A SEDE QUE TEREMOS, VIVENDO DO MUNDO
"Replicou-lhe Jesus: Todo o que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna", João 4:1314

Existe água que nos deixa com sede depois de a bebermos. E esta sede é uma coisa que nos leva a buscar mais água que nos deixa com maior e mais exigente sede ainda. Porque razão um ser humano torna a ficar com sede depois de haver sido saciado pelo mundo? Porque razão fica farto se se sentir preenchido e, mesmo cheio e farto, continua tendo sede? Imaginemos alguém com o estômago cheio de água, sem poder beber mais, empanturrado e mesmo assim cheio de sede. Na verdade, é isso mesmo que ocorre com quem se deleita e come do mundo, de suas coisas e faz uso de seu jeito nascido no inferno: querem sempre mais e nunca estarão saciados. E como podemos esperar que algo nascido no inferno nunca se venha a tornar infernal? E, neste mundo, existem aqueles que estão cheios e nem conseguem beber mais daquilo que já têm em abundância, como existem os que têm a fome que os levará sempre a buscar aquilo que sabem que não satisfez quem tem muito mais que eles. "Será também como o faminto que sonha que está a comer, mas, acordando, sente-se vazio; ou como o sedento que sonha que está a beber, mas, acordando, desfalecido se acha ainda com sede; assim será com todas as nações...", Is.29:8.

Qual a origem desta sede? Quais as razões da sede que retornará sempre? Porque razão o homem sente essa sede do jeito que sente? E qual a razão porque volta a senti-la depois de haver bebido? Existe uma razão muito especial para que isso ocorra, assim dessa forma.

Existe uma fome de nos saciarmos a nós mesmos por nós mesmos e muitas vezes uma imensa fome de o fazermos através de nossos próprios meios, recursos e mecanismos. A fome nem será só de comida, mas será, também e acima de tudo, um certo tipo de fome de ser-se saciado usando os meios da própria pessoa em quem depositamos imenso amor e confiança: nós próprios. Os meios e os fins fazem parte da comida e do sabor de tudo aquilo que se come neste mundo e da forma como se come também. O homem sente prazer, também, quando usa seus próprios recursos, seus trapos de imundície, Is.64:6. A maioria dos seres humanos lutam mais pelos seus jeitos de fazerem as coisas, do que pelas coisas em si. Por essa razão vemos como as pessoas preferem ganhar um argumento acima de que esse argumento seja válido e verdadeiro somente. Se ganharem um mau argumento sentir-se-ão realizados também. Mas quando buscamos a verdade para a acharmos como ela é, nem nos importa saber que o mundo ache que se ganham ou se perdem argumentos. Nós desejamos apenas a verdade das coisas e que a realidade das mesmas se concretize logo. Se seu filho estiver à beira da morte, vai ser importante quem o cura? Será que faz questão que seja você a curá-lo e não um médico que entende seu ofício melhor que ninguém?

Mas falemos da origem desta sede que é capaz de tornar todo homem tolo, intolerável até para ele próprio e irracional. A origem da sede que perturba todo o ser humano é o egoísmo. O egoísmo é um poço sem fundo. A busca de auto-realização, prazer, ganho, satisfação e muitas outras coisas, fazem o homem entrar por caminhos incríveis e animalescos. Nesses caminhos ele pensa que achará aquilo que lhe falta, um procedimento que lhe faz ter mais sede ainda. Mais sede também faz o homem insaciável pensar e acreditar que achou tudo que lhe convém. Muitos nem sabem definir o seu alvo, mesmo que o chamem de felicidade, pois, após casarem buscam outro parceiro de novo e o seu "felizes para sempre" nem durou muito. A vida dum pecador é infernal e leva-o a ser devasso porque nem se sente saciado com o sexo normal; leva-o a roubar porque aquilo que tem já não lhe basta; a mentir, também, porque a verdade não sacia o seu egoísmo e egocentrismo. O homem tem sempre sede porque trabalha para aquilo que morre e terminará mais cedo ou mais tarde. Mas, o facto de seus objectivos serem finitos e curtos, não será a principal origem dessa sede que leva muitos homens a cometerem loucuras, a abandonarem lares e filhos em busca da tal felicidade, passando por cima, ignorando e atropelando uma consciência que é o único barómetro de paz interior; a beberem até ficarem sem saber quem são; a terem ideias sobre o sexo quem nem animais têm. É como se fosse uma corrida ao ouro que nem existe. E a nossa paz de espírito depende em grande parte da nossa paz de consciência e nunca daquilo que buscamos para nós mesmos.

A origem dessa fome é o egoísmo. Mas, a força que movimenta todo homem nessa corrida é a mentira e a ilusão. Na verdade, será preciso haver um coração verdadeiro para que se possa crer na verdade. E só um coração mentiroso consegue crer na mentira. Não que esse coração seja ignorante ao ponto de achar que a mentira é verdade, mas antes que o tipo de coração que tem sente-se confortável quando mente para si mesmo ou quando lhe mentem, sente-se como que em casa. "Acaso andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?" Amos 3:3. É preciso ter um coração português para vibrarmos com Portugal, como será preciso termos coração brasileiro e familiarizado com seus modos para entendermos, aceitarmos, imitarmos sem pudor ou ciúme tudo aquilo que se faz no Brasil e o jeito que se faz também. Mesmo que não haja acordo quanto aos objectivos, poderá ainda haver uma coerência quase inconsciente nos meios e nos modos de fazer tudo quanto se faz. Tudo depende apenas do coração que se têm, que se criou, que se formou e que se configurou em nós. Será por essa razão que Jesus dá um ênfase incondicional a que as coisas cá na terra sejam feitas como elas são feitas no céu. Jesus também afirmou que, onde estiver nosso tesouro, ali estará nosso coração e para lá se movimentará instintivamente. Seus impulsos e seus pensamentos involuntários estão virados para onde? Para o céu? Quando você é natural e simples, para onde se movimenta? Nem importa saber para onde diz que vai sempre que se movimenta quando usa de força e de teimosia. Importa apenas saber aquilo que você é naturalmente e em que se tornou. Será isso que fará todo ser passar ou reprovar o teste do dia do Juízo. E nem adiantará tentarmos convencer Deus de que pregamos o evangelho entre outras coisas e que lhe chamámos sempre de Senhor de nossas vidas, pois nossa vida nem era apegada a Ele, mas era antes forçada a sê-lo por medo da condenação de Deus ou da condenação verbal de outros crentes.

Na verdade, todos nós assumimos quase instintivamente que as águas que Jesus fala aqui, vêm saciar quem somos. Mas é mentira. Essas águas vêm saciar apenas a pessoa que nos tornamos em Cristo. O ser egoísta deixa de ter sede porque morre. Essa será uma das razões porque todo aquele que vem a Cristo nunca mais terá sede. Se ainda bebe do mundo, significa que ainda está vivo para o mundo. Se continua vivo, continuará a ter sede. Vemos que Cristo afirmou que, aqueles que bebem da Sua água nunca mais tornarão a ter sede. "Pelo contrário, a água que Eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna". Porque será? Simplesmente porque esta água, além de se tornar abundante pelas razões que passarei a explicar logo de seguida, tornam-se águas que saem de nós e não que entram para nosso proveito. O amor de Deus é derramado em nós para amarmos e não para sermos amados. Quando Paulo fala de que nada nos separará do amor de Deus, ele quer simplesmente afirmar que nada nos impedirá de sermos amor e de amarmos continuamente. Como o amor é o oposto do pecado, podemos assumir que Paulo apenas afirma que nada nos fará pecar, nada conseguirá fazer-nos viver de outro jeito e de outra vida. Esse amor não é para nós, mas é antes através de nós. E se amarmos os outros, se outros amam a nós devido às mesmas consequências de se haverem decidido tomar sua Cruz para serem crucificados com Cristo logo ali (e não para a carregarem toda a vida), se amarmos Deus, se Deus também nos ama, cada qual está ocupado com a parte que lhe compete e que lhe cabe muito bem. "A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto esperarei nele", Lam.3:24. "Tu, Senhor, és a porção da minha herança e do meu cálice; tu és o sustentáculo do meu quinhão. As sortes me caíram em lugares deliciosos; sim, coube-me uma formosa herança", Sal.16:5-6. Você deixou de ter sede que não sabe definir que coisa quer?

São essas as águas que nunca mais nos deixam ter sede, pois o egoísta morreu e Cristo crucificou-o para sempre. Aquilo que a Lei não conseguiu alcançar, Cristo alcançou ou alcança em nós. O fundo e os fundamentos dos recipientes desta vida é sólido, duradouro e permanente. Em contraste com isso, o fundo e os alvos de quem ainda bebe da água do mundo, funciona como um fundo de areia numa piscina: a água logo desaparece e a terra a absorve - e isso através de seu próprio fundo, usando seu próprios meios que são simplesmente inconstantes e pouco eternos. Todo aquele que coloca água numa piscina com fundo de areia, é bobo. Deus nunca colocaria água viva num fundo de areia. Mas, precisamos ser puros para sermos vasos para essas águas vivas abundantes.

É e será sempre um facto que essa água que Cristo dá será sempre abundante e equivalente a rios de água viva. Se ninguém tem como parar um rio, imaginemos esses rios no plural. Mas, a única razão porque esses rios transbordam se se tornam abundantes (e todos os rios iniciam-se e começam numa fonte), é que o ser egoísta que desperdiça tudo e se deixa sugar pelo pecado e absorvido por essa vida sem contestá-la (mas reclamando contra Deus!), mesmo que permaneça em ou com insatisfação, esse mesmo "corpo da morte" segundo Paulo, deixa de existir. Quando este ser abominável e insaciável morre, estes rios começam a fluir. Vemos através das palavras de Jesus que os rios de água viva saem do novo ser e não entram nele. Para bom entendedor, meia palavra basta. "Quem tem ouvidos, que ouça aquilo que o Espírito diz às igrejas" - mas que ouça logo!

Seria de esperar de seres inteligentes que conseguissem verificar por eles mesmos que a sua sede aumentou depois de haverem bebido do mundo e de suas fontes contaminadas de egoísmo. Na verdade, os homens entram por caminhos e por linhas de raciocínio onde são eles a decidirem o que está certo ou não. Se Deus condena o mundo e a música do mundo, porque razão quererei viver para Ele com essa música em meu ouvido e vida ainda? Mas todo homem concorre e disputa em prol do tempo para ter como pensar em achar a água que aumenta sua sede. Nenhum pecador tem tempo para pensar ou achar que está errado sequer. Quando um pecador começa a achar que sua vida nem tem saída, ele preferencialmente e de imediato pensa em suicídio, pois fica chantageando e ameaçando Deus através de sua própria vida. O pecador prefere perder sua vida acima de perder a possibilidade de continuar pecando. Mas, o que Deus mais deseja, é que um pecador morra: para o pecado e para o mundo, porque senão Deus desejará que ele morra para sempre. "Vê que hoje  pus diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal (...) O céu e a terra tomo hoje por testemunhas contra ti de que pus diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência, amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz e te apegando a ele; pois ele é a tua vida e o prolongamento dos teus dias; e para que habites na terra que o Senhor prometeu com juramento", Deut.30:15-20.

"Bem-aventurados os que têm fome e sede de serem justos, porque eles serão saciados", Mat.5:6. Ámen.

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José Mateus
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