigar com a esposa, mas não é julgado por essas ações. Devemos respeitar nossas mentes, como à dele, quando operam no máximo de sua autenticidade - quando lutam por encontrar uma saída em momentos de crise suprema. Quando a mente se vê forçada a atravessar o desfiladeiro da morte é que a fachada de ateísmo quase sempre rui por terra".
"Como admitir que um homem qual o Sargento Bucur chegue a desejar com ardor confessar seus crimes de público?"
Respondi: "Já morei perto de uma estrada de ferro, mas nunca notei os trens durante o dia por causa do barulho da cidade. À noite, entretanto, ouvia bem distintamente os apitos. Assim é que a gritaria e alvoroço da vida podem fazer-nos surdos à voz mansa da consciência. Quando a morte se aproxima no silêncio da prisão, onde não há distrações, é que ouvimos a voz nunca antes ouvida".
O Abade interveio: "Na minha última prisão, em Aiud, havia um pobre homicida em confinamento solitário. Passava a noite a se levantar e bradar: Quem está na cela aí junto? Por que não para de bater na parede"."E parou?" indagou Popp. "Na cela junto não havia ninguém".
"Vou rematar com mais uma", disse Moisescu interrompendo. "No lugar em que por último estive, havia um Guarda de Ferro que tinha assassinado um rabino. Sentia e estava certo que o rabino montava nos ombros dele e lhe metia esporas nas ilhargas".
Não tendo forças para me banhar, o professor Popp tomou a si essa tarefa. Perguntei-lhe se havia chuveiros lá para os outros lados da prisão, onde ele estava. "Sim!" respondeu. "Na República Popular da Romênia temos as mais modernas instalações. Só que não funcionam! Os chuveiros não têm visto água já faz anos". Empertigou-se e continuou:
"O senhor já ouviu contar do comunista e do capitalista que morreram e se encontraram no Inferno? Viram eles lá dois porões. Em um estava o aviso "Inferno Capitalista" e no outro, "Inferno Comunista". Apesar de os dois homens serem de classes inimigas, começaram a raciocinar juntos para decidir qual dos infernos era o melhor. O comunista disse, "Camarada, entremos no departamento comunista. Lá, quando há carvão não há fósforos. Quando há fósforos não há carvão. E se acontece haver carvão e fósforos, a fornalha enguiça!"
O Professor continuou a banhar-me enquanto os outros riam. Aristar, que era fazendeiro, disse: "Os primeiros comunistas foram Adão e Eva".
"Por quê?", perguntou o obsequioso Popp. "Por que não tinham roupa nem casa e tiveram de dividir entre si uma maçã só - e ainda se julgavam no paraíso".
As piadas e histórias que contavam faziam-nos bem. Homens que passavam o dia inteiro deitados, só a pensar na sua miséria, tinham como obra de misericórdia alguém para ajudá-los a esquecer aquilo. Eu conversava muitas vezes durante horas a fio, embora doente e tonto de fome: uma história, como um pedaço de pão, podia segurar a vida de qualquer um. Quando Popp insistia comigo para que me poupasse, eu dizia que ainda sentia bastante disposição para mais uma anedota naquela manhã.
O Talmude conta-nos que um rabino passeava na rua, quando ouviu a voz do profeta Elias, a dizer: "apesar de você jejuar e orar, nunca mereceu o lugar elevado no Céu que está esperando por aqueles dois homens lá do outro lado da rua". O rabino correu para os forasteiros, perguntando-lhes: "Os senhores dão muito para os pobres?"
Eles riram: "Não, nós somos mendigos".
- Então os senhores oram continuamente, não é?
- Não. Somos ignorantes. Não sabemos orar.
- Digam-me então o que fazem.
- Dizemos gracejos. Fazemos pessoas rir, quando estão tristes.
Popp olhou com surpresa: "Está-nos dizendo que os que fazem os outros rir podem ter maior honra no Céu do que aqueles que jejuam?"
"É isto o que ensina o Talmude, que é um livro sapiencial judaico. Entretanto podemos também ler na Bíblia - no salmo dois - que Deus algumas vezes ri".
Popp observou, enquanto me ajudava a vestir roupa: "Ele aqui não acharia muito do que rir - mas onde Deus está, pastor, e por que não vem em nosso auxílio?"
Respondi: "Houve um pastor que foi chamado a ver um moribundo. Encontrou a mãe procurando consolar uma filha que chorava. A moça indagou: 'Onde está o braço protetor de Deus, a que o senhor se refere quando prega, pastor?” Replicou-lhe: "Está no seu ombro, sob a forma do braço de sua mamãe".
"Cristo está conosco de muitos modos na prisão. Primeiro, pode ser visto em nossos médicos crentes, que são castigados e maltratados, mas continuam ajudando-nos. Alguns funcionários médicos em Vacaresti também fizeram entrar lá remédios secretamente, e por isso ganharam dez anos de cadeia".
"Segundo, Cristo está aqui na pessoa dos padres e pastores que trabalham para suavizar a carga dos demais, e na pessoa de todos os cristãos que fornecem alimento, roupa e ajuda aos que estão em piores condições do que eles. Terceiro, Ele está conosco na pessoa dos que ensinam a seu respeito e também na dos que contam histórias. E o senhor tem Cristo ao seu lado não só através dos que lhe prestam serviço como também sob a forma daqueles a quem o senhor possa servir".
"Diz-nos Jesus que, no Juízo Final, Deus vai separar os bons dos maus, colocando-os à sua direita e à esquerda. Jesus dirá aos da direita:” Vinde, possuí o reino que vos está preparado desde da fundação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; era estrangeiro e me fostes ver; nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; estive na prisão e me procurastes “. Os bons perguntarão:” Senhor, quando foi que fizemos tudo isso?”Cristo responderá:” Quando o fizestes ao menor dos meus irmãos, a mim o fizestes .”
Gafencu passara toda a sua vida adulta na prisão, mas à semelhança de outros membros da Guarda de Ferro, conquistados a fé cristã, não podia fazer o bastante que compensasse os erros passados. Todos os dias ele dava o exemplo de pôr à parte um pouco de sua magra ração para ajudar na alimentação dos mais fracos do nosso meio. Seu anti-semitismo ficara para trás, e quando alguns dos seus velhos amigos fascistas iam visitá-lo na Sala Quatro, saía-se de repente com a observação que os escandalizava:
"Eu gostaria de ver o país governado unicamente por judeus".
Seus camaradas fitavam-no horrorizados. "Sim", continuava Gafencu calmamente. "O Primeiro Ministro, legisladores, funcionários públicos - todos. Só imporia uma condição. Que fossem eles homens como os antigos governantes judaicos, como José, Moisés, Daniel, S. Pedro, S. Paulo e Jesus mesmo. Porque se sobre nós tivermos outros judeus da marca de Ana Pauker, a Romênia estará liquidada".
Gafencu fora preso contando dezenove anos. Passou a sua mocidade sem nunca conhecer uma moça. Quando outros conversavam sobre sexo, perguntava: "Que é isso?" Contou-me um dia: "Meu pai foi deportado da Bessarábia pelos russos. Não tivemos nunca o bastante para comer. Eu era castigado na escola, depois fui posto na cadeia por fugir e alistar-me na Guarda de Ferro. Nunca estive com uma só pessoa boa, de confiança e amável. Dizia a mim mesmo:” O que se diz de Cristo não passa de lenda. Não existe hoje no mundo ninguém com ele parecido, e não acredito que já houve “. Mas passados que foram poucos meses na prisão, tive de admitir minha falta de razão. Estive com homens doentes que davam a outros sua última fatia de pão. Numa cela vivi com um bispo de tanta bondade, que tinha a impressão de que o contato da roupa dele podia curar". Gafencu passou um ano na Sala Quatro, e todo esse tempo não podia deitar-se de costas, o que o fazia sofrer muito. Precisava ser apoiado de contínuo. Cada dia que passava era menor sua capacidade de governar o corpo, muitas vezes atendendo na cama suas necessidades. A seguir tinha de esperar, algumas vezes à noite durante horas, que alguém fosse fazer limpeza.
Pacientes mais fortes, da outra parte do presídio, tinham de se encarregar dos que não podiam tomar conta de si, lavando camisas, roupas de baixo, fronhas, algumas vezes vinte lençóis por dia, embora para isso tivessem de quebrar o gelo no pátio para encontrar água. O que era meu sempre estava rijo de pus e sangue, mas quando procurava impedir que um amigo o lavasse, ele se zangava.
Gafencu nunca se queixava. Sentava-se em silêncio na cama, algumas vezes movendo a cabeça de leve em sinal de afirmação ou de agradecimento. Quando se veio, a saber, que não ia viver muito, seus amigos, velhos e novos, rodearam-lhe o leito com lágrimas nos olhos. Suas últimas palavras foram: "O Espírito de Deus deseja-nos para si com afeição extrema".
Quando faleceu, os outros ajoelharam-se e oraram. Eu disse: "Jesus nos afirma que se uma semente não cai na terra e não morre, nenhum fruto poderá produzir, e que assim como a semente renasce em bela flor, assim o homem morre e seu corpo mortal se renova em corpo espiritual. E o seu coração, que chegou a encher-se dos ideais do Cristianismo, com certeza dará fruto".
Depois que um padre pronunciou uma oração. Gafencu foi envolvido no seu lençol e levado para a sala mortuária. À noite foi sepultado numa vala comum por criminosos sentenciados, aos quais cabia sempre aquela tarefa.
Levas de novos presos foram chegando sempre mais a Tirgul-Ocna, os quais nos puseram a par de fatos que estavam ocorrendo lá fora, parecendo-nos às vezes que nós, naquele presídio, dificilmente estaríamos em piores condições do que os “livres" operários e camponeses. Os salários nunca foram tão baixos. Proclamou-se que o dia de trabalho seria de oito horas, mas podiam-se trabalhar doze, sendo essa a diária "normal", e depois, o trabalho "voluntário" e preleções marxistas consumiam o resto do tempo que se podia dedicar à vida no lar; em qualquer caso, todo apartamento abrigava duas ou mais famílias.
Greves eram ilegais. Um recém-chegado, idoso e torto, antigo membro do sindicato de trabalhadores, de nome Bons Matei, disse-me: "Faz quarenta anos que fui preso por lutar a favor da jornada de trabalho de oito horas, e agora que o governo é comunista trabalho quatorze horas na prisão". Seu crime consistiu em escrever uma carta anônima ao Camarada Gheorghiu Dej, chefe do Partido, protestando a favor dos seus companheiros de trabalho e contra a grave condição deles, e dizendo que, em qualquer Estado capitalista, eles teriam o direito de negar-se ao trabalho. A Polícia Secreta foi ao seu depósito de material rodante e apreendeu exemplares de caligrafia dos 10.000 operários. Após semanas de investigação, Boris foi acusado de procurar fomentar uma greve, recebendo quinze anos de cárcere por tentativa de sabotagem.
Continuou ele firme no seu credo marxista. Não simpatizava com os grupos dissidentes que, com ele, deram entrada na cadeia: maçons, rotarianos, teosofistas, espíritas. Nem tinha pena dos poetas e novelistas que tinham sido trancafiados por seu descortino independente: foram por seu turno convocados ao Q.G. do Partido para receber suas ordens, devendo eles fazer outra coisa melhor que correr atrás do fogo-fátuo de verdades objetivas.
Boris argumentou que Lenin havia frisado em seus livros a importância de se encontrar na vida um ponto de vista a que se devia apegar. "A linha de conduta do Partido?" Perguntei. "Mas sua doutrina inverte todos os conceitos filosóficos. Se da minha cama contemplo a cela, vejo só a janela. Se olho de onde o senhor está sentado, vejo a porta. Se fito o chão, a sala não tem teto. Cada ponto de vista é em verdade um ponto de cegueira, porque nos incapacita de maneira total para enxergarmos outros pontos de vista. Somente quando abandonamos todos os "pontos de vista" e aceitamos nossa intuição do conjunto é que encontramos a verdade. S. Paulo diz: "O amor crê tudo" - não só o credo deste ou daquele grupo.
Mas falar em religião era provocar raiva em Boris. "Não há Deus nenhum, nem alma nenhuma! Só existe matéria. Desafio o senhor a que me prove o contrário".
Respondi que ele devia extrair seus argumentos de um livro de texto comunista, no qual eu via a seguinte definição de beijo: "Beijo é a aproximação de dois pares de lábios, transmitindo eles um ao outro micróbios de dióxido de carbono". "O amor, o desejo ardente, ou a falsidade que o beijo pode representar, isso não tem lugar na filosofia dos senhores. Esse esgotamento dos valores espirituais afeta o lado material da vida, isso que os senhores consideram de toda importância. Arranca dos operários o coração, de sorte que a qualidade inferior dos produtos de países comunistas tem-se tornado proverbial".
Boris interveio: "Conheço o dito de ter sido o descanso feito para o homem, não o homem para o descanso, porém todos existimos para beneficiar o Estado. A perda da liberdade individual e da propriedade privada são passos que levam” a liberdade universal “.
Eu pensei que até um cachorro luta com alguém que tente arrebatar-lhe o osso que tem, mas se uma sentença de quinze anos não curara Boris de suas ilusões, argumentar com ele provavelmente não adiantava. Ele também podia ser um da mais recente safra de informantes. As informações delatórias tinham-se espalhado como praga. A pessoa podia ser denunciada por falar em Deus ou orar alto; até por aprender ou ensinar uma língua estrangeira. Acontecia muitas vezes que o dedo delatório era de um amigo, dentro ou fora da prisão, de um filho, pai, esposa ou esposo. A pressão exercida para que se denunciasse era forte e cruel. De fato, o informante era provavelmente uma ameaça pior aos homens "livres" do que aos que jaziam atrás das grades. Na Sala Quatro falávamos mais livremente do que era possível acontecer em qualquer outra parte da Romênia, de vez que todos lá nos encaminhávamos para a morte.
Chegou o aniversário dos "dez dias que abalaram o mundo" a revolução russa do mês de novembro de 1917 - e o Professor Popp comemorou o fato com uma anedota. No primeiro aniversário da vitória do Bolchevismo, disse ele, os novos governantes realizaram uma caçada nas florestas perto de Moscou. Lá pelas tantas repousaram junto a uma fogueira e Lenin perguntou: "Digam-me, camaradas, o que é que vocês consideram o maior prazer da vida?" "A guerra", disse Trotsky. "Mulheres", acudiu Zinoviev.
"A oratória - a força de manter vasta multidão presa aos nossos lábios", disse Kamenev por sua vez. Stalin, como sempre, ficou taciturno, mas Lenin insistiu: "Diga-me a sua opinião!" Por fim, Stalin falou: "Nenhum de
vocês sabe o que é um verdadeiro prazer. Vou dizer: É odiarmos uma pessoa e durante anos fingir que a estimamos, até que um dia ela reclina confiantemente a cabeça no nosso peito. Nesse ponto cravamos-lhe um punhal nas costas. Não há na vida maior prazer do que este!"
Fez-se longo silêncio. Já por essa época conhecíamos algo da crueldade de Stalin: o resto, revelado depois de sua morte por seus próprios companheiros, provou a veracidade dessa história arrepiante.
TERCEIRA PARTE
Por algum tempo veio a falar-se assustadoramente de um sistema de "reeducação" de prisioneiros, que se adotava nas penitenciárias de Suceava e Piteshi. Tal sistema dispensava livros, mas empregava açoites. Os mestres eram de ordinário vira-casacas da Guarda de Ferro, que formavam uma "organização de prisioneiros de convicções comunistas" (PCC). Ouvíamos referir os nomes de Turcanu, Levitkii e Formagiu, como sendo os organizadores desses grupos. Ao que se dizia, eles se portavam como selvagens.
Temíamos que esse processo fosse adotado entre nós, mas Boris chacoteava. Não podia crer que seus ex-companheiros esquerdistas viessem a permitir atrocidades.
Disse: "Eles sabem que 'o terror nunca extirpou ideias pelas raízes'. Foi o que Karl Kautsky, o pensador Social Democrata, escreveu no início da revolução russa".
Retorqui: "Sim lembro-me do que Trotsky, que foi Ministro da Guerra, respondeu: 'Sr. Kautsky, o senhor não sabe qual o terror que vamos pôr em prática". É uma ironia que as próprias ideias de Trotsky fossem desarraigadas efetivamente pelo terrorismo na Rússia quanto o foi o Capitalismo".
O Abade interveio: "Temo que terror e tortura, praticados impiedosamente e por longo tempo, esmaguem a resistência de qualquer pessoa, a menos que Deus opere um milagre".
"Não creio em milagres", disse Boris: "Podemos passar sem eles, obrigado. Nada ainda abalou minhas convicções”.
A atmosfera no presídio piorou depois de uma breve visita de Formagiu, líder da "reeducação" em Piteshi, trazendo ele instruções para inaugurar o sistema entre nós. Até então, embora os suplícios ocorressem na maior parte do dia, sabia-se que cedo ou tarde os guardas se afastavam para comer ou dormir. Agora os "prisioneiros de convicções comunistas" vieram ficar conosco. Tinham o poder de espancar e intimidar à vontade, possuindo para isso cassetetes de borracha. Tinham sido escolhidos a dedo pelas autoridades dentre os piores prisioneiros e os mais violentos, sendo que não havia um grupo de dez ou vinte homens do PCC, e o número destes crescia sem parar. Os que se declarassem prontos a tornarem-se comunistas tinham de provar sua conversão, "convertendo" outros de modo igual.
Grosseira violência era realçada por períodos de mais apurada crueldade, sob supervisão médica para que os presos não morressem. Acontecia muitas vezes que médicos eram PCCs. Conheci um Dr. Turcu que, depois de examinar um companheiro de cela, aconselhava uma pausa, dava no homem uma injeção para aumentar-lhe a resistência e dizia aos reeducadores quando deviam recomeçar. Era Turcu quem decidia quando o homem chegava ao limite de resistência e podia ser jogado de volta na sua cela até ao dia seguinte.
Uma onda de loucura varria a prisão. Os pacientes tuberculosos eram despidos, deitados na laje fria e molhados com baldes de água gelada. Lavagem (comida de porco) era atirada ao chão na frente de presos que por vários dias não tinham visto comida; com as mãos atadas às costas eram forçados a lamber aquilo. Nenhuma humilhação, por mais vil que fosse, era dispensada. Em, muitas penitenciárias os valentões PCCs faziam presos engolir excremento e beber urina. Alguns choravam e suplicavam que pelo menos lhes desse o excremento deles próprios e não de outros. Alguns enlouqueciam e passavam a gritar por mais. Sentenciados eram levados a praticar de público atos de perversão sexual. Nunca imaginei que tais maneiras de levar a ridículo o corpo e a alma fosse possíveis.
Os que se apegavam à sua fé eram os que mais sofriam maus-tratos. Cristãos eram atados em cruzes durante quatro dias e diariamente as cruzes eram colocadas no chão. Mandava-se então que outros presos defecassem nos rostos e corpos deles. Depois disso as cruzes eram de novo levantadas.
Um padre católico, levado à Sala Quatro, contou-nos que na prisão de Piteshi, num domingo, fora empurrado para dentro da fossa sanitária, recebendo ordem de dizer a Missa sobre excremento e dá-lo aos demais presos em comunhão.
"O senhor obedeceu?" perguntei.
Ele cobriu o rosto com as mãos e chorou: "Sofri mais do que Cristo", afirmou.
Tais coisas se faziam com o incentivo dos administradores da prisão, e ordens vindas de Bucareste. Turcanu, Formagiu e os outros especialistas eram levados de uma prisão a outra para recrutarem PCCs e desse modo não deixarem que a campanha esfriasse. Líderes do Partido, até homens do Comitê Central, como Constantino Doncea e o Sub-Secretário do Ministério do Interior, Marin Jianu, foram observar aquela brincadeira macabra. Boris, que trabalhara com Jianu, rompeu pelo meio dos guardas para protestar, mas se Jianu chegou a reconhecer o seu ex-coleganão quis admitir aquela manifestação. "Não interferimos quando um porco ataca outro!" disse; noutras palavras, o Partido nada tinha a ver com os torturadores, mas permitia que torturassem. "Leve-o daqui", disse Jianu. Boris foi surrado até que em gritos pediu misericórdia.
O velho combatente sindicalista ficou de todo abatido. Exposto a humilhações e tortura dia e noite algo nele se consumiu. Rastejava para beijar as mãos de quem o surrava. "Obrigado, camarada", dizia. "Você me trouxe para a luz". E passava a tagarelar em torno das alegrias do comunismo, e como se tornara ele criminoso em persistir no erro. Depois de um colapso daquele, seu respeito próprio exigia dele um revezamento total de lealdade; do contrário pareceria ridículo aos seus próprios olhos. Boris aderiu ao grupo PCC. Um dos primeiros em que ele empregou seu cassetete foi o Dr. Aldeã.
O sistema de reeducação - importado da Rússia - produziu resultados incríveis. Vítimas deixavam escapar segredos que haviam guardado durante meses de interrogatório. Denunciavam amigos, esposas, pais. Daí a onda de milhares de novas prisões.
Por esse tempo um grupo de doentes das minas de chumbo foi trazido para uma cela especial em Tirgul-Ocna. A esses juntaram-se outros presos que, vendo serem padres alguns dos recém-chegados, confessaram-se e deste modo ganharam a confiança deles. Os homens procedentes das minas falavam livremente de suas secretas atividades religiosas e políticas. Depois foram removidos para uma cela maior, a fim de serem reeducados - e aí souberam que tinham estado a conversas com delatores.
Um deles foi levado contundido e sangrento para a Sala Quatro. Contou-nos que o "reeducador" em serviço era um jovem possante, de sorriso franco, que passava todo o tempo a gracejar. "Isto dói?" perguntava. "Que pena!" Vamos experimentar outra coisa. Já gozou isto?". "Se eu pudesse agarrar aquele sujeito um dia", exclamava a vítima, "eu o esfolaria vivo". "Pois não", fremiu o velho fazendeiro Badaras. "E por cima sal e pimenta, sem falta!" Badaras recitava diariamente uma prece: "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ó Deus, destrói os comunistas, faze-os sofrer, fere esses porcos!"
"Por que diz isso?" perguntei-lhe. "Não é de se esperar tal coisa de um cristão".
De punhos cerrados para o Céu, imprecava: "Digo isso porque Deus não há de receber no paraíso quem não amaldiçoar esses bastardos!"
Muitos, como Badaras, viviam a pensar como poderiam torturar os seus torturadores; acreditavam no Inferno somente para poder fritar nele os comunistas.
"Não devemos dar largas ao ódio", dizia eu. "Esses homens, como Boris, sucumbiam sob terrível pressão".
Boris no entanto era agora um assunto que irritava e pungia na Sala Quatro. A tentativa de provar sua conversão ao comunismo com o espancamento do Dr. Aldeã - que não escondia o desprezo que voltava a Tuircu e aos outros médicos PCCs - fez dele, Boris, um dos homens mais odiados na prisão. Aldeã sofria muito com uns furúnculos que tinha nas costas e nos ombros, pois Boris espancou-o exatamente nas costas. Presos teriam dado a vida por Aldeã, que a eles estava dando a sua. Depois da surra, o médico foi ocupar um leito na Sala Quatro. Após isto chegou alguém para dizer que um preso gravemente enfermo pedia a presença dele.
"O médico não pode andar, de tão doente que está!", disse o Abade. Aldeã perguntou: "Quem é ele?" "Boris", foi a resposta. Aldeã desceu penosamente do leito e ninguém lhe disse nada ao sair ele da sala.
O Abade Iscu falou algumas vezes de suas experiências nos acampamentos de escravos do canal Danúbio - Mar Negro, onde milhares morriam de maus-tratos e fome. O canal tinha sido começado a instigações da Rússia - de vez que ajudaria a escoar da Romênia os seus produtos com maior rapidez do que já vinha sendo feito e também por ser ele um projeto que prestigiaria nosso Governo. Era um plano gigantesco e de tal forma se tornara um símbolo das realizações comunistas, que, advertindo um grupo de engenheiros que não era provável que o rio viesse a suprir bastante água que desse para o canal e ainda para a rede de irrigação, eles foram fuzilados como "sabotadores da economia" do país. Os recursos da Romênia foram aplicados prodigamente na execução do projeto, e mais de 200.000 prisioneiros, tanto políticos como de crimes comuns, trabalharam nele de 1949 a 1953.
O Abade fora parar na Poarta Alba, uma das colónias penais ao longo da rota do canal. Vivendo em barracas desengonçadas, atrás de cerca de arame, 12.000 pessoas tinham, cada uma, de remover à mão oito metros cúbicos de terra por dia. Empurravam carrinhos de mão por ladeiras íngremes, sob as pancadas dos guardas. A temperatura no inverso chegava a 25 graus Celsius abaixo de zero, e a água, levada em barris, gelava. As doenças eram frequentes. Muitos presos penetravam em áreas proibidas ao redor do acampamento na esperança de serem fuzilados.
Os criminosos mais violentos ficavam encarregados de "brigadas", cada uma de mais ou menos cem presos, e recebiam, pelo que produzissem, pagamento em comida ou cigarros. Os cristãos eram agrupados na chamada "Brigada dos Padres"; bastava que aí alguém fizesse o sinal da cruz - ação reflexa entre os ortodoxos - para levar pancada. Não tinham dia de descanso nem Natal nem Páscoa.
Entretanto em Poarta Alba, informou o Abade, ele testemunhou as mais nobres ações. O jovem padre católico Cristea incorreu no ódio de um padre ortodoxo feito delator, que lhe perguntou: "Por que você fecha tanto os olhos? É orando? Desafio que me diga a verdade: você ainda crê em Deus?"
Responder "sim" significaria no mínimo levar umas chicotadas.
O Padre Cristea ponderou-lhe: 'Sei, Andreescu, que você me tenta como os fariseus tentaram a Jesus, a fim de me acusar. Mas Jesus disse-lhes a verdade e é o que lhe digo. Sim, creio em Deus".
"Bem! Crê também no Papa?" prosseguiu Andreescu.
Andreescu foi apressado ao oficial político, que veio e chamou o jovem diante dos demais. Cristea estava magro e exausto: tremia de frio na sua roupa esfarrapada. O oficial, bem nutrido, envolto no seu casacão e usando um chapéu de pelica russa, foi dizendo: "Ouço contar que você crê em Deus".
O Padre Cristea abriu a boca para responder, e nesse instante alguém podia entender por que está escrito no Evangelho segundo S. Mateus, que Jesus "abria a boca" para proferir suas parábolas - uma coisa estranha por certo, visto como ninguém fala de boca fechada. E aí estava Cristea com os lábios só semiabertos para falar, mas todos sentiam que uma pérola preciosa ia escapar de sua boca naquele momento decisivo. Os cristãos presentes ficaram cheios de pasmo.
Disse ele: "Quando fui ordenado, sabia que milhares de padres, através da história, tinham pago com a vida a sua fé. E sempre que subia ao altar, prometia a Deus: "Agora eu vos sirvo como estes belos paramentos, mas ainda que me trancassem em prisão eu ainda vos serviria". E assim pois, tenente, prisão não é argumento contra a religião. Eu creio em Deus".
O silêncio que se seguiu era quebrado apenas pelo ruído do vento. O tenente parecia procurar o que dizer sem achar. Por fim disse: "E você crê no Papa?" Veio a resposta: "Sempre tem havido Papas desde S. Pedro. E até que Jesus volte os haverá sempre. O atual Papa não procurou fazer paz com os comunistas, nem disso cogitarão os seus sucessores. Sim, acredito no Papa!"
O Abade terminou sua história, dizendo: "Achei difícil perdoar meu irmão ortodoxo que se fizera delator, e não sou adepto de Roma absolutamente, mas naquele instante foi como se gritasse Viva o Papa!"
"Que aconteceu ao Padre Cristea?" Alguém indagou. "Foi trancado uma semana na gaiola, onde se fica de pé e não se dorme; depois foi açoitado. Recusando-se a negar sua fé, desapareceu das vistas. Nunca mais o vimos".
A reeducação reclamava novas vítimas todos os dias e a impressão cada vez maior era que a menos que se fizesse alguma coisa todos acabaríamos "convertidos" ou mortos. À Sala Quatro chegou o rumor de que uma espécie de protesto estava-se preparando entre os presos comunistas, que eram os mais brutais de nosso meio: os guardas estavam mais prevenidos com eles, porque os que hoje estavam presos, ontem estiveram no poder e poderiam voltar a ele amanhã.
Os cristãos debatiam o que iam fazer: se houvesse um motim, dar-lhe-iam sua adesão? Ou estavam eles no caso de "oferecer a outra face"? Vários presos eram de parecer contrário a uma luta. Eu disse: "Costuma-se pintar Jesus como “manso e humilde" - mas Ele também foi um combatente. Expulsou os vendilhões do templo com um azorrague e aos seus primeiros seguidores apresentou como diretriz o Velho Testamento com o seu fogo e violência".
Decidimos cooperar com os rebeldes. Pouco podia ser feito em sigilo por causa dos muitos delatores no nosso meio e as desconfianças que havia entre anti-semitas e judeus, entre camponeses e donos de terras, entre ortodoxos e católicos.
Na cidade de Tirgul-Ocna, a única distração que havia era um jogo semanal de futebol, num estádio junto à prisão. No dia primeiro de maio, que coincidiu com uma explosão selvagem de reeducação, ouvimos que um jogo comemorativo do Dia do Trabalho ia realizar-se no estádio às 17 horas e que a cidade em peso estaria presente. Era uma oportunidade que tínhamos de fazer uma demonstração. O sinal seria o despedaçamento de uma janela.
Logo depois que o jogo começou ouviu-se um tilintar de vidro que se quebrava, e então o presídio inteiro explodiu o alvoroço. Janelas eram espatifadas. Pratos e canecos eram atirados fora com violência. Quebravam-se cadeiras. Alguém começou a cantar: "Ajudem-nos! Ajudem-nos!" Das janelas mais acima, que davam para o estádio, homens gritavam: "Somos torturados aqui! Seus pais, irmãos e filhos estão sendo assassinados!"
O jogo chegou ao fim. A multidão debandou e logo centenas de pessoas se postaram na estrada ao pé do muro. Dentro, um dos presos cortou os pulsos e os guardas começaram a zurzir com cacetetes. Os grupos na rua foram dispersados rapidamente por tropas a coronhadas. Restava a tarefa de pôr em ordem o presídio e apurar os estragos e acidentados. Entre eles estava Boris, que foi jogado ao chão a socos e ferido gravemente ao procurar socorrer outro preso que estava sendo pisoteado pelos guardas. Outra vez o Dr. Aldeã teve de atendê-lo. Mandamos recados amistosos, mas não houve resposta. Depois soubemos que ele fora removido para outra penitenciária.
Notícias do motim espalharam-se rapidamente pelo país. Não houve represálias imediatas; apenas o regime passou a ser mais severo. Os suspeitos de serem cabeças-de-motim foram removidos para outras prisões; privados da assistência médica que tinham em Tirgul-Ocna, muitos deles morreram.
O Abade Iscu veio a ter maiores acessos de tosse todos os dias. Seu corpo, gasto por anos de inanição e exposição às intempéries no canal, era atormentado por crises terríveis. Ficávamos deitados a vigiá-lo nas vascas da morte. Algumas vezes não reconhecia amigos que iam ajudá-lo. Quando ficava consciente, passava horas a murmurar orações, e sempre tinha palavras de conforto para os demais.
Outros sobreviventes do canal tinham chegado a Tirgul-Ocna. O que relatavam dos seus horrores soava como a notícia da escravidão dos israelitas no Egito, com a amargura adicional de terem os oprimidos de louvar os seus opressos. Um famoso compositor, entre os presos, fora forçado a escrever hinos de exaltação a Stalin, e ao som dos mesmos as brigadas marchavam para o trabalho.
Certa vez um homem teve síncope e um médico deu-o por morto. O Coronel Albon, o odiado comandante de Poarta Alba, bradou: "Porcaria!" Deu com o pé no cadáver. "Ponham-no a trabalhar!"
Meu leito ficava entre o do Abade e o do jovem Vasilescu, que (era uma vítima de espécie diferente do canal. Este era um criminoso comum que tinha sido encarregado da Brigada dos Padres. Fizera-a trabalhar até que todos sucumbiram. Mas por alguma razão o Coronel Albon começou a ter-lhe aversão, sendo ele tratado por seu turno com tanta brutalidade que também se avizinhava da morte. Sua tuberculose estava bem adiantada.
Vasilescu não era um moço mau por natureza. Tinha a fisionomia grosseira, cara larga com cabelos escuros, encrespados e baixos na testa, o que lhe dava a aparência de um touro assustado. Rijo, sem instrução, gostava demais do que considerava as coisas boas da vida para se fixar num estável; e ele tivera uma vida difícil. Assemelhava-se ao assassino assalariado de "Macbeth" - "aquele a quem os torpes reveses e bofetadas do mundo têm exasperado por tal forma que estou indiferente ao que faça para contrariar esse mundo".
Contou-nos: "Uma vez que vocês se vejam naqueles acampamentos farão seja o que for para de lá escapar, seja o que for! E Albon me disse que se eu fizesse o que me mandasse, eles me dariam Uberdade". Ele queria roupas, uma moça para levar a dançar. E o Partido dava-lhe licença de escolher entre aderir aos torturados ou aos torturadores.
"Levaram vários de nosso meio a um acampamento especial onde treinavam a polícia secreta", disse: "Uma das coisas que tínhamos de fazer era atirar em gatos e cães, e liquidar com espigões de aço os que ainda ficassem vivos!" Eu falei para eles: "Não posso fazer isso, não". Uma cara respondeu: "Então faremos com você".
Vasilescu tinha agora tristeza de si mesmo. Contou-me repetidas vezes as coisas terríveis que fizera no canal. Não pouparam nem o Abade. Vasilescu estava a olhos vistos as portas da morte, e procurei confortá-lo um pouco, mas ele não podia sossegar. Certa noite despertou ofegante, com a respiração difícil. "Pastor, estou-me acabando", disse. "Peço que ore por mim!" Cochilou e outra vez despertou, exclamando: "Creio em Deus!" e desatou a chorar.
Ao romper do dia o Abade Iscu chamou dois presos para junto de si e pediu: "Levantam-me daqui!". "O senhor está muito doente para andar", disseram. A sala inteira ficou em alvoroço. "Que é que há?" alguns perguntaram. "Deixe que nós façamos!"
"Vocês não podem fazer", respondeu. "Levantem-me!"
Levantaram-no. "Levem-me ao leito de Vasilescu", disse.
O Abade sentou-se ao lado do jovem que o havia antes torturado, e pôs a mão carinhosamente no seu braço. "Tenha calma", disse aquietando-o. "Você é moço. Era difícil você saber o que fazia". Enxugou o suor da testa do rapaz com um trapo. "Eu o perdoo de todo o meu coração, e o mesmo fazem outros cristãos. E se perdoamos, certamente Cristo, que é melhor do que nós, perdoará. Há no céu um lugar para você também". Recebeu a confissão de Vasilescu e lhe deu a Santa Comunhão, antes de ser recambiado ao seu leito.
À noite daquele dia o Abade e Vasilescu faleceram. Creio que de mãos dadas ambos entraram no Céu.
O Dr. Aldeã disse-me que eu precisava de um pneumotórax. Podia ser feito em poucos minutos, consistindo na introdução de uma agulha oca, por onde me entrasse ar nos pulmões para intumescê-los. Foi uma operação relativamente indolor, depois da qual ferrei no sono. Quando despertei, fiquei muito alegre por ver o Professor Popp sentado à beira do meu leito. Estivera fora alguns meses, na penitenciária de Jilava; também sofrera muito, submetido ao sistema de "reeducação". Conversamos durante horas.
Contou-me que tinha havido muitos suicídios em Jilava. O mesmo acontecia noutras prisões. Em Gherla e Piteshi homens lançavam-se dos andares superiores, até que os espaços entres as plataformas foram cobertos de arame que os aparasse. Alguns cortavam os pulsos com vidro, outros se enforcavam e ainda havia quem morresse depois de ingerir detergentes que se usavam na limpeza. Um pobre ancião, padre ortodoxo, lançou-se de cima de uma tarimba no chão, fraturando o crânio. Fizera isso várias vezes antes, sem resultado. Desta vez morreu.
"Fora torturado", disse o professor. "Receava que, se os reeducadores viessem sobre ele de novo, sucumbiria e trairia sua fé. Era um homem muito severo - um preso confessou-lhe que uma vez trabalhara para os comunistas, e o Padre loja proibiu-o de comungar durante quinze anos!"
Alguns dos suicídios eram afamados, como George Bratianu, um figurão da política da Romênia de antes da guerra. Não achou outro meio de dar cabo da vida senão negando-se a comer até morrer de inanição, sem ser notado entre os presos que nada sabiam nem se incomodavam. O chefe do Partido Liberal, Rosculet, matou-se no cárcere de Sighet: era um dos que tinham pensado que os comunistas "locais" não eram iguais aos do tipo russo; depois, porém, de lhe darem o título de Ministro dos Cultos, o Partido prendeu-o como contra-revolucionário.
As brutalidades da "reeducação" causavam inquietação em muitas penitenciárias, propagando-se seus rumores pelo país. Foi quando dois incidentes isolados trouxeram à luz a verdade.
Durante uma inspeção em Tirgul-Ocna, um odiado coronel da Polícia Secreta, Sepeanu, descobriu uma nova cerca. "Por que vocês construíram isto?" Indagou do Comandante Bruma. "A madeira podia ser muito mais bem empregada no espancamento desses contra-revolucionários". E riu a valer.
A história causou uma raiva feroz. A atmosfera de revolta estava a explodir em Tirgul-Ocna. Um ex-major exclamou: "Alguma coisa se precisa fazer!" E decidiu que ele era o homem talhado para isso. Quando Sepeanu se foi, o major pediu que um investigador fosse trazido especialmente de Bucareste, a fim de ouvir um segredo que ele deixara de confessar.
O investigador veio. O major disse-lhe: "O senhor sabe que estou cumprindo pena de vinte anos como criminoso de guerra, por haver executado prisioneiros russos. Como major de brigada, eu próprio não atirei naqueles homens. Vou dizer-lhe quem atirou. Foi um tenente chamado Sepeanu, que hoje é o coronel da Polícia Secreta".
E assim também Sepeanu foi julgado por crimes de guerra e sentenciado a vinte anos. Durante o julgamento referiu o que estava acontecendo nas prisões sob o sistema de "reeducação".
O segundo incidente envolveu outro chefe da Polícia Secreta. O Coronel Virgil Weiss fora amigo de Ana Pauker e outros do Governo. Depois se desaveio com eles, e acabou na prisão de Piteshi às mãos de Turcanu, chefe dos "Prisioneiros de Convicções Comunistas".
O homem que ajudava Turcanu a torturar vítimas contou-me depois que o Coronel Weiss desfaleceu três vezes numa hora, enquanto trabalhavam nele. Faziam-no recuperar os sentidos com água fria. Ele dizia: "Está certo - vou contar-lhes tudo quanto não disse - e vejamos se os seus patrões vão agüentar-se". Turcam cria que ia topar segredos que dariam a ele a soltura que lhe fora prometida. "Se você mentir agora eu o mato", advertiu. Weiss falou: "Tenho coisas importantes a dizer, mas não a você. Concernem a traidores que ocupam altos postos".
Foi levado a Bucareste, onde passou várias semanas hospitalizado. Membros do comité Central do Partido, rivais da súcia de Pauker, foram entrevistá-lo. Revelou ele que Pauker, Luca e Georgescu, ministros do Governo, tinham-no aliciado para que obtivesse passaportes falsos, com os quais pudessem escapar da Romênia, apressadamente, caso houvesse necessidade. Tinha também transferido grandes somas de dinheiro para bancos da Suíça.
A informação foi passada para Gheorghiu-Dej, Secretário Geral do Partido e principal tramador contra o grupo de Pauker.
O Coronel Weiss narrou a história da reeducação e exibiu para os amigos de Dej os efeitos dela no seu próprio corpo. Ficaram alarmados. Estava à vista outra reversão na sorte do Partido: eles podiam em breve esperar por igual tratamento. Alguns ignoravam tais excessos, e outros fingiam ignorá-los; mas agora começavam inquéritos. Os principais "reeducadores" foram interrogados na sede da Polícia Secreta e alguns deles, inclusive Turcanu, receberam pena capital.
O escândalo da reeducação usou-se como arma contra o Ministro do Interior, a cuja frente estava Theohari Georgescu, e no expurgo político de 1952 o triunvirato que havia governado a Romênia, desde que os comunistas assumiram o poder, foi derrubado. Os outros Ministros envolvidos nas acusações do Coronel Weiss, isto é, Vasile Luca e Ana Pauker, foram feitos bodes expiatórios da catastrófica inflação e dos desastres ocasionados pela coletivização.
Muitos dos que foram ajudar-nos na Sala Quatro eram agricultores que se tinham rebelado contra a coletivização forçada de suas terras. As cadeias da Romênia ficaram cheias deles. Milhares de outros tiveram de enfrentar pelotões de fuzilamento.
Contaram-me histórias de estarrecer. Suas propriedades tinham sido tomadas sob o regime da lei de "reforma agrária" de 1949, e nenhuma compensação receberam. Tornados vagabundos da noite para o dia, sem mais nada a perder, contra-atacaram. Funcionários públicos expunham-se a receber tiros, a levar surras ou serem queimados vivos com gasolina. Tudo sem nenhum proveito. Aos agricultores faltava organização. A rebelião deles ocorria em tempos e regiões diferentes, de sorte que o governo pôde sempre esmagá-los.
Um velho rijo, criador de ovelhas, de nome Ghica, narrou-me: "A Polícia Secreta mostrou-me dois rifles enferrujados. 'Desenterramo-los no seu celeiro', disseram. 'Se o senhor aderir à coletivização poderá evitar um processo'. Bem, concordei. Quando, entretanto, foram buscar meus animais, perdi a cabeça e procurei fazê-los parar com aquilo. Deram-me uma surra e aqui estou cumprindo sentença de quinze anos. Perdi tudo. Terras, ovelhas, esposa, filhos!" Todos os fazendeiros lamentavam suas perdas no mesmo sentido.
Contou-me outro como fora despojado dos seus rebanhos. Pediu para ficar pelo menos com os chocalhos. Os funcionários riram, mas deixaram. O homem retirou os chocalhos do pescoço dos animais, levando-os para o seu palheiro onde os dependurou numa corda. A noite inteira ficou lá sentado, balançando os chocalhos de vez em quando. Quando amanheceu, saiu correndo pelo meio da vila em direção da sede do Partido, e lá, com uma facada, matou o secretário.
Um outro fazendeiro tinha dois cavalos que trabalhavam na lavoura. Seu maior prazer era alimentá-los e tratar deles. Quando os levaram, ele queimou os estábulos da fazenda coletiva.
Naquele ano, poucas pessoas da zona rural foram presas. Gheorghiu-Dej, enquanto teve nas mãos as rédeas do Partido, fez-se a si mesmo Primeiro Ministro, em 1952, e procurou ganhar popularidade diminuindo o ritmo da coletivização. Luca, Pauker e Goergescu foram demitidos dos seus cargos.
Chegou o inverno com pesadas nevascas. Grossos pingentes de gelo apareceram no teto, e geada branquicenta emoldurava a vidraça das janelas. Fora, o frio tornava ofegante a respiração. Em dezembro a neve chegou a l metro de 80 cm. Foi o mais rigoroso inverno de quantos houve em cem anos, disseram. Não havia sistema de calefação, mas agora tínhamos dois ou três lençóis para cada um, em lugar de um só do regulamento, porque sempre que morria um da Sala Quatro tomávamos a sua roupa de cama. Foi quando fizeram uma inspeção - e nos deixaram com um só lençol para nos cobrirmos. Dormíamos com as nossas roupas durante todo o inverno. Acontecia muitas vezes não termos pão. A sopa, feita de cenouras, das que não prestavam para se vender de tão carcomidas e moles que estavam, ficou ainda mais rala.
Na véspera do Natal a conversa na prisão adquiriu um tom de maior seriedade. Houve pouca briga, nenhuma praga, pouco riso. Todos nós pensávamos nas pessoas queridas de casa, havendo um sentimento de solidariedade com o resto do género humano, o que de ordinário ficava tão fora de nossas vidas.
Falei de Cristo, mas, o tempo todo tive meus pés e mãos frias como aço, meus dentes a estalejar, e uma sensação de peso gelado no estômago, causada pela fome, parecia espalhar-se pelo corpo todo, só ficando vivo o coração. Quando estanquei, um rapaz simples, agricultor tomou-me a palavra no ponto em que eu parei. Aristar nunca frequentara escola. Apesar disso falou com naturalidade, descrevendo a cena do Natal, como se tivesse ocorrido em seu próprio celeiro naquela semana, provocando lágrimas em todos quantos o ouviam.
Alguém começou a cantar na prisão, naquela noite. Começou baixinho, vindo-me ao pensamento, entre outras cogitações, minha esposa e meu filho. Mas pouco a pouco a voz foi aumentando de intensidade até ecoar nos corredores, fazendo todo o mundo suspender o que estava fazendo.
Estávamos em profundo silêncio quando ele acabou. Os guardas, reunidos lá para os seus aposentos em torno de um fogareiro, não se mexeram toda aquela noite. Começamos a contar histórias e quando me pediram uma, pensei no cântico e narrei para eles a seguinte lenda judaica: O Rei Saul levou Davi, o pastor de ovelhas, festejado por haver matado Golias, à sua corte. Davi apreciava a música e ficou contente em ver uma harpa muito bonita num canto do palácio real. Saul disse: 'Aquele instrumento custou-me caro, mas fui enganado. Só emite sons desafinados'.
Davi tomou a harpa a fim de experimentá-la, e nela tocou uma melodia tão encantadora que todos ficaram comovidos. A harpa parecia rir, cantar e chorar. O Rei Saul perguntou: "Por que foi que todos os músicos que chamei só tiraram ruídos dissonantes desta harpa, e só você pôde produzir música?"
Davi, o futuro rei, replicou: 'Os que vieram antes procuraram tocar nestas cordas o cântico que era deles mesmos. Eu, no entanto, fiz a harpa tocar o seu próprio cântico. Recordei, a dedilhá-la, como tinha sido ela uma árvore nova, os pássaros a chilrear nos seus galhos de folhas verdes, floridas, à luz do sol. Lembrei a seguir o dia em que alguns homens foram cortá-la, por isso ouvimo-la gemer ao toque dos meus dedos. Expliquei então que esse ainda não era o fim. Sua morte, como árvore, significava o começo de nova vida, em que glorificaria a Deus, como harpa; por este motivo, ouvimo-la em notas de alegria".
"Assim, pois, quando o Messias chega, muitos procuram cantar em sua harpa os seus próprios cânticos, vindo daí serem dissonantes os sons que emitem. Devemos cantar na sua harpa o seu próprio cântico, a melodia de sua vida, do seu entusiasmo, suas alegrias, dores, morte e ressurreição. Só assim a música será autêntica".
Foi uma melodia dessa natureza que ouvimos pelo Natal no presídio de Tirgul-Ocna.
Aristar faleceu em fevereiro. Tivemos de cavar sua sepultura afastando neve densa e quebrando a terra, dura como ferro, no pátio da prisão, ao lado do Abade Iscu, Gafencu, Bucur e uma quantidade de outros que ele conheceu na Sala Quatro. Seu leito foi ocupado por Avram Radonovici, que foi crítico de música em Bucareste.
Avram conhecia longos trechos das partituras de Bach, Beethoven e Mozart e podia cantarolá-los horas a fio - soavam tão bem quanto num concerto sinfônico. Levara, porém consigo uma dádiva mais preciosa. Por causa de sua tuberculose, que lhe afetara a espinha, estava engessado quando o levaram a Tirgul-Ocna, e observando, vimo-lo meter a mão naquela carapaça cinzenta e retirar um livrinho esfarrapado. Nenhum de nós, durante anos vira um livro de qualquer que fosse a espécie. Avram ficou lá silenciosamente a volver as páginas, até que se apercebeu dos nossos olhares curiosos pregados nele.
"Um livro seu..." falei. "Qual é? Onde o conseguiu?" "É o Evangelho segundo S. João", respondeu Avram. "Consegui escondê-lo aqui dentro do gesso, quando a polícia veio no meu encalço". Sorriu. "Gostaria o senhor que eu lho emprestasse?" Tomei o livrinho em minhas mãos como se fora um pássaro vivo. Nenhum medicamento salva-vida me podia ser mais precioso. Eu, que tinha decorado muita coisa da Bíblia e a havia ensinado no seminário, estava esquecendo-a cada vez mais. Muitas vezes procurei advertir-me da grande vantagem dessa falta de uma Bíblia enquanto lemos o que Deus disse aos profetas e santos, podemos esquecer de ouvir o que Ele tem a dizer-nos.
O Evangelho passou de mão em mão. Era difícil abandoná-lo. Julgo que para homens instruídos a penitenciária era mais dura de suportar. Operários de fábricas e agricultores encontravam lá um meio social mais variado do que conheciam antes, mas o homem dado a leitura era como peixe jogado na areia.
Muitos aprenderam todo o Evangelho de cor, sendo ele objeto de discussões diárias entre nós, mas precisávamos estar prevenidos sobre quais prisioneiros participariam do segredo. Esse Evangelho ajudou a levar muitos a Cristo, entre eles o Professor Popp que, por estar perto de muitos cristãos vivos, chegava agora com firmeza mais perto da fé. As palavras de S. João vieram completar a obra, mas havia uma última barreira a ser transposta.
"Tenho tentado voltar a rezar", disse o professor. "Mas entre recitar as fórmulas ortodoxas que aprendi em criança e pedir favores ao Todo-Poderoso, aos quais não tenho direito, não há muita coisa para dizer. Tal e qual o rei no "Hamlet", minhas palavras sobem e meus pensamentos ficam cá embaixo".
Contei-lhe o caso do pastor que fora chamado ao leito de morte de um ancião. Ia sentando-se numa poltrona, junto ao leito, quando o velho disse: "Por favor, não se sente aí!" O pastor então arrastou um tamborete, ouviu a confissão dos pecados do enfermo e lhe deu a Sagrada Comunhão.
O ancião reanimou-se e disse: "Deixe que lhe conte a história dessa poltrona. Há cinquenta anos, quando eu era rapaz, o velho pastor daqui me perguntou se eu dizia minhas orações. Respondi: "Não". Ninguém existe a quem eu dirija orações. Se eu gritasse a plenos pulmões, o homem no andar de cima não me ouviria, como iria Deus ouvir-me lá no Céu?" O velho pastor respondeu mansamente: "Neste caso não ore mesmo! Mas sente-se em silêncio de manhã, tendo outra cadeira à sua frente. Imagine que sentado na outra cadeira esteja Jesus Cristo, como Ele costumava sentar-se em tantos lugares da Palestina. Que diria você a Ele?" Eu disse: "Para ser honesto, diria que não cria nele". "Bem, disse o pastor, "isso mostra, pelo menos, o que existe de fato em sua mente. Você podia ir adiante e desafiá-lo: se ele existe, que dê provas disso! Ora, se você não gosta do modo como Deus dirige o mundo, por que não dizer-lhe isto? Não seria você o primeiro a queixar-se. O Rei Davi e Jó disseram a Deus que pensavam ser Ele injusto. Talvez você queira alguma coisa. Então diga-lhe exatamente o que é. Se o receber, dê-lhe graças. Todas essas permutas de ideias podem ser assunto de oração. Não recite frases sagradas! Diga o que realmente está no seu coração!"
O moribundo prosseguiu: "Eu não cria em Cristo, mas acreditava no velho pastor. Para satisfazê-lo sentei-me diante desta poltrona e simulei que Cristo estivesse aí sentado. Durante poucos dias aquilo foi um passatempo. Depois eu sabia que Ele estava comigo. Falava a um Jesus real acerca de coisas reais. Procurei e recebi direção. A oração tornou-se um diálogo. Moço, cinquenta anos já se passaram e todos os dias eu falo com Jesus aí nessa cadeira".
O pastor estava presente quando o homem faleceu, estendendo a mão, como seu último gesto, para o amigo invisível na poltrona.
O professor perguntou: "É assim que o senhor ora?" Respondi: "Gosto de pensar que Jesus está junto de mim, e que posso falar-lhe como faço com o senhor. Pessoas que tiveram contato com Ele em Nazaré não lhe recitavam preces. Diziam o que lhes ia no coração, e isto é o que devemos fazer".
Continuou Popp: "Que diz dos muitos que com Ele falaram na Palestina, há 2.000 anos, e não se tornaram seus discípulos?" Respondi: "Durante séculos os judeus oraram pedindo a vinda do Messias, e ninguém fazia isso com maior eloquência do que o Sinédrio, a corte suprema deles. Todavia, quando Ele veio, injuriaram-no, cuspiram nele e o mataram, porque o que eles menos queriam era que alguém transtornasse a rotina confortável em que viviam. O mesmo se diga de muitas nações de hoje!" O Professor Popp tornou-se cristão. Disse-me: "Quando vi o senhor a primeira vez tive um pressentimento de que tinha algo para me dar". Tais intuições não são fora do comum nos presídios. Quando o mundo de fora fica afastado de nossas vistas, um sentido novo surge para o invisível.
Ficamos muito íntimos. Sentados juntos em silêncio algumas vezes, ele como que adivinhava o pensamento que se agitava em minha mente. E assim deve ser, mas raramente acontece entre amigos e entre o homem e sua mulher.
O degelo veio em março. Os pingentes de gelo passaram a derreter-se e a neve ficou em pedacinhos agarrados às paredes. Nas árvores, desfolhadas e nuas, começavam a aparecer rebentos, e os pássaros voltaram a cantar. Pelas nossas mãos friorentas, nossos pés envoltos em trapos e nossos rostos rígidos sentíamos que a vida voltava.
O presídio galvanizou-se com notícias novas. Um preso fora conduzido ao hospital da cidade onde uma mulher, que esfregava o assoalho, chorava. "Que é que há? Perguntou. "Nosso pai Stalin morreu", dizia soluçando. "Os jornais publicaram". Não vertemos nenhuma lágrima. Todo o mundo fazia conjecturas, excitado, sobre quais seriam as decorrências do fato.
Disse Popp: "Se Stalin morreu, com ele se foi o staünismo; uma ditadura não sobrevive ao ditador". "Mas o Comunismo sobreviveu a Lenin", observou alguém.
Poucos dias depois ouvimos apitos de trem e dobres de sinos que anunciavam os funerais de Stalin em Moscou. No presídio reboaram gargalhadas e maldições. Os guardas pareciam mal-humorados e os oficiais estavam nervosos. Ninguém sabia o que os próximos dias iriam trazer.
Depois de semanas de incerteza, chegou um funcionário de alta categoria do Departamento Legal e compreendemos que fora enviado a estudar as condições do presídio. Era recebido com silêncio e frieza ao passar de cela em cela perguntando se havia queixas a serem apresentadas. Muitos pensaram tratar-se de um ardil. Ao chegar ele à Sala Quatro eu disse: "Tenho alguma coisa para dizer, mas não começarei antes de o senhor me prometer que me ouvirá até ao fim".
"Foi para isto que vim aqui", disse cortesmente o serventuário púbüco. Falei: "Promotor, o senhor teve um renomado predecessor na história, chamado Pôncio Pilatos. Pediram a ele que julgasse um homem que ele sabia ser inocente. "Vou lá me envolver nisso?" pensou Pilatos de si para si mesmo. "Prejudicar minha carreira por causa de um carpinteiro judeu?"
"Apesar de já se terem passado 2.000 anos, o seu desserviço à justiça não caiu no esquecimento. Em qualquer igreja onde o senhor entrar, no mundo inteiro, ouvirá dizer no Credo que Jesus foi crucificado sob o governo de Pôncio Pilatos".
Os outros na Sala Quatro pareciam preocupados comigo. Continuei: "Examine o seu coração e verá que somos vítimas de injustiça. Ainda que fôssemos réus aos olhos do Partido, teríamos que expiar nossos crimes na prisão - mas isto aqui é uma pena de morte arrastada. Antes de o senhor redigir o seu relatório, veja a nossa comida, a falta de calefação e de medicamentos simples, a sujeira e as enfermidades. Pergunte a respeito de algumas das barbaridades que temos sofrido. Depois escreva a verdade. Não lave as suas mãos de homem que nada pode fazer, como Pilatos fez".
O promotor olhava-me melancolicamente, depois deu meia-volta e saiu sem dizer palavra. A notícia de que ele me prestara atenção espalhou-se pela penitenciária e encorajou outros a falar. Soubemos que antes de ele se retirar, palavras zangadas foram proferidas no gabinete do comandante. Mais tarde, naquele mesmo dia, os guardas se mostravam corteses, quase que a pedir desculpas. Uma semana depois o comandante foi demitido.
Melhorando a rotina na prisão, comecei a levantar-me do leito e a andar um pouco todos os dias. O Dr. Aldeã levou o funcionário médico para me ver.
Aldeã disse: "O seu caso é um enigma. Seus pulmões estão como uma peneira, as vértebras estão afetadas, não pude engessá-lo e não houve praticamente intervenção cirúrgica nenhuma. O senhor não está melhor, mas também não está pior, e por isso vamos tirá-lo da Sala Quatro".
Meus amigos ficaram contentes. Cobraram coragem pelo fato de, após dois anos e meio, ser eu o primeiro a deixar a cela vivo.
"Como foi que isto aconteceu, pastor?" disse um gracejando. "Por que esse corpo velho não obedeceu às ordens do médico e não morreu?"
Disse eu: "Acho que se você quiser descobrir uma razão médica para isso, haverá de descobri-la. Todavia na guerra aprendi uma lição em torno de procurar explicações. Encontrei alguns homens do Partido que tinham estado na Rússia. Ao indagar por que a União Soviética havia moderado sua campanha anti-religiosa naquela época, um deles me disse: "Ao senhor cabe informar". Redargui que pensava ter sido uma concessão feita à Inglaterra e à América, que estavam prestando auxílio à Rússia na guerra. O oficial sorriu: "Esta é a explicação que eu daria, como comunista. Se eu fosse cristão, diria que era resposta de Deus às orações". Fiquei em silêncio, porque ele tinha razão. A Bíblia conta que certa vez uma jumenta repreendeu um profeta. Assim digo agora a vocês que, se me recuperei, foi por um milagre de Deus em resposta à oração".
Eu sabia que muita gente - prisioneiros com os quais estive, e minha congregação também - orava por mim, entretanto durante muitos anos não soube que muitos milhares no mundo inteiro também oravam.
QUARTA PARTE
A SALA QUATRO tornara-se um altar em que as pessoas eram transformadas e transfiguradas para o exercício fé. Alegrava-me o fato de ainda estar vivo, mas abandonar aquela sala era baixar de nível. Deixando sua atmosfera de nobreza e sacrifício pessoal, voltei ao mundo de brigas, vaidade e fingimentos. Era triste e cómico ver quantos da classe superior se apegavam às suas ilusões. "Excelências" sujas cumprimentavam-se com "bom dia". "Generais" famintos indagavam uns dos outros como passavam de saúde. Eram intermináveis as discussões deles sobre sua volta opulência que lhes ficara para trás.
Um deles, Vasile Donca, aceitou um pedaço de cordão que lhe ofereci para com ele segurar as calças. Cordão era uma preciosidade no presídio. No dia seguinte, porém, falei com ele e fez que não me ouviu porque o tratei de "brigadeiro".
Donca, como muitos outros, faria qualquer coisa por um cigarro. Os guardas eram os únicos que possuíam fumo; e eram proibidos de passá-lo a outras pessoas. À noite fumavam uma quantidade de cigarros e jogam as pontas fora do pátio, que delas ficava alastrado. Os encarregados de celas e os informantes delatores eram os primeiros que tinham permissão de sair cada manhã, de modo a monopolizarem a coleta de restos de cigarros. Às vezes, no entanto, algum outro preso descobria uma pontinha daquelas, e então os seus colegas rodeavam-no, fumando-a revezadamente na extremidade de um pino, à guisa de piteira.
Certa manhã um guarda acendeu o cigarro, recostado à porta da cela, perto do meu leito. Donca foi lentamente, fazendo voltas pela cela e começou a conversar com ele em voz baixa e insistente.
"Guarda! Quanto você quer por esse cigarro?" O guarda arregalou um sorriso. "Que tem o senhor para oferecer, brigadeiro?" Donca não tinha nada, mas experimentou blefar. "Não pense que não tenho amigos em altos postos. Você será recompensado por qualquer atenção que me der!" "Amigos influentes?" inquiriu o guarda. "Apesar de tudo o senhor é de fato comunista, brigadeiro?" "Sargento, sou um romeno leal à pátria". "Bem, se o senhor fosse um comunista romeno leal, eu lhe daria este cigarro"
Donca hesitou e olhou ao redor disfarçadamente. O guarda fez menção de se afastar. "Espere! Naturalmente sou um comunista romeno leal!"
O guarda acenou para os seus camaradas a fim de que fossem participar da brincadeira.
"O senhor dança ao som de uma música russa, brigadeiro? Dance para nós! Dance à maneira de um russo da Rússia! "E apresentou o cigarro.
De braços abertos, sorriso forçado, Donca começou a pular num pé e noutro. Os guardas romperam em gargalhadas. Os presos desviaram o rosto, ao remexer Donca por entre as pernas deles à procura do cigarro atirado ao chão.
Quando Donca se mudou para outro lugar, seu leito foi ocupado por outro ex-membro do Estado-Maior, General Stavrat. As dragonas não fazem o oficial assim como o hábito não faz o monge, e Stavrat era tudo o que Donca não era. Apesar de pequena estatura, sobrepujava os seus colegas de prisão em pura força de personalidade. Duro, não suportando fraquezas, e não obstante cheio de bondade e bom-senso, gostava de se dirigir ao pessoal da cela em geral chamando-os "Homens!"
Juliu Stavrat era general sem botas. Desfizeram-se das suas. Coube-me um par, com o qual saia em dias alternados para fazer exercício no pátio. Logo depois de sua chegada permitiu-me a entrega dos primeiros pacotes de alimento, dando-se-lhe um. Abriu-o diante dos circunstantes boquiabertos. Um murmúrio de estupefação percorreu o grupo. Presunto, salsichas defumadas, bolo de frutas, chocolate - que sacrifícios sua esposa não fizera para comprar tais coisas! Stavrat, que vivera de sobejos durante oito anos, embrulhou de novo seu farnel e se dirigiu ao meu leito. "Pastor", disse, "tenha a bondade de repartir isto com os homens".
Stavrat era cristão antes de ser soldado. Quando ouvimos que a Rússia tinha feito explodir sua primeira bomba atómica, ele disse: "Agora é que não devemos procurar uma intervenção militar americana em larga escala: melhor para nós será apodrecer na cadeia do que ver milhões de pessoas morrerem numa guerra atómica".
"O senhor pensa que isso destruiria a humanidade?" perguntei. "O futuro da humanidade tanto quanto o seu passado", disse, "não ficará ninguém para conhecer nossa luta e progresso através das eras". Stavrat tinha muito gosto pela História. Podia discorrer eloquentemente sobre o passado da Romênia.
"Mas se uma guerra nuclear nada resolve", acrescentou, "e a civilização não pode coexistir com o Comunismo, não sei qual seja a resposta".
"O Cristianismo é a resposta", disse eu, "numa forma vital. Pode transformar a vida dos grandes homens como dos de menor categoria. Lembre-se de muitos governantes bárbaros, como Clóvis da França, Estêvão da Hungria, Vladimir da Rússia, que se converteram e tornaram cristãos os seus países. A coisa pode repetir-se. Veremos derreter-se a Cortina de Ferro".
"Devemos começar com Gheorghiu-Dej?" disse Stavrat sorrindo.
"Uma ordem de grande envergadura!"
Gheorghiu-Dej, eclipsados todos os seus rivais, era agora o nosso ditador. Admita francamente que erros graves tinham sido cometidos, entre os quais o maior fora o projeto do canal Danúbio-Mar Negro. Depois de três anos em que milhões de libras haviam sido esbanjadas e mimares de vidas, perdidas, somente cinco das suas quarenta milhas projetadas se aprontaram. Os principais engenheiros e dirigentes do acampamento foram acusados de sabotagem. Três tiveram sentença de morte e dois foram sumariamente executados. Outros, em número de trinta, tiveram sentenças que variaram de quinze anos de cadeia a prisão perpétua. Nova pesquisa acabou provando que o Danúbio não podia suprir água suficiente para o projeto - exatamente como disseram os engenheiros no início da obra e em razão do que foram fuzilados. O canal foi abandonado. Tudo quanto daquilo continuou a ter utilidade, desse imenso investimento de tempo e dinheiro da Romênia na primeira década de domínio comunista, foram os campos de trabalho. Estes não podiam conter o pessoal que transbordava das penitenciárias.
Enquanto discorríamos sobre esse fiasco, o Professor Popp me chamava à parte. Disse: "Tenho evitado dizer-lhe uma coisa desde que voltei para Tirgul-Ocna. O Dr. Aldeã pensou que o choque seria forte demais para o senhor, na condição em que estava. Sua esposa está presa e já esteve no canal".
Popp havia reunido informações de vários presos que tinham estado trabalhando lá. Sabina fora aprisionada dois anos depois de mim. Nenhuma acusação houve contra ela. Dirigia as mulheres na igreja, na qualidade de diaconisa, e lhe disseram o que havia de pregar, mas seu temperamento não se submetia a essa imposição. Em Poarta Alba ela ficou com as mulheres que tinham de padejar terra para carrinhos de mão e levá-los a grandes distâncias. As que não dessem conta de sua parte do trabalho ficavam sem comer. Havia entre elas moças colegiais patriotas e prostitutas, senhoras da sociedade e outras que sofriam por sua fé. No Acampamento Km 4, o Comandante Kormos foi logo mais sentenciado a trabalho forçado por violar trinta jovens presas: a acusação foi de ter ele "prejudicado o prestígio do regime".
Minha mulher ficou sob as ordens de uma figura notável, o Coronel Albon, chefe da Poarta Alba. Ela comia capim à maneira dos animais: ratos, cobras, cachorros, tudo era comida. Algumas das que comiam cachorro diziam gostar. Perguntei-lhes: "Vocês gostariam de voltar a comer aquilo?" "Ah não!" disseram. Sabina era franzina e fraca, de modo que uma troça dos guardas consistia em atirá-la ao Danúbio frígido e pescá-la. Ela, no entanto, sobreviveu. Sua vida foi salva com o colapso do projeto. Foi enviada com outras prisioneiras a uma fazenda do estado, onde se criavam porcos, e aí também o trabalho era duro.
O professor disse que um preso de Vacaresti falara com a minha esposa no hospital.
"Ela tem estado muito mal", disse Popp, "mas não vai morrer. Sabe que o senhor está seguro e salvo. As mulheres com as quais estava, falavam de um pastor que se supunha estar à beira da morte e que pregava de trás das paredes. Disseram à sua esposa terem deixado de ouvir sua voz em 1950 - pelo que o davam como morto. Ela, porém, disse que não; cria que o senhor estava vivo, quaisquer que fossem as provas em contrário".
Esta notícia quase que me aniquilou. Procurei orar, mas uma depressão mental me abateu. Durante dias não falei com ninguém. Foi quando certa manhã vi no pátio da prisão um padre velho, de aspecto nobre, barbas brancas flutuando ao vento frio, junto ao Corpo da Guarda. Era um recém-chegado e tinham-no deixado ali. Vários oficiais vieram e rodearam-no.
"Que faz este padre velho aqui?" perguntou um deles. "Veio ouvir em confissão", disse outro chacoteando. Foi o que o Padre Suroianu passou a fazer logo mais. Havia ao redor dele uma aura de santidade tal que provocava um desejo enorme de lhe dizerem toda a verdade. Até eu, embora não cresse em confissão sacramental, revelei-lhe o desespero em que estava e pecados que nunca antes houvera contado. As raízes do mal nem sempre ficam à mostra no confessionário. Quanto mais, porém, eu me acusava, tanto mais o Padre Suroianu olhava para mim não com desprezo senão com amor.
Ele tinha mais razão de sentir pesar do que outro qualquer de nós. Uma tragédia abatera-se sobre toda a sua família. Uma de suas filhas aleijada, fora privada do marido, detento conosco em Tirgul-Ocna. Outra filha e seu marido tinham recebido sentença de vinte anos. Um dos filhos morrera na cadeia. O segundo filho, em quem ele depositara todas as suas esperanças, esse rebelou-se contra o pai. Seus netos tinham sido expulsos da escola ou perderam seus empregos por causa das atividades dos pais "contrários ao Partido". Nada obstante, o Padre Suroianu, um homem simples, autodidata, gastava o seu tempo a encorajar e confortar os outros.
Nunca o seu cumprimento era "bom dia", mas sempre saudava com a frase bíblica "Alegrai-vos!" Disse-me: "No dia em que o senhor não puder sorrir, não abra a sua loja. Sorrindo movemos dezessete músculos do rosto, mas para uma carranca empregamos quarenta e três!"
Perguntei-lhe: "O senhor tem passado por tantos infortúnios - como pode 'alegrar-se' sempre?"
"Ora, porque o contrário é pecado grave", disse. "Há sempre boas razões para que a gente se alegre. Há um Deus no Céu e no coração da gente. Hoje de manhã deram-me um pedaço de pão. Estava tão bom! Veja agora como o sol está brilhando! E tantos aqui me estimam! O dia em que o senhor não se alegra, esse é um dia perdido, meu filho! Nunca mais o terá de volta".
Também eu podia regozijar-me, pelo menos no sentido de estar realizando o desejo acariciado desde que fora ordenado ser um pastor em prisão. Lá fora todos os dias tangem sinos e espera-se que o povo vá à igreja; mas na prisão meus paroquianos estavam "na igreja" comigo, não só um dia na semana, senão o dia inteiro e todos os dias. Eles tinham de ouvir, embora nem sempre com disposição.
Lazar Stancu, um linguista inteligente, cujo crime fora trabalhar para uma agência estrangeira de notícias, interveio para dizer: "Basta de Cristianismo, por favor! Existem outras religiões interessantes".
"Bem", disse eu. "Conheço alguma coisa de Confúcio e do Budismo". E contei uma parábola do Novo Testamento, das menos conhecidas.
"Fascinante!" exclamou Stancu, e elogiou sua beleza e originalidade.
"Alegra-me o senhor pensar assim", disse e expliquei que de fato era aquilo um ensinamento de Cristo. "Por que vai o senhor atrás de outras religiões?" perguntei. Seria o caso de um velho provérbio romeno. "A galinha do vizinho sempre é peru?" Ou seria apenas a sôfrega procura intelectual de novidades?
Disse Stancu, "Bernard Shaw uma vez insinuou que as pessoas quando na infância são de certa maneira inoculados de pequenas doses de Cristianismo, raramente contraem a coisa como deve ser".
Certa noite um jovem preso levantou-se de um pulo e começou a gritar: "Parem com isto! Parem com isto! Parem com isto!" Houve um silêncio. Era um recém-chegado e os outros olhavam surpresos para ele. Voltou correndo para a cama e deitou-se. Fui até onde ele estava. Tinha o rosto delicado, mas o queixo e o pescoço estavam cobertos de ataduras improvisadas. Fitou-me com lágrimas e voltou as costas. Pensando que se procurasse falar-lhe naquele momento ainda mais perturbado ficaria, desisti. O Dr. Aldeã disse-me chamar-se o rapaz Josif. "É um moço atraente", revelou-me, "mas vai ficar para o resto da vida com uma cicatriz de úlcera no rosto. É ele outro caso de tuberculose nos ossos". Contou-me que quatro anos antes, quando tinha quatorze, Josif fora detido ao tentar alcançar a Alemanha, onde vivia uma irmã. A Polícia Secreta o colocou sob a guarda de cães amestrados, que o atacavam quando se mexia, abocanhando a garganta. Susto e medo encheram-lhe a mente: conversa repetidas vezes acerca das horas que passou na fronteira à mercê dos cães.
Depois, suspeito de ser um penhor em algum jogo político, foi levado a Bucareste onde sofreu torturas para informar o que não sabia. A seguir foi mandado com um bando para trabalho forçado no canal, onde passou fome e contraiu tuberculose.
Fiquei a vigiar Josif quando ele ficou afeito ao nosso ambiente. Era de uma honestidade e sinceridade espontâneas, que a vida não conseguira corromper. Às vezes, esquecendo suas provações, sacudia para trás a cabeleira escura em gargalhadas estrondosas, enquanto rememorava alguma brincadeira da prisão de outro tempo. Entretanto levava sempre a mão ao rosto deformado. Doía-lhe: pior, no entanto, era pensar que sua bela aparência se perdera para o resto da vida.Certo de poder ajudá-lo, aguardei oportunidade.
Por poucos meses, depois da morte de Stalin, permitiram que recebêssemos mensalmente pacotes de casa. Esperávamos ansiosos por eles. Nos cartões-postais que nos davam eu escrevia pedindo, além de comida, cigarros e "roupas usadas do Dr. Filon".
Eu não gostava de fumo, mas uma vez que aqueles homens viviam desesperados por cigarros, eu sempre pedia minha quota inteira deles para distribuí-los. O resultado era ficarem ressentidos aqueles a quem não dava nenhum, e aqueles a quem eu dava suspeitavam quase sempre que dava mais a outros.
O pedido de roupa do Dr. Filon deixava minha família aturdida. O médico era baixinho. Eu era alto. Esperava eu compreendessem que estreptomicina do médico era o que eu queria. Aldeã dissera-me que a medicina socialista estava agora admitindo que aquele medicamento, descoberto na América fazia dez anos, tinha valor. Se eu recebesse algum, podia tratar-me;mas não tínhamos permissão de pedir que o mandassem em nossos pacotes.
Além de tuberculose, eu sofria também de frequentes dores de dente, que eram uma praga entre nós. Os dentes cariavam rápido por falta de alimentação e tratamento, ou se quebravam nos espancamentos. Algumas vezes punham-me nos tornozelos grilhões pesando uns vinte e três quilos, o que não me permitia andar um pouco para aliviar as dores. Mas nunca foi pior do que o acesso sofrido em Tirgul-Ocna. Um dente do lado superior atormentava-me o dia todo; à noite a dor passava para o maxilar inferior. Não tínhamos dentistas e nem esperança de alívio. Dizem que Pascal combatia a dor de dente resolvendo problemas de matemática, e assim experimentei compor sermões, mas as dores deviam amenizar-se mais com aqueles do que com estes, visto os meus serem uns sermões miseráveis. Dei para fazer poesias, mas eram poesias de desesperação.
Tentei esquecer as dores conversando com Josif. Sentei-me ao seu lado e perguntei-lhe por que se zangara quando lhe falei.
Disse ele: "Tenho ódio de Deus! Se o senhor continuar vou chamar os guardas". Seus olhos começaram a encher-se de lágrimas. "Deixe-me sozinho!"
Mas a natureza boa do rapaz sempre cedia; um ou dois dias depois dizia-me ele de suas esperanças de encontrar a irmã na Alemanha e juntos partirem para ficar com parentes na América. "Você deve então começar a aprender inglês", disse-lhe. "Gostaria, sem, porém aqui quem vai me ensinar?" Disse-lhe que, se quisesse, eu poderia dar-lhe algumas lições. "O senhor pode? É mesmo?" Ficou fora de si contente e revelou-se um aluno inteligente, embora não tivéssemos livros nem papel nem lápis. Falei-lhe de livros em inglês que eu lera, e fi-lo repetir comigo passagens da Bíblia que eu sabia de cor.
Josif não foi o único preso que ameaçou denunciar-me, mas o verdadeiro perigo no nosso meio era o informante secreto. Muitas vezes tais homens se fingiam de patriotas para alcançar seus fins, especialmente com os moços.
Os guerrilheiros que resistiram durante anos nas montanhas da Romênia inspiravam com o seu exemplo muitos jovens a formar seus próprios grupos anticomunistas, de modo que rapazes e moças de dezessete e dezoito anos foram detidos e encarcerados: havia até um de quatorze anos conosco em Tirgul-Ocna. Gostavam de ouvir as histórias que um ex-coronel do serviço secreto de informações militares, chamado Armeanu, costumava contar de nosso Rei Estêvão, o Grande, e outros heróis patriotas que lutaram contra a dominação estrangeira.
O General Stavrat, que antes conhecera Armeanu, disse: "Não confio neste homem. Precisamos ficar de olho nele". Mais tarde naquele dia, passava eu vagarosamente quando Armeanu estava com um jovem guerrilheiro chamado Tiberiu. "Eles me pegaram", dizia Tiberiu, "mas outros vão prosseguindo na luta..." quando passei outra vez ouvi-o dizer que uma moça estava entre eles. Armeanu, vendo-me perto, bateu-lhe no ombro e se foi.
Pedi a Josif para escutar; Armeanu notá-lo-ia menos. De fato, poucas noites se passaram, e ele pegou de surpresa trechos da conversa.
"Um cara simpático como você não arranjou uma moça?" perguntava Armeanu a Tiberiu. "Sem dúvida arranjou - aposto que é também bonita. Como é o nome dela?... Maria - donde ela é?... Sim, conheço o lugar. É mesmo, tive relações de amizade com uma família de nome Celinescu, onde havia uma fluía moça deste mesmo nome... Ah, sua Maria é uma Srta. Cuza. E o pai dela? Um capitão do exército, não é? Não do 22° regimento por certo... Oh, do 15°. Sim, sim".Depois desse relatório cheguei à conclusão que provavelmente Armeanu era um agente e que a moça Maria seria presa em poucos dias. O General Stavrat quis acareá-lo imediatamente, mas eu sabia que nada podíamos provar contra ele. Quando logo após encontrei Armeanu só, entabulei com ele uma conversa. Ele perguntou por que eu estava preso e então me vi diante de uma oportunidade tremenda.
"Por espionagem", disse eu, e acrescentei saber que podia falar livremente a um nacionalista como ele. "Minha prisão não tem importância. Eu não passo de um dentinho na engrenagem da organização". Com outras indiretas animei-o a insinuar nomes e endereços dos meus "contactos". No seu rosto vi estampar-se um ar de vitória ardilosa: pensava ele estar de posse da informação que lhe valeria a liberdade.
Logo que as celas se abriram no dia seguinte, Stavrat viu Armeanu cochichando para o guarda. Imediatamente depois o coronel foi chamado para uma "inspeção médica" - era este um frequente pretexto para consultas a informantes. Depois o oficial político mandou chamar-me. Já se supunha com mais uma estrela no ombro, porque sem qualquer tentativa de defender Armeanu, imediatamente pediu toda a história da grande rede de espionagem internacional que eu lhe referira.
"Tenente", respondi, "se o senhor passar adiante a informação que dei a Armeanu ontem, isso vai provocar um delírio de entusiasmo em Bucareste. Por isso aconselho-o a não fazer isso. O senhor vai somente prejudicar-se".
"Que quer dizer com isto?" indagou. Respondi: "Inventei toda essa história. Quis verificar minhas suspeitas em torno de Armeanu, se procedentes ou não. Agora sei". O oficial fitou-me sem acreditar. Depois soltou uma gargalhada.
Saí e contei a Stavrat. Ele segurou Armeanu. "Homens valentes morreram sob o seu comando", disse-lhe, "e agora você vira traidor!"
Armeanu tentou esbravejar, mas daquele dia em diante se tornou um proscrito. Anos depois ouvi que morrera na prisão. Todas as traições só lhe trouxeram vergonha.
Meu pacote do mês seguinte inclui 100 gramas de estreptomicina. O sinal que eu dera fora compreendido! Pensando nos pacientes que eu deixara na Sala Quatro, pedi ao General Stavrat que desse o medicamento a quem estivesse lá em estado mais grave.
"É Sultaniuc", disse com repugnância. "Um guarda de ferro fascista consumado. Está às portas da morte, embora não queira admiti-lo. Muito melhor é o senhor mesmo toma-lo... Mas, se insiste..."
Stavrat em breve estava de volta. "Quis ele saber de onde procedia o remédio, e quando lhe disse que era seu, afirmou não querer tomar nada que partisse de um opositor da Guarda de Ferro. Nada se pode fazer com um fanático daquela marca".
Pensei que podíamos contornar a situação. Quando Stavrat saiu, pedi a Josif - de quem não se podia suspeitar de duplicidade - que agisse como mediador.
“Diga a Sultaniuc que o general se equivocou. É um presente da parte de Graniceru. Ele também é da Guarda de Ferro, e ouvi dizer que ainda há pouco recebeu alguns medicamentos".
Josif não teve êxito. "Sultaniuc não acredita que Graniceru lhe dê qualquer coisa. Não quer nem olhar para esse pó, a menos que o senhor declare sob juramento que não procede do senhor".
"Por que não?" disse eu. "Dei-lhe o remédio e posso também dar-lhe o juramento. A estreptomicina de fato não é minha, mas de Deus. Entreguei-a a Deus no momento em que me chegou às mãos".
O Dr. Aldeã, que estava ocupado noutra parte quando a estreptomicina chegou, não disse palavra ao ouvir o que acontecera com ela. Até Stavrat ficou perplexo com o meu ato de dar um "falso testemunho". Ele disse: "Pensei que os senhores, clérigos, insistissem sempre pela verdade integral, e por nada senão só a verdade".
Em breve Stavrat teve um exemplo do que podia custar "a verdade integral", quando dois novos presos, um dos quais testificara contra o outro, foram metidos em nossa cela. O primeiro era um bispo católico, que desejava que Roma soubesse quão amargamente sua igreja estava sendo perseguida. O outro era um advogado que entregara a carta de queixa do bispo ao Núncio Papal - quando havia um em Bucareste - para que a encaminhasse ao Vaticano. Quando o advogado deixou o palácio do Núncio foi preso e, tendo negado haver entregue a carta, foi acareado com o bispo. O bispo disse: "Não posso mentir. Sim, dei a ele uma carta".
Ambos foram torturados e acabaram em Tirgul-Ocna, onde discutiram sobre o que fora justo fazer. O bispo esperou que eu o apoiasse; não pude fazer isso. Eu disse: "Se uma pessoa recusa-se a dizer uma mentira, está muito bem, mas neste caso deve guardar consigo os assuntos de gravidade. Se decide pôr em risco a segurança de outro qualquer, deve defendê-la a todo custo".
O bispo protestou: "Todo esse caso fez-me sofrer muito, mas como podia eu dizer uma coisa que não era a verdade?"
Repliquei que se fazemos o bem aos nossos inimigos, com certeza temos a obrigação de ajudar nossos amigos. "Se minha hospedeira passou o dia inteiro no preparo de um jantar que me causou muito mal, ainda me sinto obrigado a cumprimentá-la: isto não é dizer-lhe uma mentira, é simples cortesia. Quando aqui os homens perguntam: 'Quando virão os americanos?' digo-lhes: 'Não podem demorar muito'. Não é verdade, infelizmente, mas também não é uma mentira. É uma palavra de esperança".
O bispo não se convencia. Continuei: "Se o senhor submeter todas as artes aos puristas, elas se tornam mentiras. Fausto não assinou mesmo um contrato com o diabo, o senhor sabe; isso não passa de invenção do mentiroso Goethe. Hamlet nunca existiu - é uma mentira de Shakespeare. As mais simples brincadeiras (espero que o senhor ache graças em brincadeiras) são invencionices".
"É possível que sim", replicou o bispo, "mas aqui está em jogo um caso pessoal. Quando o senhor é interrogado pêlos comunistas, Sr. Wurmbrand, não acha que deve dizer a verdade?"
"Naturalmente não. Não tenho tais escrúpulos que me impeçam de dizer a primeira coisa que me venha à cabeça, contanto que desoriente assim os que procuram pegar meus amigos em armadilha. Devo lá prestar informação que essa gente possa empregar para atacar a Igreja? Sou um ministro de Deus!"
"O mundo costuma dar nomes bonitos a coisas feitas. Fraude é chamada habilidade, talento. Somiticaria recebe o nome de economia. Sensualidade cinge a coroa do amor. Aqui se usa a palavra feia "mentira" para significar o que o instinto nos diz ser correto. Respeito a verdade, mas não vacilo em "mentir" se com isto salvo um amigo".
Quando estávamos a sós, Josif perguntou-me: "Que é pois uma mentira?" "Por que esperava você de mim uma definição? Sua própria consciência, se for guiada pelo Espírito Santo, lhe dirá em cada circunstância da vida o que quer dizer e o que deixar de dizer. Você não pensa que o juramento que levou a Sultaniuc, no caso da estreptomicina, foi uma mentira, pensa?" "Oh! não", disse Josif, com o seu cativante sorriso. "Foi um ato de amor".
A amargura de Josif serenou e um dia, depois de nossa lição de inglês, perguntei-lhe: "Por que diz você que tem ódio de Deus?"
"Por quê?" repetiu ele. "Diga-me primeiro qual a razão de Deus haver criado o bacilo da tuberculose". Ele pensava que com isso dava por finda a conversa.
"Posso explicar", - disse eu - "se você me escutar em silêncio".
Respondeu acabrunhado: "Escutarei a noite toda se o senhor puder explicar".
Adverti que ia pegá-lo em sua própria palavra. Era um problema, disse-lhe, esse que estava na raiz do sofrimento humano e do mal. Josif não era o único e indagar por que tais coisas acontecem sob as vistas de um Deus misericordioso; provavelmente todos nós no cárcere fazíamos essa mesma pergunta, e não havia uma resposta só, senão várias.
"Primeiro, somos propensos a confundir o desagradável com o ruim. Por que o lobo seria mau? Porque devora ovelhas, e isto me constrange. Por minha vez quero comer carne de ovelha! E ao passo que o lobo precisa comer ovelhas para viver, eu não preciso fazer isso, porque posso comer outras coisas. Pior ainda, o lobo não tem deveres para com as ovelhas, enquanto nós as criamos, damos-lhes comida e água, e quando elas estão com toda a confiança em nós, um dia cortamos-lhe o pescoço. Ninguém acha que por isso somos maus".
Josif olhava para mim com a cabeça apoiada numa das mãos.
"Diga-me o mesmo dos bacilos. Um bacilo vive - e faz a massa do pão fermentar; outro bacilo vive - e danifica os pulmões de uma criança. Nem um nem outro sabe o que fazer, mas eu aprovo um e condeno o outro. Destarte as coisas em si mesmas não são boas nem más - classificamo-las de acordo com a sua conveniência ou inconveniência em relação a nós. Queremos que o universo inteiro se adapte a nós, nos convenha, embora sejamos dele uma parte infinitesimalmente pequena".
A cela escura e inesperadamente em silêncio. "Em segundo lugar", disse eu, "o que chamamos 'mau' é muitas vezes apenas um bem inacabado".
"Isto para mim vai precisar de prova", interveio Josif.
Eu disse: "Você teve um homônimo há 4.000 anos, que foi vendido como escravo por seus irmãos e sofreu muitas outras injustiças no Egito. Depois ascendeu ao posto de Primeiro Ministro, e assim capacitou-se a salvar o país tanto quanto os seus irmãos ingratos de morrer de fome. Assim pois enquanto você, como José, não alcançar o final da história, não pode saber se o que aconteceu até aí vai redundar em bem ou em mal. Ao iniciar o pintor um quadro, tudo o que vemos são uns borrões de tinta. Leva tempo para que o modelo do pintor apareça. Todos admiramos o retrato de Monalisa, mas Leonardo levou quarenta anos para terminá-lo. Escalar um monte é difícil antes de se poder gozar o panorama lá do pico.
"Mas os homens que morrem aqui na prisão", disse Josif, "nunca chegarão a ver o panorama".
- Mas, quanto a isso, um período na cadeia pode ajudá-lo a galgar o cume. Teria o camarada Gheorghiu-Dej chegado ao poder na Romênia se não tivesse estado na prisão como nós?
- E os que não vivem para tornar a ver a liberdade?
"Lázaro morreu em pobreza e doença", concluí, "mas Jesus diz-nos em uma parábola que os anjos o levaram para a bem-aventurança eterna. Depois da morte virá para todos nós uma compensação. Somente quando virmos o fim de tudo é que podemos esperar compreender". Josif prometeu pensar nisso.
Uma cura rápida de dor de dentes é notícia boa, e uma carta que recebi levantou-me da minha prostração erguendo-me até ao céu: dizia-me que minha esposa estava livre. Ainda permanecia confinada a Bucareste, mas o meu filho em breve teria licença para visitar-me! A carta terminava aí: era toda a informação permitida.
Deixei Mihai com nove anos, agora ele tinha quinze. Não podia imaginá-lo crescido. Sempre fôramos muito pegados um ao outro. Comecei a impacientar-me dia e noite por revê-lo. Por fim levaram-me a um salão, onde tive de me sentar numa guarita provida de uma janela vedada por três barras de ferro, tão pequena que o visitante só podia ver uma pequena parte do meu rosto.
O guarda anunciou: "Mihai Wurmbrand!". Ele veio e sentou-se diante de mim. Estava pálido e franzino, tinha as faces encavadas e uma promessa de bigode.
Disse às pressas, antes que o interrompessem: "Mamãe diz que mesmo que o senhor morra na prisão, não deve o senhor ficar triste porque todos nos encontraremos no paraíso".
Primeiras palavras de consolação! Eu não sabia se devia rir ou chorar. Recobrei a calma e perguntei: "Como vai ela? Vocês tem comida em casa?"
"Ela está bem", disse ele: "E temos comida. Nosso Pai é muito rico".
Os guardas encarregados de presenciar nossa conversa mostraram os dentes num sorriso forçado. Pensavam que minha esposa tinha-se casado de novo.
Para cada pergunta Mihai encontrava alguma resposta com um verso da Bíblia, de sorte que nos poucos minutos de que dispusemos recebi pequenas notícias da família; contou-me no entanto que deixara um pacote com os guardas no portão.
Recebi o pacote no dia seguinte, como excedente do que me era permitido, por que Mihai o endereçara a "Ricardo Wurmbrand". Os outros tinham sido encaminhados ao meu nome de cadeia, Vasile Georgescu. Logo depois voltaram todas as restrições anteriores: nada mais de visitas nem pacotes nem cartas.
Antes que terminasse aquele período de desafogo, um guarda levou um cesto à cela. Continha lençóis e toalhas, mais do que o suficiente desses inimagináveis artigos de luxo para todos.
"Houve um erro na contagem!" disse EmiJ, alfaiate. "Vamos recortar o que sobrar e fazer roupa! Posso confeccionar umas camisas quentes com este material!"
lon Madgearu, advogado, disse nervosamente: "Isto é roubar o que é propriedade do Estado".- Quem vai saber? Não há inventário!
- Eu sou prisioneiro político, não um criminoso comum.
- Você é um toleirão, isto sim!
A discussão esquentou com palavras dirigidas de parte a parte. Josif apelou para mim.
Eu disse: "Toda esta 'propriedade do Estado' foi roubada de nós. Fomos reduzidos a farrapos; temos o direito de reaver o que for possível. É nosso dever para com nossas famílias fazer tudo que pudermos para sobreviver durante o inverno. Acontece o mesmo quando o guarda chega quase dormindo de manhã cedo e pergunta: ”Quantos estão nesta cela hoje?” Exageramos o número dos que estão conosco para recebermos um pouco mais de pão - o que absolutamente também está certo!"
Madgearu atalhou: "Prefiro conformar-me com a lei". "Mas toda lei é injusta para com alguém", repliquei. "A lei diz uma coisa a um milionário, que tem de tudo para não precisar furtar, e a mesma coisa diz a você e a mim, que nada possuímos. Jesus escusa a Davi por fazer uma coisa que não lhe era lícita quando esteve com fome".
Madgearu por fim concordou conosco, mas depois me disse ter uma razão especial para não fazer concessões daquela natureza.
"Já fui promotor oficial e no meu tempo mandei centenas para a cadeia. Pensava: 'Ora, o que digo não faz diferença; o Partido em qualquer caso os meterá no cárcere'. Quando depois me tornei bode expiatório de alguns erros, recebendo a pena de quinze anos de prisão, fiquei assombrado. Mandaram-me para as jazidas de chumbo de Valea Nistrului. Lá um preso cristão tornou-se meu amigo. Dividia comigo seu alimento e foi para mim um bom pastor. Sinto que já tinha tido contato com ele antes, e então perguntei a razão de ter sido preso. 'Oh', disse, 'ajudei um colega em dificuldade, como você. Ele foi à minha fazenda, em busca de comida e proteção. Depois foi preso como guerrilheiro e eu peguei vinte anos'. Eu disse: 'Que baixeza!', lançando-me ele um olhar esquivo... Aquela objurgatória, que proferi, recaiu sobre mim. Eu fora o promotor no seu caso. O homem nunca me censurou, mas o seu exemplo de pagar o mal com o bem levou-me a decidir ser cristão".
Josif exultou ao experimentar a camisa que Emil lhe fizera dos panos de toalhas excedentes. Era à maneira de túnica, com uma abertura onde enfiava a cabeça, mas ficou contente de ter alguma coisa nova em cima da pele. "Propriedade do Estado! Hoje em dia todo mundo furta", dizia prazenteiro.
Stavrat interveio: "Ele tem isso como coisa aceita. Em dez anos tornamo-nos uma nação de ladrões, mentirosos e reles espiões. Fazendeiros roubam das terras que já foram suas; lavradores roubam da organização coletivista; até os barbeiros roubam as navalhas das lojas que eram suas e que a cooperativa confiscou. E depois precisam encobrir seus furtos. Pastor, o senhor fez restituições de taxas absolutamente certas?"
Admiti não ver qualquer razão para entregar o dinheiro dos meus paroquianos ao Partido ateu.
' 'Furtar vai ser em breve uma matéria ensinada nas escolas", disse Stavrat.
Josif observou: "Eu não lhes dava atenção na escola. Os professores diziam que a Bessarábia, a qual todo o mundo sabe que nos foi roubada, sempre fizera parte da Rússia". "Excelente rapaz!", disse o general. "Espero, Josif, que você também rejeite o que eles ensinavam contra a religião", acrescentei, e contei-lhe de um professor do meu conhecimento que era obrigado a prejecionar regularmente sobre o ateísmo. "Depois de benzer-se, sozinho no seu quarto, pedindo perdão de Deus, saía para dizer aos alunos que Deus não existia".
"Bem, era natural", disse Josif, "devia haver espiões a observá-lo". Não podia ele imaginar um mundo em que as pessoas não precisassem olhar à sua volta antes de abrir a boca para falar.
A conversa passou a girar em torno de um novo delator, chamado Jivoin, que desertara do exército iugoslavo e fora preso na fronteira como espião. Agora, para ganhar as boas graças das autoridades da prisão, passava por aníititoista e trazia os guardas em polvorosa delatando-os, se acontecia de relaxarem os regulamentos.
"Alguns de nós decidimos assustar a Jivoin", disse Josif. "Se todos juntos cairmos em cima dele, não poderão castigar-nos muito".
"Esperem mais um dia", disse eu. "Tenho uma ideia que dará melhor resultado".
Jivoin era mal visto na cela, por isso sentiu-se lisonjeado quando o procurei e indaguei a respeito de sua terra natal. Não demorou a dizer gracejos da Croácia e provérbios da Sérvia, rememorando a beleza de Montenegro, suas cantigas e danças. La ficando sempre mais excitado, eu a instigá-lo.
"E qual é o novo Hino Nacional de sua pátria?" perguntei. - Oh, é magnifico - ainda não o ouviu?
- Não, gostaria muito.
Todo regozijo, Jivoin saltou e começou a cantar. Os guardas do lado de fora não reconheceram o hino titoísta senão quando chegou a vez do estribilho. E logo Jivoin foi agarrado e levado a enfrentar um irado oficial político.
"Bem, é o fim dele", disse Josif. E começamos a rir.
Não muito depois de Jivoin ter sido afastado do nosso meio, um ex-guarda de ferro, Capitão Stelea, foi removido para a nossa cela, vindo de outra abaixo da galeria. Lá deixara, com tristeza, um velho companheiro dos tempos de guerra.
"Qual o nome dele?" perguntou o General Stavrat.
"lon Coliu", respondeu Stelea. "Foi posto comigo na noite que se seguiu à minha chegada em Tirgul-Ocna, quando conversamos a valer sobre os tempos de outrora.
Stavrat perguntou se ele havia contado a Coliu algum segredo que não revelara no interrogatório e sob tortura.
"Sim, tudo", disse Stelea. "Ele foi meu amigo íntimo durante anos. Eu arriscaria minha vida por ele".
Ao dizer Stavrat que lon Coliu se tornara o mais vituperado alcagüete de Tirgul-Ocna, Stelea não pode acreditar. Pediu-me confirmação do fato. Durante horas Stelea ficou sentado em sua tarimba qual soldado traumatizado que sofresse de uma neurose de guerra. A seguir deu um salto e começou a bradar e lutar conosco, histericamente, até que os guardas o levaram.
Reserva-se uma sala em todos os presídios para os que sucumbem. São deixados lá a esbravejar e gritar, a defecar no chão e a se engalfinharem, às vezes até morrerem. A comida lhes é empurrada por uma portinhola e aí deixada. Guarda nenhum arrisca a vida entre eles.
A sentença de Josif ia expirar dentro de poucas semanas. Fazia planos para o futuro, disse-me: "Minha irmã na Alemanha procurará conseguir licença para viajarmos à América. Aperfeiçoarei o meu inglês e aprenderei um ofício!"
Mas ainda abominava o seu rosto desfigurado. Certa noite contei-lhe como Helen Keller, apesar de cega, surda e muda, veio a ser uma das grandes personalidades da América. Ficou fascinado ao descrever-lhe eu como aprendera sozinho piano, tornando-se exímia pianista, auxiliada apenas por um pedaço de madeira ressonante preso nos dentes, a outra extremidade fixado ao piano, e como o seu trabalho trouxe o sistema Braille para milhares de cegos.
"Escreveu em um dos seus famosos livros que, não obstante nunca ter visto o Céu estrelado, levava-o no coração. Estava aí a razão de ter podido expor ao mundo, que possui estes sentidos, mas que muitas vezes deixa de usá-los, a beleza da criação de Deus".
Contei-lhe ainda que Helen Keller veio de uma família rica. Se tivesse sido "felizarda" como outras moças, possuindo todos os cinco sentidos, teria dissipado sua vida em trivialidades. Ao invés disso, usava o que o mundo chamava "mal" como estímulo para alcançar as altitudes de novas realizações.
Josif refletiu. "Helen Keller deve ter sido um caso entre mil", disse.
"Não. Há muitos iguais a ela. O escritor russo Ostrovsky era cego, paralítico e tão pobre que precisou escrever sua novela em papel de embrulho. Hoje tem fama universal. Grandes homens o mais das vezes têm sido doentes. Schiller, Chopin, Keats foram tuberculosos como nós. Baudelaire, Heine e nosso poeta Eminescu foram sifilíticos. Dizem os cientistas que os bacilos dessas enfermidades excitam nossas células nervosas e por esta forma aumentam nossa inteligência e força de percepção, embora possam ocasionar loucura ou morte no fim. A tuberculose pode tornar pior uma má, contudo as boas tornam-se melhores; vêem que suas vidas vão-se apagando e desejam fazer todo o bem que podem no tempo que lhes resta".
Josif ajudou muitas vezes na Sala Quatro. Eu disse: "Você não viu a excepcional serenidade, gentileza e lucidez que sobrevêm a alguns daqueles que sofrem de tuberculose?"
Seus olhos brilharam. "Isto é certo. Como é esquisito!" Continuei: "Durante milênios o homem considerou o fundo - esse mofo de paredes - como coisa ruim. Há vinte e cinco anos, porém, Sr. Àlexander Fleming achou naquilo um bem, descobrindo a penicilina que tantas doenças cura. Até que se conhecesse sua real utilidade esse fungo era um mal. Pode ser até que ainda precisemos conhecer o meio de fazer o vírus da tuberculose agir em benefício nosso. Quando acontecer que esta nossa moléstia incurável se vença, em nossos filhos talvez se inoculem pequenas doses do seu germe para lhes ativar a inteligência".
"Deus fez o Céu e a Terra, também a sua vida e tanta beleza, Josif! Há sentido no seu sofrimento, como o houve no de Jesus, porque foi sua morte na cruz que salvou a humanidade".
Josif tiritava em sua camisa nova, que já estava ficando poída. Peguei a jaqueta de lã que meus parentes me haviam mandado, e dela tirei o forro para mim. Persuadi Josif a ficar com a jaqueta. Com os braços envolveu-a de encontro ao peito para mostrar como se sentia com ela aquecido. Sua conversão começou naquele dia. Apesar disso ainda faltava alguma coisa para levá-lo de todo à fé.
E isso aconteceu durante a distribuição das rações de pão. Estas eram postas em carreiras sobre uma mesa todas as manhãs. Cada porção devia pesar uns cem gramas, porém, algumas eram um pouquinho maiores, outras, menores. Muitas vezes havia discórdia sobre a quem tocava a vez de escolher antes de outros, e brigavam a respeito de quem seria o último. Uns indagavam o parecer de outros: qual será a maior porção das que ali estavam. E tirando a porção indicada por outros, suspeitavam que tinham sido logrados, e assim amigos se tornavam azedos uns com os outros por causa de um bocado a mais ou a menos de pão preto. Ao procurar lograr-me um preso intratável chamado Trailescu, Josif ficou observando.
Eu disse a Trailescu: "tome também a minha ração. Sei que você está com muita fome". Ele deu de ombros e meteu o pão na boca.
Sentamo-nos a traduzir versos do Novo Testamento naquela noite para o inglês e Josif adiantou: "Já lemos quase tudo o que Jesus disse, mas ainda gostaria de saber como era ele, com quem se parecia".
Respondi: "vou dizer-lhe. Quando eu estava na Sala Quatro, havia um pastor que dava tudo quanto tinha - seu último pedaço de pão, seu medicamento, o casaco que usava. Eu também dei coisas assim algumas vezes, quando delas precisava para mim. Mas outras vezes, quando os homens estavam famintos, doentes e necessitados eu podia estar muito tranquilo, não me incomodava. Aquele pastor parecia-se de fato com Cristo. Era de se pensar que o simples contato de sua mão podia curar e acalmar. Certo dia ele conversava com um pequeno grupo de prisioneiros e um deles fez a pergunta que você me fez: com quem Jesus se parece? Nunca encontrei ninguém como esse homem que o senhor descreve, tão bom, amável e digno de confiança'. E o pastor replicou, num momento de muita coragem, simples e humildemente: 'Jesus é como eu". E o homem que tantas vezes tinha sido atendido bondosamente por ele, respondeu sorrindo: 'Se Cristo era como o Senhor, então eu o amo'. São muito poucas, Josif, as vezes em que alguém pode falar assim. Mas para mim é isto o que significa ser cristão. Crer em Cristo não é tão grande coisa como se tornar a pessoa que Ele é “.
"Pastor, se Jesus é como o senhor, neste caso eu também o amo", disse Josif. Afirmou isto com um olhar fixo, pleno de inocência e paz.
Passou aquele momento e prosseguimos a nossa lição. Contei-lhe como Jesus respondeu aos judeus que pediam um sinal, para que nele pudessem crer. "Nossos pais", disseram, "receberam pão do Céu. Moisés o conseguiu para eles". Jesus replicou-lhes: "Eu sou o pão da vida. O que vem a mim nunca terá fome ou sede. Vossos pais comeram e morreram. Falo do pão que vem do Céu; quem dele comer nunca morrerá".
No dia seguinte Josif foi servir na Sala Quatro, como tantas vezes fazia. Quando à noite nos encontramos, ele disse: "Quero ser cristão mais do que outra coisa". Batizei-o com um pouco de água de um caneco de estanho, dizendo: "Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo". A amargura dissipou-se do seu coração completamente antes de ser libertado.
No dia de sua partida abraçou-me. Dos seus olhos corriam lágrimas. Ele disse: "O senhor me ajudou como se fosse meu pai. Agora posso agüentar-me, com o auxílio divino".
Anos depois voltamos a encontrar-nos. Ele era cristão. Mas agora se orgulhava da cicatriz que antes detestava.
Os diretores do nosso presídio logo ficaram refeitos do susto causado pela morte de Stalin. Tinha havido sérias perturbações nos campos de escravos da Sibéria, e eles estavam determinados a não mostrar fraqueza. As velhas restrições voltaram a vigorar e foram criadas outras. As janelas foram fechadas e seus vidros pintados, apesar dos protestos do médico; só à noite, quando os guardas não estavam vigiando é que podíamos abrir uma brechinha nelas. No verão o calor e o fedor eram horríveis.
Fora, igualmente, aumentaram os sofrimentos da Igreja. Ouvimos de padres ortodoxos recém-detidos, que o Patriarca Justiniano se tornara cem por cento um instrumento do Partido. Um dos seus piores atos foi sua maneira de tratar Madre Verônica, uma freira reverenciada por toda a Romênia. Anos antes, quando era uma camponesa analfabeta, Verônica alegava ter tido uma visão da Virgem Maria, que lhe apareceu num campo e lhe disse que fosse construído um convento naquele local. Depois de várias aparições daquela natureza começaram a chegar donativos e 200 moças tomaram o hábito. Nos anos seguintes o santuário da Virgem tornou-se lugar de peregrinação como Lourdes, e depois que os comunistas assumiram o poder a lenda de que ela redimiria a Romênia adquiriu novo sentido. Um dia Justiniano chegou em um carro preto lustroso e começou o seu serviço excomungando o capelão da igreja do convento. Depois, como chefe da igreja, disse às freiras que elas estavam perdendo o seu tempo em preparar-se para uma vida além desta; muito melhor seria que saíssem dali e fossem gozar os prazeres do mundo - por que haveriam de renunciar os direitos que o sexo lhes dava em troca de uma ilusória bem-aventurança futura? As freiras não lhe deram ouvido. Recusaram-se a deixar seu refúgio. Assim, à vista de Justiniano seguiu-se uma batida pela Polícia de Segurança. As irmãs que não quiseram quebrar seus votos foram vergonhosamente maltratadas, e acabou fechando-se o convento. A notícia desse fato abalou a Romênia: o Partido ficou preocupado. Madre Verênica foi submetida a enorme pressão em uma prisão secreta e obrigada a confessar que a visão que tivera foi uma burla. Depois que foi solta, casou-se e teve filhos. E assim foi que acabou a Lourdes romena.
Outro golpe nos fiéis foi o que aconteceu a Petrache Lupu, conhecido como o "santo zagal" de Oltenia. Quando guardava seu rebanho muitos anos antes, vira a figura de um velho. Este se apresentou como Deus, declarando que mais igrejas deviam ser construídas e dinheiro dado aos pobres. Apesar de Lupu ter sífilis hereditária, mal podendo falar que se entendesse, acreditou-se em sua história. Milhares de pessoas foram vê-lo. Rebentando a guerra, e sendo ele encaminhado à frente de batalha para animar as tropas, os soldados disputavam o privilégio de beijar-lhe a mão. Ia de um setor a outro dizendo-lhes que Deus queria que matassem mais russos. Sendo capturado pêlos comunistas, Petrache Lupu perguntava aos seus companheiros de prisão quando era que os americanos iriam resgatá-los. "Por que esperar pêlos ianques?" diziam-lhe. "O seu 'Velho' com certeza virá libertá-lo em breve. Lupu cacarejava. Ele gostaria de fazer isto, mas não arranjou ainda uma espingarda!"
Os padres ortodoxos narravam com tristeza outro caso: o de um frade milagreiro, Arsene Boca, cujos adeptos diziam não precisar confessar-lhe os pecados, porque ele sabia quais eram estes só em olhá-los de relance. Boca passou um tempo preso. Depois abandonou o hábito, casou-se, vivendo como os demais homens.
Muitos dos golpes desferidos pelo Partido na religião, apenas decepavam galhos de crendices supersticiosas, deixando a fé autêntica mais pura do que nunca. Mas a natureza humana é tal que se a superstição religiosa vem a ser tosada drasticamente é possível que a superstição ateística lhe tome o lugar. Em vez de veneração às imagens sagradas, temos a idolatria a Stalin, o assassino de multidões, passando o segundo demônio a ser pior do que o primeiro.
Nova leva de presos chegou e um deles, que tinha sido surrado gravemente, mandou chamar-me. Fui com o Professor Popp corredor afora.
Era Boris. O velho sindicalista dos trabalhadores tinha estado em várias penitenciárias desde que a reeducação tivera fim. Jazia no chão, onde os guardas o soltaram. Os outros da cela estavam fora, em exercícios, e ninguém lhe tinha prestado qualquer auxílio até que Popp passou. Pusemo-lo com cuidado num leito de tábuas. Sua camisa imunda estava grudada à pele com sangue coagulado. Devagar e doloridamente ensopamo-la e despregamos, pondo-se à mostra nas costas marcas entrecruzadas, novas e antigas, de chicotadas. Foi o pagamento que lhe deram por cooperar com os reeducadores, e o prêmio de todos os seus companheiros que pensavam granjear as boas graças do partido brandindo cassetetes.
Os presos, vindos do exercício, puseram-se em fila, e muitos