O QUE OS FILHOS DOS HOMENS DISCUTEM
"Portanto tu, filho do homem, diz aos filhos do teu povo: A justiça do justo não o livrará no dia da sua transgressão; e, quanto à impiedade do ímpio, por ela não cairá ele no dia em que se converter da sua impiedade; nem o justo pela justiça poderá viver no dia em que pecar", Ez.33:12

As pessoas nos meios religiosos envolvem-se sempre em discussões vãs que nunca lhes parecem ser vãs sequer (sempre o fizeram). Discutem doutrina em vez de experimentarem doutrina, discutem o baptismo em vez de se baptizarem e de seguirem em frente com suas vidas: falam de Jesus e ninguém O vê!

Quem não discute, pode viver daquilo que os outros só falam. Um ateu assumido que discute o ateísmo não é ateu, pois na verdade gostaria que Deus não existisse, mesmo sabendo ou suspeitando que existe (sem desejar reconhecer que o faz). Se discute, é porque está em conflito com o assunto. Um ateu que vive ateísmo sem qualquer discussão, é um caso grave de anormalidade: a esse sim, devemos prestar mais atenção. Do mesmo modo, alguém que experimenta Deus e alguém que diz que experimenta Deus quase nunca experimentam o mesmo ser dentro deles. Existe uma disparidade experimental entre vidas que falam a mesma coisa e outras que experimentam de facto, quer falem ou não. Até pelo comportamento se distinguem uma da outra. Existe, por exemplo, uma enorme diferença entre quem teme a Deus e alguém que discute tudo sobre o temor de Deus. Será por essa razão que Paulo ordena a Timóteo (entre outros) "ó Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado, evitando as conversas vãs e profanas e as oposições da falsamente chamada ciência; a qual professando-a alguns, se desviaram da fé", 1Tim 6:20-21; "Procura apresentar-te diante de Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. Mas evita as conversas vãs e profanas; porque os que delas usam passarão a impiedade ainda maior", 2Tim.2:15-16.

Existem conversas vãs e outras que não são vãs: isto é o que Paulo tenta passar aos que eram fiéis para ensinarem a outros também, 2Tim 2:2. É uma coisa alguém discutir até mesmo contra a circuncisão, sabendo que sua vida pode e tem, antes, de revelar e manifestar uma circuncisão de coração a tempo inteiro. Não que a discussão a favor ou contra a circuncisão seja algo mau em si mesmo, mas antes que existe uma maneira de acabar com toda aquela discussão: experimentando-a por dentro, comprovando-a provando-a e vivendo aquilo que Deus promete dar e fornecer a todos os limpos de coração - sem excepção.

Por norma, alguém que discute algo, discute entre si mesmo, isto é, está em conflito com tudo aquilo que discute; por essa razão discute: ou está em conflito de consciência querendo que seja aprovado tudo quanto gostaria de acreditar (porque tais pessoas dependem muito de se sentirem em grupo para que se sintam apoiadas); ou está em conflito com a verdade, mesmo que a aprove e gostasse de a ver desaprovada. Alguém pode discutir intransigentemente a favor da confissão de pecado sem nunca se ocupar com ela! Na verdade, mesmo que se diga a favor de tal coisa, está em discordância interior com ela na prática, pois, por essa razão discute e debate-se com o assunto. Se não houvesse um debate interior, nunca haveria um exterior. O mesmo se pode dizer de qualquer outra doutrina mais ou menos pura como esta. Quem se debate com doutrina, não tem necessariamente Deus com ele - por vezes, por não ter é que discute.

Qualquer discussão de doutrina tem sempre um pressuposto errado por detrás de si dando-lhe a força que compunge à discussão, pois, apenas a pessoa que não experimenta é capaz de discutir buscando dessa forma o apoio externo que lhe falta interiormente. Os bandidos andam sempre em bandos para se fortalecerem, mas nunca porque tenham amor pelos membros desse bando, mas antes buscam-se para seu próprio benefício individual. Do mesmo modo, os errados de espírito buscam os que falam como eles para se poderem sentir seguros.

Também vemos que qualquer discussão é um desvario em si mesmo. Logo, atrai outros desvarios que se tornam doutrinas aceites apenas porque as pessoas que sentem e experimentam os mesmos desejos de paz dentro do erro, sentem-se bem quando juntas. Já vi pessoas que nem sequer sabem ler ou escrever, saberem mais por experiência própria que teólogos formados em doutrinas muito bem perto da pureza desejável. Toda a mentira nasceu porque tem de encobrir algo. A hipocrisia é uma forte aliada da mentira, pois existe algo que se quer e deseja, que nunca se consegue a não ser fingindo. Sabendo qual a verdade, torna-se muito fácil querer viver conforme esta sem ter acesso a Jesus por causa do pecado encoberto: e nós sabemos que Jesus é o único Caminho e acesso a uma experiência desta vida de pureza de forma real. Também sabemos que Jesus não se deixa seduzir pelo homem, que não agrada uns mais que outros. A mentira nasceu porque alguém pecou e queria encobrir o que fez.

Voltando ao nosso texto: uma das coisas que se discute hoje, é a salvação. Uns dizem que se perde, outros que nunca se perde. Mas tanto uns como outros estarão discutindo algo com raiz de erro. Por um lado nem sequer sabem de que salvação se trata, pois assumem que salvação é vida depois da morte, quando Cristo fez passar que salvação é ser salvo da força do pecado, Mat.1:21, João 8:32-36. Logo, discutir se esta se perde é coisa vã, uma pura perda de tempo precioso, o qual se poderia estar usando vivendo o que se prega. Esta discussão tem uma raiz, uma base de erro e quem afirma que esta se perde, está tão errado como quem afirma que nunca se perde: mas errado de raiz, de espírito, pois acha e assume que a salvação é algo que que lhe sairá em sorte depois da morte.

O que a Bíblia faz passar, é que o pecado afasta de Deus, esteja este em quem estiver. Do mesmo modo que Deus não pensará no pecado de quem se converte a ele, também (afirma Ele) não julgará conforme a justiça anterior de alguém que entretanto se entregou e converteu à hipocrisia do pecado. Para Deus se esquecer do pecado, a pessoa terá de se converter; e para Deus se esquecer da justiça, tal pessoa terá, também de se converter em pecado.

Qualquer pecado traz com ele a hipocrisia. Um ladrão quer sempre passar por dador bondoso; um mentiroso quer sempre ser achado verdadeiro; um homem mau quererá ser justificado em tudo quanto faz. Da mesma forma, vemos que qualquer pecado traz com ele uma multiforme quantidade de preceitos para a praça de discussão que tem como objectivo apenas encobrir o mal que fez ou ainda faz. Não é de admirar, pois, que as pessoas que estejam em dissonância contra Deus, em espírito e verdade, se entreguem à igreja, se apliquem na evangelização, se esforcem nas reuniões de oração sem resposta. Qualquer demónio de carne tem por preceito ambulante querer e poder saber mais que os verdadeiros filhos de Deus. Ele crê que isso o transformará num anjo!

Qualquer Calvinista convicto será sempre o primeiro a usar de palavras como "temos de orar muito, irmão!", sendo que prega que é pela graça que Deus tem que se recebe e não pelas obras de orar muito. Tal pessoa diz que é contra as obras para alcançar de Deus, mas envolve-se de tal maneira no seu "orar muito" que nem toma consciência da fidelidade de Deus e na possibilidade de Deus responder mesmo antes que se possa pedir até. Logo, assume que Deus dá sem ser preciso pedir naquelas coisas que não experimenta na verdade, para as quais arranja sempre forma doutrinaria de se desculpar. É estranho de se ver que, quando se trata de sua vida pessoal, de sua saúde em dado momento, da vida dos seus, do seu emprego e salário, já seja necessário orar muito na igreja – algo que não faz pela salvação dos outros, pois crê que virão a Deus se foram escolhidos por Ele. Têm sempre dois pesos e duas medidas para situações distintas. Quando as coisas são carnais e pessoais, as suas doutrinas tomam contornos práticos distintos dos que se acham quando tem a ver com as coisas reais de Deus, pois, nessas alturas, entra a passividade doutrinaria como desculpa para a incapacidade que acha dentro de si mesmo e para a qual nunca acha explicação plausível e concludente.

Do mesmo modo se acha alguém que prega que nada depende das doutrinas as quais sua mente acha supra falsas, alguém que se assume como Arminiano, que na prática assume sempre que Deus dá de facto e não admira que dependa de tal forma vivida e real da graça de Deus que receba quando pede, mesmo pregando que tudo depende do que o homem faz.

Por isso, a discussão na praça pública do Arminianismo e do Calvinismo (a qual só traz confusão em vez de edificação), nunca é um quadro perfeito da realidade de tudo quanto se passa dentro das pessoas na realidade. Deus abençoa conforme a obra feita e terminada no interior de cada um, aquela que permitiu que Deus fizesse em si pela fé em obediência incondicional. Jesus mesmo diz que a bênção será conforme a obra de cada um e não o contrário. E essa obra não tem como ser feita sem Deus. É obvio que é a bênção que traz fruto. Deus nunca abençoa conforme a doutrina da igreja, mas antes conforme o coração que o homem tem (o qual obteve de Deus). Logo, se o seu olho o transforma porque contempla Deus de forma prática mesmo pregando que tal coisa nunca é possível, Deus contemplará com bênção tudo quanto possa fazer em sua vida funcional e prática, pois seu coração (que pode até estar encoberto ao próprio) nunca o atraiçoa diante de Deus. Todo fruto (pelo qual se conhece a árvore) vem de Deus. Se a pessoa o tem, terá mediante o coração que tem e nunca mediante a doutrina na qual possa acreditar ser verdadeira ou falsa.

Se vê e contempla o mundo ao mesmo tempo que prega a verdade porque a aprendeu como lição de escola bíblica, assumimos que seu coração se transforma ao contemplar e não ao afirmar. Se contempla pecado, será pecador; se contempla Deus, será justo, pois lemos que "convertendo-se um deles ao Senhor, é-lhe tirado o véu. (17) Ora, o Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade. (18) Mas todos nós, com rosto descoberto, reflectindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, (a qual contemplamos assumidamente) como pelo Espírito do Senhor", 2Cor 3:16-18. Sabemos que o olho do homem será sempre a candeia de todo seu ser, de todo seu corpo. Se vê e aprecia novela, toda sua vida será uma novela, mesmo que ache novela coisa ruim de se ver. Se contempla Deus, virá a ser como Deus. Se os humanos, semente de Adão, nascessem no céu, seriam todos santos; nascendo na terra terão de contemplar Deus para virem a ser como Ele, abstendo-se de ver o mundo através da sua candeia contemplativa: seus olhos.

É de realçar, então, que da mesma forma que Deus se pode esquecer dos pecados de alguém, também se poderá lembrar dos pecados de alguém ou de esquecer da justiça de alguém. Tal coisa dependerá em muito daquilo em que se estiver convertendo, mediante a candeia de sua alma. Deus perdoa quando alguém se converte a Ele, não se lembrando dos pecados que cometeu. Mas, Deus também tem como culpado quem praticou a justiça e se converteu em sentido oposto porque descansou e, por essa razão, seguiu contemplando o mundo logo porque se tornou crente, ou mesmo mais tarde. Para tudo serve o que Pedro disse: "convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados", Act.3:19.

"Quem é Deus semelhante a ti, que perdoas a iniquidade e que te esqueces da transgressão do resto da tua herança? O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque ele se deleita na benignidade", Miq.7:18. Para isso teremos de deixar a discussão como forma de encobrir nossos pecados, os quais desculpamos, aprendendo a amar a quem os desculpa também. "O que encobre as suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia", Prov.28:13.

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José Mateus
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